Apostando na loteria

nov 23 2015 Published by under Zé do Bode

Hoje cedo, meu amigo Chico veio a minha humilde residência. Chegou sem fôlego, ofegante, aflito, todo agitado. Levei um susto. Pensei em alguma notícia ruim. O amigo foi logo me indagando se eu já tinha feito uma fezinha. Fezinha? O homem parecia está louco da cuca. Que fezinha? O compadre então me refrescou a memória. Ainda não tinha feito nenhum jogo da loteria. O sorteio está acumulado, disse-me todo feliz, de boca cheia. Acumulado? Já fiz dez apostas, gastei trinta e cinco reais, continuo Chico, se eu ganhar vou viajar pelo Brasil todo, vou comprar um carro de luxo, uma casa de praia, um jatinho. Como é bom sonhar, em Chico. Fez ou não fez uma fezinha, voltou-me a indagar. Não. Mas irá fazer? Não. Chico, há quanto tempo você vem jogando dinheiro neste jogo? Chico, Chico, Chico, quem em nossa região já ganhou alguma vez na loteria? Ganham sempre pessoas de longe. Será se elas realmente existem? O mundo é dos espertos, Chico. Estão metendo a mão no seu bolso com o seu consentimento. Só você que não jogo, acrescentou o amigo; na lotérica a fila já dobra a esquina. Muitos ali perdem o dia de serviço para dá dinheiro ao Governo, e ainda sofrem em grandes filas. Chico, acorda, você está sonhando, você está em um maldito pesadelo, sai dessa. Trinta e cinco reais dava para fazer uma feira. Vou ganhar, depois passarei aqui para caçoar com você, disse ele. Chico, Chico, a loteria é um crime legitimado, uma forma fácil de furtar o cidadão pobre. Não ver que a minhoca está encobrindo o temido anzol. Na pescaria somente o pescador leva vantagem. Você é o peixe, Chico, o Governo é o pescador. Quanto mais o povo padece, maior é o sonho em ganhar dinheiro fácil. Se você ganhasse esta dinheirama toda, Chico, seria uma desgraça para a sua pessoa e para a sua família. Com tanto dinheiro, aparecia tantas mulheres, com tanto dinheiro, haveria muita bebida. Chico, você trocaria de imediato sua esposa por uma loira qualquer; seus filhos se perderiam nos prazeres da carne pela facilidade do dinheiro. Dinheiro para uma pessoa como você, como eu, só traria infortúnios. Há um sábio dito popular: “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”. Você é doido, Chico me disse; fica me agourando, deixe-me ir. Chico se foi embora levando seu sonho no embornal da mente. Pobre Chico, quantos iguais a ele estão no momento metidos neste utópico pesadelo. O Governo pode até legalizar o crime, dizer que é correto porque tem uma lei que diz que sim, contudo meu dinheiro suado Ele não terá de mãos beijadas e de bom grado não. Quer dinheiro, Estado? Vá trabalhar, vagabundo!

Crônica de Zé do Bode.

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