Uma surra para aprender

sandália

A educação no decorrer dos tempos vai se adequando conforme a realidade de cada momento. Criam-se leis, novos órgãos, tudo para diminuir ou acabar com os modelos já ultrapassados de conduta. O ser humano caminha em busca da paz e do bem. Contudo no passado, em um período não tão distante assim, crianças sofriam nas mãos dos pais e dos professores, usavam-se a palmatória, o chicote, a cinta, a taca, a sandália e os temidos beliscões e puxões de cabelos. A cultura muda de acordo as exigências, nos dias atuais já não praticamos de muitos atos que há trinta anos era rotina nas casas e nas escolas.

- Raimundo, eu estou indo para a roça e só voltarei no início da noite. Assim que você chegar da escola pegue o balde e vá apanhar água na lagoa e molhe os pés de coco.

- Sim, senhor.

O homem montou em seu cavalo castanho, jogou um saco no ombro, ajeitou a foice e com a boca fez dois gestos, o animal se pôs a andar. O sol estava quente, não havia sequer uma nuvem, o céu todo azul. Raimundo apanhou os cadernos e correu para a escola, faltavam dez minutos para o início da aula. O aluno que chegasse atrasado era impedido de entrar e ainda sofria ao regressar para casa com as broncas dos pais, nas muitas das vezes apanhava. A Sineta já estava na mão da professora quando o aluno entrou feito lebre fugindo do leão sala adentro.

- Salvo pelos segundos, Raimundo!

O garoto sentou na sua pobre banca e manteve em absoluto silêncio. A aula transcorreu normalmente. No final, já era cinco da tarde, a sineta voltou a tocar e a garotada correu para suas casas. Raimundo seguiu seu percurso lembrando-se dos coqueiros, mas antes da casa havia um campinho e a molecada jogava bola.

- Raimundo, venha jogar com a gente. Ainda tem uma vaga – gritou Joãozinho.

- Se você não vier agora, quando voltar não haverá mais vagas – acrescentou Pedro.

Raimundo deixou os cadernos em um canto e correu para a diversão, lembrava que quando voltasse para casa haveria de molhar os coqueiros. A brincadeira se estendeu até o escuro empurrar o sol para outras bandas. O jovem feliz por ter feito vários gols se esqueceu da tarefa lhe conferida pelo pai. Já em casa foi ajudar a mãe com o pilão de arroz.

- Raimundo!

Aquela palavra varou o coração, um choque, algo que fez com que Raimundo lembra-se da tarefa que foi a ele conferida.

- Raimundo, você fez o que eu lhe mandei?

- Sim. Já molhei todos os coqueiros.

A mão do pai na ligeireza de um felino segurou pelo braço da criança e a ergueu, com a outra mão fez descer uma sandália que atingiu em cheio a bunda do garoto.

- Ai! Ai! Ai!

- Isso é para você aprender a não mentir nunca mais, seu moleque!

Soltou o menino e esse saiu catando cavaco para debaixo da saia da mãe soluçando e choramingando.

- O que foi que ele fez, marido?

- Mandei que ele molhasse os coqueiros, passei no campinho e ele estava lá na brincadeira, cheguei e fui conferi, mas o danado não acatou minhas ordens. E o pior: ele mentiu ao me dizer que havia molhado. Bati pela mentira e não por não me ter obedecido. Espero que ele tenha aprendido, porque cada mentira sua, seu moleque, será outra surra. Agora pegue o balde e vá à lagoa apanhar água e molhar os coqueiros.

- Raimundo, você não sabe que mentir é feio e cresce o nariz? – perguntou a mãe.

- Pare de choramingar! Você já é um homem, e homem não chora. Agora vá!

O garoto correu em meio à escuridão para apanhar a água e molhar os coqueiros. Dormiu triste e com raiva do pai. Passado alguns dias já não se lembrava mais da dor da surra, todavia nunca esqueceu o exemplo ensinado pelo pai ao sabor amargo de uma sandália apoiada nas nádegas.

História baseada em fatos reais que aconteceu na região de Paramirim.

One response so far

  • Raimundo Sucupira disse:

    Meu Caro Amigo,essa Historia é Verdadeira,aconteceu lá pelos idos dos Anos 60 mais precisamente 68,aos 9 Anos de Idade,foi a primeira e última vez que mentir.Foi a primeira e última vez que apanhei de meus Pais,até os dias de hoje sigo ao pé da Letra as Lições que recebi Deles.Faço questão de preservar meus Ideais Intacto,sem nenhuma mancha,se sair de cena hoje, tenho-me cá com a Certeza do dever cumprido.Guardei os Ensinamentos que meus Pais me deram…..

    Raimundo Sucupira