Thomas, O Americano

Vagando pelo tempo encontramos histórias de vida, de superação, acontecimentos que merecem ser contados para o bem da nossa História e para alegria da Nação. Nossas pegadas marcando fundo no peito e na mente. Felizes daqueles que tem o que contar…

Em um passado não tão longe, na época em que começava a aparecer novidades dos tempos novos, o povo da nossa região acanhado e suportando pesado fardo de superstição tinha pavor das inovações que até então desconheciam.

Por aqui passou um homem, descendência americana, branco, com tom de beterraba, um gringo em pleno Sertão, seu nome, Thomas, sobrenome, não o sabemos.

- Oh de casa! – bate três palmas. – Oh de casa! Não tenha medo, sou homem de bem.

A janela foi aberta devagar, parecia que quem a puxada fazia à força. Um rosto de uma senhora ficou a vista, ela, confusa, tentava estancar o pavor, a tremedeira.

- Vá se embora daqui, homem. O que você quer é matar meus pequenos. Não ver que o povo anda apavorado com a sua presença?

- Mas dona, o meu serviço é salvar as pessoas. Trago comigo remédio para curar essa doença que anda a dizimar as criancinhas.

- Não queremos esse seu remédio não. Segue seu caminho, deixe-nos em paz.

A mulher fechou a janela e deu a conversa por encerrada. O estrangeiro ficou sem saber como convencer aquele povo a aceitar a sua ajuda, de porta em porta o resultado era sempre o mesmo.

- Como farei para convencer esta gente?

De casa em casa, de comunidade a comunidade, sempre no lombo de um forte jumento seguia sua rotina pautada na improdutividade do trabalho e pela desconfiança da boa gente.

Algumas pessoas cediam e tinham seus filhos vacinados, a grande maioria, contudo, fugia de algo que era comentado como mortal. Para eles era o Diabo que havia encarnado naquele estrangeiro. Só em falar nos nomes americano ou Thomas a molecada caia no mato, subia serra, sumia e só retornava quando o perigo estivesse bem distante.

- Se você não ficar quieto eu vou chamas Thomas – ameaça a mãe ao filho pirracento.

Outras ao saber da aproximação do americano pediam para que os filhos fugissem e só retornasse quando fossem chamados.

- Já pensou, Maria, logo eu, uma mulher esclarecida dá meu filho para esse branquelo fazer sabe-se lá o que com ele.

- Estão dizendo por aí que a injeção transforma os meninos em meninas e as meninas em meninos. Onde já se viu uma coisa dessas! Deus nos livre guarde!

- O comentário é que tudo isso é coisa do Governo, eles estão de olhos nos Comunistas.

-Será?

- É o que está na boca do povo. Esse rapaz nada mais é do que um espião da KGB.

- Será que iremos ter guerra por aqui?

O que teria feito um americano vim se meter em pleno Sertão? Quem de fato o mandou?

Ele continuava subindo e descendo as estradas ruins que cortavam as serras, os vales e as veredas, sempre com a ajuda do fiel jumento.

Uma mulher ao avistá-lo a adentrar pelo povoado saiu a gritar aos quatro cantos:

- Lá vem vindo o pimentão maduro! Corram e escondem seus filhos! O capeta chegou para levá-los.

Thomas permaneceu pela região por um bom tempo. Não sabemos se ele cumpriu com o predeterminado, se atingiu a sua meta, mas antes da sua partida, tinha feito vários amigos. Em uma conversa com um filho do lugar, sabendo que dificilmente retornaria a pôr os pés por estas terras novamente, foi gentil.

- Brasileiro, vou deixar com você uma pequena lembrança do meu povo, uma lembrança minha. Coloque este dólar em sua carteira e nunca mais faltará dinheiro nela.

- Um dólar! Nunca tinha visto um antes… apenas nos filmes de Bang Bang. Muito obrigado, Thomas. Este não sairá da minha carteira por tão cedo.

Existem muitos presentes de alto valor, caros, todavia sem sentido algum. Um dólar, uma simples cédula guardada na carteira conseguiu manter viva a amizade e a lembrança daquele singelo momento. O dinheiro continua guardado no mesmo lugar de sempre, nunca mais faltou dinheiro nela, pois sempre que a abrir haverá no seu interior uma nota de um dólar americano.

Observação: A imagem do dólar acima é o citado na história. Este texto possui alguns traços reais, que nos foi contados por Dormário Viana Cardoso, história essa que aconteceu na antiga Água Quente (hoje Érico Cardoso).

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