Promessa paga pela metade não vale

O ser humano sempre buscou nas forças sobrenaturais algum tipo de ajuda para resolver problemas de difíceis soluções. Quem neste mundo de Deus nunca rogou ao Céu uma resolução favorável em referência a uma necessidade urgente? Muitos oferecem sacrifícios financeiros ou corporais para pagar a graça recebida. Pessoas a se verem livres de doenças tidas incuráveis, como pagamento de um combinado, saem de uma cidade e vai a outra andando pagar por uma promessa; outras sobem de joelhos as escadarias de algum templo religioso; outros ainda distribuem brinquedos e comidas às crianças e necessitados em certas dadas do ano. Faz parte da cultura do homem tentar um intercâmbio mental com as divindades do além.

Um senhor, certo dia, fez um negócio com uma divindade religiosa. Se conseguisse comprar seu primeiro automóvel, na festa em homenagem a ela, ele iria com o carro novo homenageá-la na comunidade que a tem como padroeira. No contrato tácito também estava expresso que o agraciado deveria carregar o andor com a imagem da Santa da saída da igreja até o retorno da procissão ao templo. Com a ajuda ou não da divindade, o homem de fato conseguiu adquirir o carro no tempo predeterminado. Era ele, agora, um devedor da promessa assinada com o seu pensamento ao pé da imagem que tanto idolatrava. Pagar a dívida era uma obrigação.

No dia aprazado, data da festa, festejos em homenagem a Nossa Senhora do Carmo na comunidade de Morro do Fogo em Érico Cardoso, para lá se dirigiu com o automóvel fruto da santa promessa. Chegou à véspera no local, estacionou seu veículo em uma das estreitas ruas, de terra. A primeira parte do compromisso havia findado, faltava-lhe carregar o andor. Passou a noite toda curtindo o evento, missa, forró na praça, conversa com os conhecidos, violão nas portas das casas, churrasco e cerveja gelada. Uma bendita promessa, promessa digna de ser repetida todos os anos, em todas as datas religiosas. Que alegria, que farra.

Após a missa da manhã, iria dá início à procissão. Chegava a hora de quitar a segunda parte do combinado, era pegar o pesado andor e percorrer toda a comunidade, iria exigir bastante esforço, sendo que as ruas são todas íngremes ladeiras, com obstáculos na descida como também na subida. O vigário à frente puxava a multidão de fieis e devotos. Eram dois andores, um com a imagem de Nossa Senhora do Carmo e o outro com a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Do lado direito, estava o pagador de promessa, segurando firme em uma das extremidades, caminhava confiante para pagar seu débito. A procissão seguia seu destino, cânticos bonitos aromatizavam o ambiente, povo animado. Que festa linda…

Andaram cerca de cinquenta passos, o pagador de promessas estancou de vez, foi como um burro empacado.

- Desgraça! – gritou o pagador de promessa furioso. – Quem foi esse filho da puta? Bateram em meu carro. Segure o andor.

- Calma, rapaz. O senhor está diante da imagem de Nossa Senhora do Carmo.

- Deixe-me! Vou cuidar do meu carro.

O pagador de promessa colérico foi cuidar do seu querido automóvel. A frente do carro estava toda amassada por algum motorista desatento, ou quem sabe embriagado. A procissão seguiu o seu ritmo. A promessa foi paga apenas em parte, o restante, talvez no próximo ano, será quitado. O homem não entendeu que o combinado era a compra do veículo, a batida não estava acordada no contrato. Tirando o insulto a divindade, agora é entrar no débito novamente, contrair outra dívida, fazer uma nova promessa para o concerto do veículo. Mas que fique claro: promessa feita, promessa paga. Um bom pagador sempre tem crediário, sempre tem razão. Deixar no caderno, esperar que alguém bata à porta, não pega bem. No ano que vem, lembre-se de pagar o que ainda ficou devendo.

História baseada em fatos reais.

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