Dia da Mentira

A nossa vida já foi mais cômica… Neste primeiro de abril, data que nos remetem a fatos rotineiros do passado da nossa querida região. Este dia era famoso, quantos não se enfureciam ao receber uma “Marcha”. “Eu marchei fulano!” – gritava alguém. Muitos levavam na esportiva e fazia pouco caso, uns ficavam de mal, no fim todos sorriam da sadia brincadeira. Era parte da cultura, do nosso folclore. Os anos foram se passando, a amizade de cidade pequena foi afrouxando os laços, nestes dias conturbados de fúria e rancor, brincar pode trazer grandes prejuízos, talvez até a morte.

- Maria! Oh, Maria!

- O que foi, Patroa?

- Maria, posso confiar na senhora?

- Mas é claro…

- Vá até o bar de seu João e entregue este bilhete a ele.

- Certo.

- Se eu souber que a senhora abriu ele, uh! você verá comigo quando aqui retornar.

- Para que mesmo eu iria abrir o bilhete, se sequer sei ler.

- Verdade. Tinha me esquecido. Agora vá. É um pé lá e outro cá.

- Já volto logo. Tenho muito serviço para fazer.

- Uma observação: espere pela resposta de seu João. Só retorne com o que o bilhete pede nas mãos.

- Pode deixar comigo.

A moça saiu à disparada, subiu uma ladeira, andou um trecho longo, desceu, virou, voltou a subir, enfim, já estava cansada, chegou.

- Seu João, dona Rita mandou que eu lhe entregasse este bilhete.

- Dona Rita? Deixe-me ver. – Abriu o recado, fez cara de mal e respondeu: – Você terá que ir ao boteco de Tião, o que ela me pede está com ele.

- Onde fica isto?

- Em frente ao Roseirão (estádio de futebol).

- Meu Deus do Céu, é longe demais! Tenho tanto trabalho para fazer.

- Eu não posso fazer nada. Se a sua patroa pediu, melhor obedecê-la.

- Me dá este bilhete aqui. – tomou da mão do homem e saiu a correr.

Voltou a andar, andava rápido, virava aqui, subia ali, quebrava acolá, enfim, chegou.

- Tião, minha patroa mandou entregar este bilhete ao senhor.

- Quem é mesmo a sua patroa?

- Rita.

- Para mim? Deixe-me ver. – Leu o bilhete, olhou para o teto, fez cara de pensativo, coçou a orelha. – Estava comigo até esta manhã, passei a Betão. A senhora terá que ir atrás dele.

- Eu já estou cansada, tenho muito serviço para fazer em casa. Notícia ruim esta que o senhor me deu. Onde ele mora?

- O bar dele fica próximo a Capela de São José, lá na Beira da Lagoa.

- O senhor quer me matar, Tião? O sol está quente demais… Sair daqui para ir ao outro lado da cidade. O que eu fiz para merecer tudo isso, Senhor? !

- É um pedido da patroa, melhor cumprir, pois é ela quem paga o seu salário.

- Me dê este bilhete aí.

Saiu loucamente. Entrou a andar pela estrada central, uma reta grande, naquele tempo ainda de cascalho, pés já sujos, rosto suado, cabelos a pedir chuva; andava rapidamente, só pensava em chegar.

- Senhor, onde fica o bar de Betão?

- É este aí.

- Mas está fechado?

- Já faz três meses que ele viajou com a família para São Paulo.

- Viajou foi?

- O bar está fechado.

- O senhor poderia ler este bilhete para mim, fazendo o favor?

- Posso sim. Dei-me cá. Aqui diz: “Hoje é primeiro de abril, Dia da Mentira, estou marchado a coitada, passe ela adiante”. Eu acho que a senhora caiu na brincadeira.

- Eu não me lembrava que hoje era Dia da Mentira não. Tantas coisas para fazer e a patroa me faz isso. Mas deixe ela comigo.

Na residência da senhora Rita, o pessoal todo se fartava de tanto sorrir, esperavam por ela. O tempo foi passando, passando, e nada. O sol já estava sobre o centro quando Rita gritou:

- E a comida? !

- É mesmo! – gritaram os filhos.

- Onde se meteu a danada da Maria?

- Chame Paulão e manda ir atrás daquela negrinha. Hoje ela me paga!

O capataz saiu à disparada em seu cavalo castanho. Não demorou e retornou com o seguinte recado.

- Patroa, ela está muito doente.

- Você a viu?

- Vi sim. Ela estava embrulhada em dois cobertores, muita febre. Ela me disse que foi o sol quente que tomou na cabeça. Mandou lhe falar que rodou a cidade inteira e não encontrou o que a senhora mandou buscar.

- Deixe a coitada descansar, ela merece.

A Patroa foi ao fogão de lenha fazer alguma coisa para tapar o rombo nas barrigas dos seus familiares.

No outro dia cedo, a empregada chega toda sorridente.

- Viu um passarinho verde foi? – indaga a patroa.

- A senhora me marchou ontem não foi?

- Uma brincadeirinha do Dia da Mentira. Faz parte da vida. Andou bastante? Até febre deu.

- Pior foi a marcha que a senhora levou.

Todos estavam à mesa a tomar café.

- Levei? Não me lembro.

- Eu não estava doente coisa alguma, foi tudo mentira. Uma brincadeirinha do Dia da Mentira. Faz parte da vida. Foi para o fogão sem querer.

Os filhos caíram na gargalhada.

- E eu aqui com dó da danada.

- Andei muito, mas a senhora trabalhou como ninguém no fogão e nas louças, teve seu dia de graxeira.

 - A negrinha, se não gostasse muito de você, iria lhe dá uma boa surra e depois ainda lhe colocaria no olho da rua.

- Uma igual a mim, não se encontra em qualquer lugar.

- Ainda por cima é atrevida.

História baseada em fatos reais.

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