Que suicídio que nada, rapaz!

pensando

A morte povoa o pensamento humano, tira-nos o sono, um escorregão em tais imaginações pode até enlouquecer. A vida nos envolve em um manto variado de acontecimentos. Seres ao nascer logo perecem, outros nascem deformados, uns vivem cem anos, outros apenas dez, nesta mistura toda, alguns são dotados de sortes, enquanto outra maioria, de azar. Têm pessoas que lutam, travam verdadeiras batalhas por mais um dia de sol, já alguns procuram refugiar, safar dos problemas, lançando-se nas garras tenebrosas e nas amarras sem fim da loucura de se alto punir.

- Pedrão, Zé está dizendo por aí que irá se matar.

- Por quê?

- Não sei não. Ele disse que de hoje não passa.

- Será?

- Disse que já está decidido.

- Onde ele se encontra?

- Lá no bar de Manezinho.

Pedrão foi a sua própria residência e apanhou um pó branco, estava sério, decidido. Andou rapidamente ao bar mencionado. Era começo do dia, próximo das nove da manhã, o clima estava fresco. Pedrão chega à porta do estabelecimento e grita:

- Fiquei sabendo que Zé está dizendo por aí que irá se suicidar!

Zé levantou do tamborete, bebeu o meio copo de pinga em um gole só e bradou:

- Falei e está falado! De hoje não passa! Quem quiser ir comigo é só copiar meus passos.

- Assim que soube da sua vontade, não me contive, peguei este pó branco que tenho sempre guardado e vim ver se o dito é tudo o que o comercial diz.

- Que pó branco é esse em sua mão? – pergunta Zé com a voz mansa.

- Isso aqui será o veneno que lhe levará para o inferno, seu desgraçado.

- Como?

- Você não disse que queria morrer? Pois bem: aqui está o veneno. Tõe, por favor, um copo com água.

- Você quer que eu beba isso aí?

- Vou despejar o pó dentro da água. Agora vou mexer. Está preparado, prontinho. Agora é só você beber. Toma, beba tudo. Sempre quis ver uma pessoa morrendo. O bom deste produto é que não causa dor, isso é o que falam, agora veremos se é da forma que divulgam por aí.

- Eu tenho que beber?

- Você não disse que queria morrer, infeliz? Em poucos minutos você estará do outro lado.

- Disse?

- Então beba! Não quer beber. Desistiu? Pois você irá beber todinho e agora.

Zé em um segundo já tinha pulado a janela e saltado um alto muro. Como se diz por aqui: “Ganhou o mato”.

- Pedrão, você queria matar o primo mesmo? – indaga Tõe apreensivo.

- Aquilo é um cabra safado – pegou e virou o copo na boca.

- Você é doido! Bebeu o veneno. Você irá morrer.

- Quem disse que isso é veneno? Onde você já ouviu falar que água com tapioca mata alguém. Só fiz isso para dá um susto naquele infeliz.

- Ele deve está correndo até agora.

- Que suicídio que nada. Pelo menos de agora em diante ele não nos azucrinará mais com este negócio de querer morrer.

Era mês de maio, o clima estava frio, ventava bastante. As ruas se encontravam vazias, alguns galos cantavam sobressaltados, um na rua de cima, outro ali, outro acolá. Em certa parte ouviam os berros dos bezerros. Na beira do rio o barulho constante da água era o canto que quebrava o silêncio daquelas primeiras horas.

Um senhor passava pelo local, viu agachada sobre uma pedra rente a água uma bonita moça, encostou e percebeu que a conhecia.

- O que você faz aqui tão cedo, Marta?

- Eu? – ela se espantou, estava flutuando nos seus pensamentos. – Estou esperando.

- Esperando quem?

- Esperando esfriar.

- Mas já está frio demais. Você acha pouco? Quer mais?

- Não, não é isso. É que eu decidir morrer.

- Morrer!

- Vou me suicidar.

- Você está louca. Suicida-se.

- Já venho pensando nisso há um bom tempo. De hoje não passa. Vou morrer afogada.

- E por que ainda não fez?

- Não fiz porque estou esperando esfriar.

- Não estou lhe entendendo.

- Levantei cedo e tomei um copo de leite quente, estou esperando esfriar para poder cair na água e não me estoporar.

- E ainda diz que quer se matar. Poupe-me das suas maluquices. Arranje um marido e tenha vários filhos.

- Por que o senhor diz isso?

- Você estará muito ocupada para pensar besteira. Se você quisesse morrer já teria se matado há horas. Vamos, vou lhe levar para a casa dos seus pais.

Esses dois episódios são baseados em fatos reais que aconteceram na região de Paramirim.

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