O caminhão pipa atolou

Contando ninguém acredita, mas vamos narrar assim mesmo, faz parte do nosso saboroso ofício.

Uma comunidade do nosso querido Sertão estava em festa, iria comemorar o Santo padroeiro e seria contemplada pela administração pública com uma obra de grande cunho social. O momento máximo estava marcado para o sábado. As pessoas mais influentes se desdobravam nos preparativos. Eram esperados muitos visitantes, dentre eles, políticos. Naqueles dias quentes e empoeirados de verão, estiagem a varar meses, coração já amansado com a ingratidão das nuvens, havia a preocupação de se molhar o terreiro onde aconteceria o baile.

- Já está tudo acertado. O caminhão pipa estará aqui na tarde de sábado para molhar o terreiro.

- Que notícia boa – fala uma senhora. – Agora poderemos forropiar a noite toda.

Os dias foram se passando, o sol continuava a arder no lombo dos trabalhadores e a lhes tirar suor.

- Compadre, a previsão está dizendo que teremos chuva neste final de semana.

- Se não teve chuva em dezembro, janeiro e fevereiro, logo agora, final de abril, duvido. Olhe só para este sol. No céu não tem sequer uma nuvem.

- Tá feia a coisa, não tá, compadre?

- E põe feia nisso, Zé.

No sábado à tarde, o caminhão pipa partiu abarrotado de água para a dita comunidade. O trajeto era um pouco distante, o motorista saiu cedo. O céu se colocava limpo, algumas nuvens no pé do horizonte, mas o clima estava abafado. Em poucos minutos, meia hora, tudo se modificou. O sertanejo olhava ao alto desconfiado e indagava: “Será? Será que teremos chuva?”. Não demorou e São Pedro abriu as torneiras sem dó, água desceu em fartura, a terra seca não dava conta de sugar todo o líquido, logo as enxurradas se fizeram por todos os lados, tanques e riachos subiam o volume rapidamente.

- Compadre, Deus resolveu olhar para nós novamente.

- Viva São José! Viva nosso querido Padroeiro.

O caminhão se aproximava da comunidade, o limpador do para-brisa ia de um lado ao outro freneticamente. O veículo após descer uma ladeira para enfrentar um pequeno plano e depois voltar a subir outra, afunda as rodas na lama e atola. A chuva continuava forte, trovões e raios apareciam aos quatro pontos cardeais.

- O que eu faço agora? – indaga o motorista. – Como pode em plena seca um caminhão pipa atolar em plena chuvarada? Maldição! Ainda há pouco só tínhamos sol e poeira.

Meia hora transcorreu lentamente, a chuva diminuiu sua intensidade. Carros paravam de um lado e do outro da estrada, a passagem estava impossibilitada.

Um homem desceu de um dos automóveis, finos pingos o molhavam, e disse:

- Rapaz, eu preciso passar. Estou levando uma mulher para ter nenê no hospital da cidade.

O homem saiu do caminhão e gritou:

- Não vê que o caminhão está atolado!

- Se demorar muito, a mulher terá bebê aqui mesmo.

Outro homem desceu de outro veículo e perguntou:

- O caminhão está carregado?

- Sim – respondeu o motorista.

- Solte toda a água e depois o empurraremos.

- Jogar a água fora? Você só pode está louco. Tenho que levar a água para molhar o terreiro da festa.

- Molhar o terreiro da festa? Lá só tem lama e você ainda quer jogar mais água. Você só pode está louco. A chuva lá foi mais forte que aqui. Se aqui tem toda esta lama, lá a coisa ainda está pior. Já dizem por lá que irão adiar a festa.

- O patrão me mandou levar a água e eu vou levar.

- Nós precisamos passar! A mulher está preste a dá a luz. Solte essa água.

A discussão continuou acirrada. “Solte a água”. “Não solto”. “Solte”. “Já disse que não solto”.

A mulher então resolveu soltar, soltou um agudo grito:

- Vai nascer! Socorro!

Um rapaz deixa a poltrona do seu veículo e devagar vai ao registro do caminhão e o abre. A água começa a jorrar em abundância.

- Quem fez uma desgraça dessas? – indaga o motorista do caminhão. Logo em seguida correu par fechar o registro. A mesma pessoa que abriu resolveu a situação, apenas ergueu um pouco o pé direito que foi de encontro à canela do motorista que perdendo o equilíbrio foi de cara à lama. As pessoas gritaram de felicidade.

- Ligue o caminhão! – gritou um.

Como a chave estava na ignição foi fácil ligar e dá a partida. O motorista levantou louco da vida e correu na tentativa de impedir, mas o que havia assumido o volante conhecia do assunto, sem muita dificuldade tirou o caminhão da lama e o estacionou mais a frente, ao descer disse:

- Corra e se lave no restante da água, logo ela irá se acabar. Se quiser fechar o registro agora, fique a vontade.

O homem estava todo sujo de lama. Um rapaz ao chegar e ver de quem se travava logo sentenciou:

- Esse aí mal pegou em um volante e já se diz motorista. Ele não sabe dirigir não. Se fosse outro motorista, não nos teria causado esse transtorno todo.

O condutor que levava a mulher grávida já havia sumido estrada adentro, deixava para trás toda a confusão.

Ficou explicado: para caminhão atolar no Sertão só mesmo com grande barbeiragem de um motorista inexperiente.

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