Crônicas de Zé do Bode

jul 04 2015 Published by under Zé do Bode

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Você conhece Zé do Bode? Não? Pois sou eu mesmo em pessoa e alma. Um cabra das catingueiras do Sertão, cabra macho, cabra de decisão. Comigo não tem essa de deixar para amanhã, resolvo tudo é na hora, por isso peço que mantenha distância, pois só ando sem freio e sem direção. Muitos irão indagar por que Zé do Bode? Adianto-lhe logo que nunca criei sequer um animal dessa espécie. Lembro-me bem quando tudo começou, foi no tempo em que eu ainda era garoto, nos meus saudosos dez anos. Primeiro dia de aula, a professora fazia a chamada: “José”. Meu amigo a corrigiu de imediato: “O nome dele é Zé, professora”. “Zé é a abreviação de José, respondeu a professora”. Outro moleque, engomado igual ao pai, filho de família de posses várias, levantou sorridente e se fez escutar: “Se é Zé, então é Zé do Bode”. A turma toda sorriu de mim em farta gargalhada, quase chorei de raiva, tremi, tive vontade de voar no pescoço dele. O danado não sabia com quem estava mexendo, mexia com bicho do mato, com onça, com caititu… Pois bem, deixei a sala alguns segundos antes de tocar a sineta. Fiquei a esperar em tocaia, assim que o cabra safado saiu em correria alegremente, sem saber encontrou um pé, o tombo foi inevitável. Ele no chão e eu a descarregar toda a minha fúria, murros e pontapés. Resultado: no primeiro dia de aula fui expulso. Ao adentrar em casa, foi minha vez de apanhar, minha mãe me deu uma surra de chicote, fiquei dias mancando, contudo aprendi a lição. Deixemos essa conversa de lado. Sou filho de Maria, não tenho pai, não tenho avôs, não tenho mais nenhum parente. Ainda jovem, escutei na casa de gente grande um menino perguntar a genitora: “Mãezinha, Zé está me dizendo que não tem pai”. A mãe respondeu: “Toda pessoa tem um pai”. Fiquei com aquilo na cabeça, indaguei a minha mãe: “Mãezinha…”. Recebi um tapa nas ventas, ela brava resmungou: “Que negócio é esse agora de me chamar de mãezinha? Virando menino mimado agora é? Você torne, seu cabra”. Nunca mais voltei a pronunciar tal palavra. Só queria saber qual o nome do meu pai. “Se alguém lhe perguntar quem é seu pai, diga que você é filho do Espírito Santo”. Só fiquei sabendo quem era o Espírito Santo quando perguntei ao padre da nossa capelinha de São João. Meu nome é José Zacarias, mais conhecido nas terras secas do nordeste por Zé do Bode, filho de Maria, lembrando a história de Jesus, filho sem pai.

Crônica de Zé do Bode.

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