Que gato é este?

- Senhor, por favor, não abra a caixa.

- Por que não? Preciso saber o consumo desta residência.

- Meu pai disse que ele colocou um gato aí dentro. Disse também que era para eu manter segredo, mas como sou um garoto que não gosta de mentir, falo-lhe a verdade.

- Então o seu pai é o Paulão?

- Sim, é ele. Não quero que meu nariz cresça igual ao do Pinóquio. O senhor já assistiu ao filme de Pinóquio?

- Já, mas já faz muito tempo. Por quê?

- O nariz dele após a mentira cresceu, cresceu, cresceu. Meu nariz está grande, senhor?

- Não. Normal.

- Meu pai me pediu segredo, mas, você sabe, não quero ter um nariz igual ao…

- Já sei, já sei, igual ao de Pinóquio!

- Por que o senhor está nervoso?

- Quer dizer que seu pai colocou um gato aí. Aquele danado me paga. Hoje eu lhe meto uma salgada multa. – Levou a mão direita à caixa para abri-la.

- Não faça isso, senhor!

- Você é um menino muito esperto, quer proteger o papai. – Puxou a tampa. – Ai! Socorro! Socorro! – Correu a catar cavacos e em soluços.

- Eu lhe falei que meu pai havia colocado um gato aí dentro, mas o senhor não quis me escutar.

- Eu pensei que era um gato na água. Jamais iria pensar num animal.

- E aí, atoleimado – grita um homem debruçado na janela do andar de cima. – Pensou que iria me meter uma multa, no entanto fui eu que lhe preguei uma peça. Da próxima vez que uma criança lhe falar algo, não duvide. Que lhe sirva de lição.

- Você me paga, seu desgraçado!

- Vá trabalhar, rapaz! Já conversou demais. Ou você quer que eu faça um queixa na empresa em que você trabalha?

O homem saiu sem graça e bravo.

Na vida como na escrita há termos que a depender do contesto tanto pode dizer uma coisa ou outra. Se eu lhe disser “aqui tem um gato”, pare e pense um pouco mais, poderá ser um pequeno bichano, uma ligação clandestina de água, ou um rapaz dotado de uma boa aparência e de músculos.

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