Para um esperto, um esperto e meio

bruacas

Na vida muitos usam da esperteza para levarem vantagem, alguns conseguem, outros nem tanto.

É dia de feira livre, dia de comprar mantimentos para a semana: carne seca, arroz, feijão, rapadura e farinha. Das comunidades vinham às famílias a puxar os jumentos munidos de bruacas. Antes de o galo soltar seu primeiro canto, o barulho, o movimento na praça já era enorme. Às oito horas, um senhor coloca uma mesa encostado em uma esquina e espera pelos fregueses para uma brincadeira, um divertimento que criança passa longe, coisas de adulto. Neste mundo cada qual procura seu jeito de ganhar a vida, ele tirava seu sustento da malandragem que aprendeu.

Um homem se aproximou e ficou a observar.

- Companheiro, posso jogar?

- Mas e claro, amigo. Só precisa ter dinheiro.

- Observei e parece fácil se dá bem neste jogo.

- É muito fácil… basta acertar onde se encontra a bolinha.

- Vou apostar mil cruzeiros.

- Mil… Gosto de jogador determinado. Para se dá bem no jogo tem que está confiante.

O pessoal foi encostando. Mil cruzeiros na aposta chamava muito a atenção dos curiosos.

- Olhe bem… a bolinha está neste copo, eu irei girar os três copos e o senhor escolherá apenas um.

- Dois por um. O dobro de chance para o dono da banca. Vou apostar mil. Se eu ganhar levarei quanto?

- Se o senhor acertar levará dez mil.

- Posso apostar mais?

- Claro.

- Vou apostar cinco mil.

- Vou girar os copos.

O homem rodou os copos devagar, todos viam que a bolinha se encontrava no que parou no centro. Ninguém conversava, a aposta era entre os dois.

- Não tem como eu perder? Todos aqui viram que a bolinha esta neste copo. – Colocou a mão direita sobre o copo. – No copo do meio. Eu tenho tanta certeza que sou capaz de dobrar a aposta.

- Se o senhor quiser. Fique a vontade.

- Aposto dez mil que a bolinha branca está debaixo deste copo.

Uma pessoa que assistia murmurou:

- É sempre assim, sempre temos certeza, mas nunca ganhamos.

- Se eu apostar vinte mil eu ganharei quanto?

- Duzentos mil.

- Posso apostar vinte?

- Até trinta se quiser.

- Eu aposto os trinta.

Tirou um pacote de dinheiro do bolso e pôs sobre a mesa.

- Pronto. Aqui está os trinta mil.

- Agora pode levantar o copo – disse o dono da banca sorridente.

- Pensem comigo, amigos. Se a bolinha se encontra debaixo do copo que a minha mão está o segurando, então os outros dois copos estão vazios. Levante-os. Se a bolinha estiver em um deles os trinta mil será seu.

- Como assim? Você é que precisa levantar o seu copo.

- Já que eu sei que a bolinha se encontra aqui embaixo… Levante os outros dois copos.

O pessoal gritou:

- Levante! Levante!

Levantou devagar o da esquerda. Nada da bolinha. Levantou o da esquerda. Não tinha a bolinha. A bolinha só poderia está no copo do meio.

- Não preciso nem levantar o copo. Se não está em nenhum dos dois copos só pode está neste. Quero meus trezentos mil cruzeiros.

- Mas eu não tenho todo este dinheiro agora.

- Como é que uma pessoa aposta sem ter dinheiro. Vou ficar com o seu carro.

Na mesma localidade, mas em outro dia, uma mãe conversa com o filho:

- Filho, amanhã você levantará cedo para ir trabalhar com o seu pai. Já está na hora de você ajudar com a despesa da casa.

- Acordar cedo? Deus me livre!

- Converse com o seu pai então.

O pai ia entrando pela porta.

- Se a sua mãe disse está dito, rapaz. Amanhã cedo você irá trabalhar.

No outro dia ainda escuro o pai acordou o filho, este resmungou e se colocou de pé.

- Estou indo. Daqui a vinte minutos quero você no curral.

O pai foi à frente, logo o filho saiu de braços cruzados e de cabeça baixa. No trajeto um pequeno pacote se encontrava no chão, olhou aos quatro cantos, estava só, apanhou-o e o colocou no bolso. Seguiu seu destino. Ajudou o pai e retornou para tomar café.  Ao chegar a casa abriu o pacote e nele havia mais de mil cruzeiros.

-Mãe, achei este dinheiro no caminho para o curral.

- Está vendo, meu filho, quem madruga Deus ajuda.

- É minha mãe, mais cedo perdeu quem mais cedo madrugou.

Os dois fatos mencionados acima fazem parte das conversas de ruas, de botecos, de esquinas. Já o próximo conto que ditaremos abaixo foi verídico, aconteceu na antiga Água Quente, hoje Érico Cardoso.

As chuvas foram boas, o arrozal cresceu bonito, o homem do campo trabalhou feliz, arou a terra, semeou, regou e espantou as baias, colheu, bateu e no lombo dos jumentos entregou ao comprador. A primeira carga vinha chegando a porta do homem da cidade, quatro jumentos carregando cada um duas bruacas com o grão branco.

- Seu Cardoso, trago as primeiras cargas do arroz segundo o que combinamos.

- Deus foi generoso, Seu Zé. Muita chuva no tempo certo e sol na colheita. Produção alta.

- Foi muito boa a produção. Irei lhe entregar cerca de cinquenta bruacas destas, todas abarrotadas. O senhor quer conferir a mercadoria?

- Não, não precisa. Eu confiou no senhor. Só preciso saber quantas bruacas o senhor trará por vez.

- Como o senhor ver eu trago oito.

- Quando trouxer a última carga lhe pagarei o combinado.

- Até o final da semana trago tudo.

O homem continuou a trazer as bruacas, as duas primeiras abarrotadas, na terceira as bruacas vinham quase pela metade, para alegria dos jumentos e do dono. Quanto ele não iria surrupiar naquela magnífica manobra? Chega o dia de sábado, a pequena tropa parava defronte a residência do comprador.

- Seu Zé, esta é a última carga?

- Sim.

- Seu arroz rendeu em, Seu Zé? Cinquenta e seis bruacas abarrotadas do grão.

- Foram cinquenta e seis na tampa. Para os jumentos subirem a ladeira da ponte foi um sacrifício. Houve vez que pensei que não iriam aguentar.

- Deixe-me dá uma olhada nestas bruacas.

- Como assim?

- Quero ver se estão mesmo abarrotadas.

Ao abrir a primeira os olhos brilharam.

- É, Seu Zé, esta aqui parece que derramou pelo caminho. Deixe-me ver a outra. Também. E a outra. Todas estão abaixo da metade. Como tivemos cinquenta e seis bruacas abaixo da metade então tivemos cerca de vinte e cinco bruacas cheias. Este será o valor que o senhor irá receber.

O sertanejo triste diante a situação aceitou sem contradizer. Deus foi generoso com a chuva e a boa safra, mas a ganância dele levou boa parte do lucro para as mãos de outra pessoa. Como dissemos no título: Para um esperto, um esperto e meio.

One response so far

  • Edemilson (Sonzinho) disse:

    Na verdadeira linguagem comercial, o bom negócio é quando a parceria beneficia a ambos, quando todos ganham de forma justa.