O único remédio se chama Penicilina

penicilina

- Os tempos são outros… Quanta evolução… Hoje em dia temos o caminhão, temos o avião e há pouco tempo um cientista de nome Fleming descobriu a tal da penicilina. A guerra chegou ao fim, o mundo descansa em paz após logo período de mortes e destruição.

Vivia-se nos primeiros meses do ano de 1946, no município da então chamada Água Quente. A Segunda Guerra Mundial já tinha chegado ao término, em meio a tantos fatos negativos um, positivo, sobrou após tamanha destruição, fora descoberta a Penicilina nos anos seguinte a Primeira Guerra, santo remédio, a morte ficava mais distante, muitos poderiam gozar a velhice.

- Estamos nos metidos no meio da Caatinga, nas serras da charmosa Chapada Diamantina, um lugar bonito, onde a água desce rente a sede, nas intermediações há dois poços de água termais. Aqui manda os coronéis, aos demais cumprem obedecer, é a lei do mais forte, aquele que expressar um pensamento contrário simplesmente dormirá com as formigas. Trabalhamos durante o dia e dormimos à noite, a luz que temos é a do candeeiro, dizem que já existe a eletricidade, mas aqui não a conhecemos, demorará a chegar para nós, quem sabem meus filhos e netos não usem dessa novidade.

- Estou enfrente a um espelho a pesar na vida. Meus avôs sequer imaginaram que um dia teríamos tantas novidades. A vida ficou mais fácil. Como o mundo será daqui a uns cem anos? Pena que não farei mais parte deste ambiente. Estou com cinquenta e oito anos, por mais que eu siga vivendo, a natureza não nos possibilita esta proeza. Aqui tenho em minha mão direita uma navalha, vou fazer minha barda, tenho que está impecável para o chá na casa do amigo.

- Comecei por fazer a barba devagar, como tenho medo de me ferir. Estou com uma espinha no rosto, é preciso muito cuidado. Ai! Doeu. Está sangrando. Foi um pequeno corte. A mulher veio e passei alguns produtos naturais, o sangue estancou, poucos dias voltará ao normal.

- No outro dia o ferimento incomodava, meu estado merecia cuidados. Usei de tudo, mas parece que tenho o mal da Gangrena (na verdade era o Tétano).

- Meu quadro vem arruinando dia a dia, só há uma salvação, buscar a penicilina em Livramento. O tempo é curto e a distância, grande.

- José de Júlio partiu ainda cedo, pegou meu melhor cavalo, caso tudo dê certo, amanhã nas primeiras horas atracará por lá. Meu corpo dói todo, estou envergando, não sei até quando suportarei. Oh, Deus, interceda por mim! Que doença é esta que maltrata tanto?

Seu Zé saiu a pleno vapor, a vida do seu amigo dependia dele, ela estava em suas mãos. Que responsabilidade. A distância era longa e o tempo curto. Ou trazia a cura ou a cidade velaria um dos seus vultos. Vencia a estrada loucamente. De tempo em tempo tinha que parar para que o animal tomasse um pouco de água e recuperasse o fôlego. Na hora aprazada ele chegara ao desiderato programado. Perdeu algumas horas até ter em mãos a penicilina.

- Isto aqui salvará meu fiel amigo.

Deixou o animal cansado com um coronel da região e apanhou outro descansado e de bastante vigor. Olhou para o horizonte ao norte e pensou: “Que horas estarei lá?”.

Em Água Quente o pessoal esperava na entrada da cidade, todos ansiosos para ver apontar na reta do quebra-sapato Zé de Júlio. O tempo passava e nada dele chegar, o prazo estipulado já havia transcorrido, mas ele insistia em não aparecer. O homem sobre a cama piorava seu estado a cada instante, se demorasse muito, tudo seria em vão.

- Vamos de encontro a Zé, com isso encurtaremos o percurso.

Não tendo o que fazer, colocou a cama sobre uma carroça e partiram. As dores aumentavam a cada minuto, o balanço da carroça era como setas a perfurar o corpo.

Ao chegar próximos à comunidade de Cachoeirinha, a carroça foi parada ao observarem um homem a cavalo logo à frente. Os cidadãos que estavam na empreitada gritaram de contentamento. O homem montado a cavalo chegou rapidamente, o cavalo ofegante, ele cansado e tremulo.

- Vamos ter que aplicar aqui mesmo. O homem está ruim – fala alguém.

De um recipiente ele retirou a substância descoberta por Fleming que tantos já haviam salvado. Seria Odilon mais um a receber a cura? Na afobação daquelas complicadas horas, a pessoa que iria injetar o líquido, afoita e ansiosa, desequilibrou a mão, o pequeno frasco subiu, todos observavam a cena, paralisados e sem ação, o pequeno frasco rodopiou rapidamente e se desfez no chão seco da Caatinga, a terra em segundos engoliu a vida do enfermo.

Coube à esposa Otacília Cardoso e aos filhos Juquinha e Érico velarem o corpo do esposo e pai.

O filho Érico Cardoso foi Prefeito de Água Quente por várias vezes, o nome da cidade foi mudado em sua homenagem, hoje se chama Érico Cardoso.

Odilon Cardoso nasceu em 21 de agosto de 1888 e faleceu em 08 de março de 1946.

Esta história é baseada em fatos reais, imaginada por quem a escreveu preservando os devidos dados. Quem a contou a nós foi o senhor Dormário Viana Cardoso.

Após ter escrito esta pequena história conversamos com o senhor Wilson Cardoso e o mesmo nos relatou a seguinte informação. “Eu me lembro bem daquele momento, na época tinha dez anos, era uma criança. Lembro-me como se fosse hoje quando várias pessoas pegaram a cama com Seu Odilon e o levaram na tentativa de encontrar o rapaz que havia se dirigido a Livramento para apanhar a penicilina. Ao chegar próximo a comunidade de Cachoeirinha, o enfermo não suportou e faleceu. Ainda está fresco em minha mente o momento em que  o pessoal trouxe de volta a cama com o corpo, o povão todo chorando. O rapaz que havia ido buscar a penicilina levou uma garrafa térmica para trazê-la, mas durante a viagem regressa a garrafa caiu no chão perdendo o remédio. Seu Odilon adquiriu a doença após um corte em uma espinha quando estava fazendo a barba.”.

One response so far

  • judilce cardoso disse:

    Bill, esta história ´´e verdadeira ouvi v´várias vezes por muitas pessoas, principalmente por minha avó Otacilia e pelos seus filhos Erico e Juquinha,
    Teve um caso semelhante com seu pai, vc deve saber.
    Ele teve um problema de saúde muito grave. Foi para Caetité, depois meu irmão Raimundo foi buscá-l0 de avião para Salvador. Quando ele chegou os médicos não queria recebè-lo porque achava quev era óbito para o dia seguinte. Ai apareceu um médico (daqui de Ituruçu) quando viu o sobrenome de Dormário perguntou: é parente de Judilce Viana Cardoso, ao quev foi respondido sim Ele dise: pode internar o rapaz.
    Foi uma luta muito grande, Dormário piorava cada vez mais. Todos nós sabiamos que tinha poucos dias de vida ( nmenos Tia Dó). Tinha um primo nosso que era médico mas
    não podia exercer a profissão porque teve o diploma cassado na época do comunismo.
    Chamou Raimundo e disse: não posso medicar, mas o caso é dar a penicilina. E Dormário recuperou rapidamente.