Sou mais meu litro de Dreher

Onde há futebol, onde tem cachaça boa e barata, histórias hilariantes surgem espontaneamente. Na nossa adolescência, que ficou nas estradas sinuosas e pedregosas do outrora, um fato que merece ser lembrado e contado se passou perante nossas retinas. Como fomos participante vivo daquele singular momento e gostamos de escrever história nos vemos obrigados a ditá-la.

Times são criados, logo desfeitos, criam-se outros e assim seguem como a vida e a morte. Há uns dez anos mais ou menos, em Paramirim existiu uma equipe de futebol, seus participantes tinham como intuito a pura diversão, o resultado do jogo pouco se importava, a juventude buscava extravasar sua farta energia. Quando nessa fase todos pesam serem reis, acham poder tudo, querem tudo, normalidade da adolescência pujante.

Em uma tarde de domingo, domingo de sol, domingo parado, um domingo qualquer, o time dos Abandonados partiu para a comunidade de Feira Nova, município de Caturama, para enfrentar a equipe local, esse seria mais um encontro entre as duas equipes. Fomos de ônibus, Zé Gatinha era o motorista. Pouco tempo se passou e nós estávamos no nosso destino traçado. Às dezesseis horas, deu-se início ao jogo, uns cem torcedores prestigiavam o espetáculo.

O jogo estava equilibrado, três jogadores nosso era nível de Seleção de Paramirim, nosso goleiro pegava muito, as torcedoras ao notar o desempenho dele foram ficar ao fundo do gol. Cada defesa feita, as garotas gritavam de emoção. Em certo momento, quando o jogo estava no campo adversário, uma delas chegou perto da trave e indagou ao goleiro:

- Olá. Como você se chama?

O goleiro a ignorou, pois ela não a agradou. Porém a garota não desistiu e voltou a perguntar:

- Qual é seu nome? Ei, psiu! Qual é seu nome mesmo?

- Eu não tenho nome não!

- Oh bicho metido!

- Sou mesmo. É para quem pode.

O time adversário partiu no contra-ataque em alta velocidade, o lateral do nosso time gritou:

- Negão, olhe o gol!

O lance passou, o goleiro colocou a bola para bater o tiro de meta, ao afastar um pouco para trás para pegar velocidade, a garota disse:

- Então o apelido do metido é Negão… Tomara que tomasse vários gols.

- Eu sou o mestre… O mestre nunca toma gol…

Passado alguns minutos, o time da casa empata a partida. As torcedoras começaram a vaiar o nosso goleiro.

- Cadê o mestre, cadê? – gritavam as torcedoras.

- Deixei passar um golzinho, senão vocês iriam chorar. Eu sou o mestre, o dono da camisa dezoitoooooooo.

- Esse negão é muito metido. Tomara que tomasse outro.

No segundo tempo tomamos o segundo para alegria das torcedoras. Mas logo depois empatamos a partida e voltamos a virar. O jogo estava em três a dois, mas faltando alguns minutos para o fim, voltamos a sofrer mais um gol. Jogo empatado, decisão nas cobranças alternadas de pênaltis. A noite já começava a mostrar a sua força. O confronto valia dinheiro, era apostando, cada equipe colocou cinquenta reais, naquele tempo, bastante grana. O povão todo ao fundo do gol, as torcedoras também, gritavam o tempo todo. Primeira cobrança e o nosso goleiro a defendeu. Ele correu para as garotas mandando beijinhos. Em seguida todas as cobranças foram convertidas, mas faltava à última para o nosso time, bastaria Zoinho marcar para ganharmos a aposta. Quem conhece esse rapaz sabe que ele gosta de aprontar das suas, cheio das brincadeiras chutou a bola, por querer, para fora. A torcida foi à loucura. O goleiro nosso ia para o gol, as torcedoras gritavam, ele parou frente a elas e disse: “Essa defesa será em homenagem a vocês”. O rapaz bateu no ângulo direito do goleiro, ele voou feito uma águia e pegou. Em seguida correu para a torcida e disse: “Eu não disse: eu sou o mestre. Defendo a hora que quiser”. Um senhor comentou: “Mais que goleiro bom!”. Já estava quase escuro, nosso jogador bateu e marcou.

Tiramos os uniformes e descemos para o centro da comunidade, lá encontramos alguns bares e duas boates. Com o dinheiro foi comprado um tubão de mortadela, duas garrafas de conhaque dreher e vários pacotinhos de salgadinhos de milho. Os jogadores bebiam cerveja igual tivesse tomando água. Com o passar das horas muitos se viam ébrios. Dentro da boate o pessoal dançava, o local estava escuro. O goleiro com um litro de dreher debaixo do braço e um copo na mão sempre cheio da bebida passou por um grupinho de meninas e parou frente a uma delas e perguntou:

- Qual é o nome da gatinha mesmo?

- Eu não tenho nome, não foi assim que você me disse lá no jogo. Àquela hora você não tinha nome, agora o metido que saber qual é meu nome. Esse Negão é mesmo metido.

- Oh, meu bem, não fique com raiva, sou mais meu litro de dreher que você – e meteu o beijo no litro.  – Eu sou o mestre! Sou o camisa dezoitoooooo…

- Você é muito é metido.

Retornamos a Paramirim já tarde da noite. No outro dia, sobraram às dores da ressaca.

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