Namoro de Antigamente

bilhete

Os costumes, os hábitos, os anseios mudam de tempo em tempo. Com a evolução acelerada da tecnologia houve uma transformação social jamais vista até então, graça, em boa parte, a imprensa e as suas afiadas formas de manipulação.

No meado do século vinte tínhamos uma sociedade que começava a se desgarrar das mãos opressoras dos coronéis. Os jovens já podiam sonhar com novas formas e cores.

Os eventos pela região eram poucos, apenas festas de cunho religioso. Enquanto os adultos perdiam os cabelos com as preocupações, as crianças se divertiam imaginando situações atípicas.

Naquele tempo, o namoro acontecia por meio de recados e bilhetes. Encontros? Beijos? Amasso? Se os pais pelo menos sonhassem cortavam suas proles no correão.

- Rita, você sabe, eu acho João tão bonitinho.

- Você quer namorar ele?

- Será que ele me quer?

- Vou levar um recado seu e integrá-lo.

- Mas será que ele não está namorando outra menina?

- Acho que não.

Rita partiu como os correios para levar o meigo recado a João. Se fosse para ela ir até lá conversar sobre os próprios anseios, certamente não teria coragem, mandaria uma amiga.

- João, eu posso falar com você um pouquinho?

O garoto, ressabiado, apenas confirmou com um balanço tímido de cabeça.

- Fátima quer namorar você. Você aceita?

- Quer namorar comigo?

- Você tem namorada?

- Não.

- Então de hoje em diante a sua namorada se chama Fátima.

- Quer dizer que agora tenho uma namorada?

- Sim. Você quer que eu a leve um recadinho?

- Fale que ela é muito bonita e que eu a admiro muito.

As cartinhas, os recados e os bilhetes apareciam sempre nas comemorações da cidade. Datas aguardadas nos dedos. O namoro era por meio de olhares, recados, nada mais do que um simples compromisso firmado entre as partes por meio de uma terceira pessoa.

Os dias foram passando, lentamente, de grão em grão. João já sentindo os efeitos pujantes da adolescência a correr pelas veias enviou seu último bilhete:

“Fátima, este nosso namoro precisa de contato. Ontem eu vi o Robertão beijando a Rita. Se você quiser continuar namorando comigo venha me encontrar atrás do casarão de Seu Pedro. Caso a sua resposta seja um não, ou se não aparecer, considere nosso namoro terminado”.

Fátima até que desejava ir, mas a mãe desconfiada não desgrudava os olhos dela. A moça retornou para a residência, triste e nervosa. Naquela noite não pregou os olhos, chorou, pediu a Deus para interceder por ela. Durante o dia não teve fome, amuada, pouca conversa deu aos familiares.

- O que é que você tem, Fátima? – indaga a mãe enquanto preparava a massa para fazer o pão.

- Nada. Um pouco de dor de cabeça. Logo passará.

- Sei!

A amiga chegou ao final da tarde e foi conversar com Fátima no quarto.

- Você não sabe da maior? Paulo veio conversar comigo. Ele disse que soube do seu rompimento com João. Disse que sempre quis namorar você.

- Ele disse foi?

- Disse. Se você quiser.

A luz voltou a brilhar nos olhos da jovem.

- Claro que quero. Agora tenho um novo namorado. Como estou feliz! Deus ouviu minhas preces.

A mãe adentrou ao quarto trazendo uma bandeja com chá e biscoitos para as jovens. Ao observar que as duas estavam sorridentes falou:

- Parece que a sua dor de cabeça já é coisa do passado, em Fátima.

Este conto foi baseado em fatos reais, história esta que a escutamos de uma senhora filha de Paramirim.

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