Nem todas as promessas feitas são pagas

A humanidade convive entre dois mundos, o material e um suposto sobrenatural. Quando todas as portas já foram fechadas, quando não há mais uma estrada a seguir, não tem jeito, apela-se aos Santos.

Um rapaz, por ironia do destino, sofreu um acidente automobilístico, estava a dirigir, uma curva lhe tomou a direção, o veículo capotou e ele perdera os sentidos.

- Meu filho, seu irmão acabou de sofrer um acidente de carro.

- Meu irmão! ? Como assim! ? Ele está bem! ?

- Ele está em coma na UTI do hospital.

- Não pode ser! Eu estava ainda há pouco com ele.

Manoel se encontrava entre a vida e a morte. Todos os médicos atestavam o mesmo diagnostico: “O quadro é difícil, só mesmo Deus”. O paciente foi acometido de traumatismo craniano.

- Mãe, os médicos estão dizendo que é questão de horas para meu irmão falecer – fala Paulo a mãe. – Disseram-me também que a única coisa que podemos fazer no momento é rezar. A Igreja está aberta, vou lá conversar com Deus.

- Vá lá, meu filho, enquanto isso eu fico aqui a esperar por boas notícias.

Paulo foi ao encontro dos Santos, das orações, dos pedidos, das “promessas”… Na igreja, diante à imagem de Santo Expedito, ele se sentindo acuado, dialogou com a imagem:

- Santo Expedito, por favor, interceda pelo meu irmão. Ele está entre a vida e a morte, por favor, restitua-lhe a saúde.

- O que me ofereces em troca? – questiona o Santo.

Começava um dialogo entre Paulo e o seu subconsciente, ou talvez possa ter sido o próprio Santo, vá saber, o certo é que ele conversava e sua mente lhe respondia.

- Eu não tenho nada para lhe oferecer.

- Toda pessoa tem algo a oferecer. Apenas penses um pouco.

- O que o senhor que de mim?

- Não costumo interceder pelos outros sem ganhar algo em troca. Se não for dessa forma, morrerei de tanto trabalhar, pois o povo só sabe pedir. Se não possuis nada para me presentear, é melhor ires embora.

- Se meu irmão ficar bom, eu distribuirei todos os anos no dia 19 de abril, dia que homenageia o senhor, balas e doces para a criançada.

- O caso do seu irmão é grave, carece de uma penitência maior.

- Se for curado, ele irá ao Morro do Fogo a pé.

- Tu não achas pouco? Eu restituo a vida e ele faz uma pequena caminhada. O Morro do Fogo é logo ali. Aumentes o percurso.

- A Bom Jesus da Lapa.

- Fechado. Mas em qual dia?

- No dia seis de agosto, dia da romaria principal.

- Logo receberás o resultado.

- Quanto tempo?

- Bem antes do que imaginas.

- Obrigado, Santo Expedito.

- Não te esqueças do nosso trato. Promessa feita, resultado recebido, promessa paga.

- Trato é trato.

Paulo colocou o pé direito para fora do templo e a mãe dele já o recebia com um largo sorriso nos lábios.

- Meu filho acordou! Ele está conversando. Os médicos estão boquiabertos com a recuperação dele, falam em milagre.

“Minhas mãos fizeram a minha parte, agora espero que faças a tua”, uma voz martelou no seu inconsciente.

No outro dia cedo, Paulo foi ao quarto conversar com o irmão enfermo. Após dialogarem bastante sobre o acidente, sobre o suposto milagre, Paulo tocou no assunto:

- Manoel, quando você estava entre a vida e a morte, quando todos diziam que você iria morrer, eu corri à igreja e fiz uma promessa a Santo Expedito em prol de sua recuperação. Em seguida você estava curado.

- Você é um rapaz de bom coração, Paulo, diferente de mim.

- Após o meu trato com o Santo, logo ao sair do templo, nossa mãe chegou me dando a notícia da sua recuperação.

- Obrigado, Paulo. Qual foi mesmo a promessa que você fez?

- Primeiro eu tentei combinar com ele em doar balas, ir ao Morro do Fogo a pé, como não concordou, fui obrigado a aceitar a ida a pé a cidade de Bom Jesus da Lapa.

- Eu não sabia que eu tinha um irmão tão prestativo comigo. Ir a Lapa a pé é muito cansativo, uma distância longa. Você andará um bocado.

- Você não entendeu o que eu quis dizer. Quem irá pagar a promessa será você que obteve o lucro. Eu apenas fiz o intercâmbio.

- Eu! Você acha que eu sou louco de andar essa distância doida?

- Mas você não está bom?

- Estou bom, mas eu não me lembro de ter feito nenhuma promessa, ainda mais uma aberração dessas. Sou até Ateu.

- Então você não vai?

- Quem fez a promessa é que tem obrigação de pagar.

- E agora o que eu faço?

- Esquece esse negócio de promessa. Essas coisas de santos não existem. Eu só sei uma coisa: não pagarei promessa alguma.

- O que eu faço agora?

- Para que um santo quer mesmo um sacrifício desses? Esse negócio de promessa é baboseira. Esquece isso e vá cuidar da sua vida.

Os dias foram se passando, mas aquela promessa feita insistia em martelar no crânio incessantemente. “E a promessa. Não se esqueças da promessa. Rapaz, a promessa”.

- Está certo! Pagarei a promessa para meu irmão. Na festa do Bom Jesus eu irei a pé fazer a penitência e com isso ficar livre com o senhor. Hoje é quatro de janeiro, ainda faltam sete meses para a festa, quando faltar apenas um, eu começarei a me preparar.

“Por mais que te pareças muito tempo, cedo ou tarde baterás em tua porta”.

Os dias pulavam um por um como o fiel faz com as bolinhas do terço. O homem sempre a circular pela cidade de automóvel. Para ter uma ideia, a padaria que ficava a cinquenta metros, logo ali, ele fazia questão de tirar o carro da garagem para ir comprar o pão, já não sabia mais andar.

“Só restam dois meses”.

Começou a martelar em sua mente a maldita divida, a tão esperada data se aproximava, o homem andava, andava não, estava muito preocupado.

Faltando um mês, ele se vendo acuado, colocou um traje a caráter e saiu para seu primeiro dia de treinamento. Tinha em mente andar dez quilômetros, contudo ao chegar ao terceiro, pediu água, parou e ligou para a esposa.

- Sílvia, por favor, pegue o carro e venha me buscar. Não estou me sentindo bem.

A esposa ao chegar, encontrou-o sentado, todo vermelho e pálido.

- O que foi que teve com você?

Contou toda a história. O enfermo ficaria três dias de repouso, corpo quebrado, febre, assaduras pelas pernas. O problema persistia, a divida ainda havia de ser paga.

“Faltam dez dias”.

A mulher o aconselhou ir ter uma conversa com o Padre. Contou toda a história ao religioso. O mesmo o aconselhou que a promessa fosse paga indo à cidade de Bom Jesus da Lapa de automóvel.

- Obrigado, Padre, por ter negociado com Santo Expedido.

- Não foi um negócio, ele entendeu a situação e aceitou nossa proposta.

Na madrugada do dia seis de agosto, Paulo, juntamente com a família, dirigiu-se à cidade considerada como a Capital Baiana da Fé.

“Não foi este o nosso trato, mas a tua preocupação em pagá-lo mostra o respeito que tens por mim”.

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