Cantor ilustre chega para grande show

Quem não conhece o famoso Pardal? Não estamos falando do Professor Pardal… falaremos do pássaro denominado de Pardal. Esta pequena ave que se disseminou pelas cidades do Brasil e hoje disputa com os humanos o posto de espécie predominante.
- José, a Professora está trazendo para nossa cidade um tipo de passarinho que ninguém daqui nunca o viu antes.
- E é…
- Disse que é estrangeiro! Bicho das Américas, um danado americano.
- Como ela os conseguiu?
- Arranjou com um parente de Salvador.
- Quem lhe falou isso?
- É a conversa que corre pelas ruas. Chegará amanhã cedo.
- Você sabe que eu gosto muito de criar pássaros? Em minha casa tem pra mais de duzentos… Esse tal de Pardal fará parte da minha coleção.
- Será que ela vende?
- Tudo na vida tem um preço, não será este pardal a não se curvar diante a força esmagadora do dinheiro.
Na manhã seguinte uma multidão estava na entrada da cidade esperando o ilustre estrangeiro que vinha de mala e cuia. O boato crescia à medida que o tempo passava. Logo chegara uma filarmônica. Homens seguravam rojões. O clima era de festa.
O relógio passava das duas da tarde quando ao longe apontou o caminhão Chevrolet Cara Branca. Fogos subiam ao céu, a filarmônica tocava seus lindos dobrados, o povo gritava, sorria, batia palmas.
Ao chegar o carro trazendo a professora, ela ao ver o povão sorriu e se deliciou com as vivas de boas vindas. Pegou a gaiola e apresentou as duas pequenas aves ao povo.
- Aqui temos as mais belas e importantes aves que  o nosso Sertão já viu.
O povo todo abismado achava a coisa mais linda do mundo.
- São lindos… – dizia uns.
- Dizem que além do seu próprio canto ele imita todos os outros pássaros – acrescentava outro.
- Quero um para mim, Papai – choramingava a criança.
De repente um canário da terra pousa em um velho juazeiro e começa em seguida a mostrar seu potencial. Cantava bonito, um mestre, dono do pedaço. Ninguém sequer o notou; ninguém, não, uma pequena criança sentiu pena e viu naquele canto uma espécie de lamento; sem saber que o canário cantava de alegria, anunciava seus filhos que acabaram de nascer.
As pessoas seguiram o veículo, muitas foram sobre a carroceria soltando fogos e cantando. O Pardal era o dono da festa, o cantor de luxo, o estrangeiro.
O caminhão estaciona defronte ao casarão, residência da professora, um bando de pássaros preto passou voando e assoviando, pousou nos coqueiros do quintal e permaneceu com os seus louvores. As pessoas só tinham ouvidos e olhos para os estrangeiros.
O dia passou rapidamente, a casa da professora foi tomada por uma romaria, fazia fila para conhecer os novos moradores do local. No outro dia cedo, ao abrir a porta de entrada, José já se encontrava encostado, quase caiu porta adentro quando a mesma foi aberta.
- O que foi, José? O senhor já não viu os pássaros ontem?
- Estou aqui para negociar com a senhora.
- Negociar?
- A senhora quer quanto nos estrangeiros?
- Nos pardais?
- Coloque preço.
- Não está a venda.
- Dou-lhe três dos meus melhores canários pelo casal.
- Não está a venda. Quando tirarem filhotes, nós conversaremos. Agora tenho que preparar a sala de aula. Com licença.
O homem retornou aos afazeres amuado e triste. Queria os pardais para a sua coleção.
Dois dias se passaram, era manhã de um sábado, a professora colocou a gaiola sobre a mesa e foi atender um chamado, ao retornar, a gaiola estava nas mãos do neto que sorria alegremente.
- O que você fez, menino?!
A portinha estava aberta e as aves ganharam o céu, ele que se encontrava azul, virgem de nuvens.
- Sebastiana, chame os meus empregados e vão capturar meus pardais.
A cidade foi mobilizada, todos procuravam pelos fugitivos. De tempos em tempos pessoas chegavam atestando que haviam visto eles em certa rua. Dois dias se passaram e as buscas foram diminuindo. Em uma semana após, poucos ainda tinham a vontade de ir à procura.
- Certamente que algum gato, ou mesmo um gaviãozinho peduro desses que andam voando por aí a capturar morcegos, deva ter feito deles uma refeição. Os pobrezinhos não estão acostumados com a nossa região.
- Podem ter morrido de fome também.
O criador de pássaro estava fissurado e queria capturar os pardais para sua coleção. Colocava-se sempre de olhos abertos, nas beiras dos rios, nas copas das árvores, nas serras.
Passado um ano do sumiço dos pardais, o criador de pássaros perambulava próximo ao prédio escolar, ainda tinha esperança de encontrá-los, mas estava conformado com a opinião dos demais que os bichos teriam sido mortos, escutou um canto diferente, feio, todavia nunca o sentira antes.
- Será?! Não pode ser. Que canto feio. Não, não, não, deve ser outro pássaro. Mas conheço todos os cantos dos nossos passarinhos e sei que esse que acabei de escutar não é de nenhum dele. Manteve-se de guarda, esperava por um sinal. Demorados pouco mais de trinta minutos um pardal passou voando com um ramo de capim no bico e adentrou para o telhado.
- Então foi por isso que eu não os encontrei. Procurava por eles nas matas, contudo os mesmos gostam é da cidade.
Buscou uma escada e apanhou os dois filhotes no ninho e pôs em uma gaiola. A notícia correu as ruas: “Foram encontrados os pardais da professora. Estavam eles nas mãos de José o Criador”.
José era o homem mais feliz do mundo, possuía um casal de estrangeiros, dos seus lábios somente sorrisos. O povão começou a visitá-lo com frequência. Transcorrido uma semana, a notícia que passou a circular era a seguinte: “João, Pedro, Joaquim, Sebastião e outros tantos encontraram pardais nos buracos dos telhados das casas velhas”. Após um mês todos os pardais capturados foram soltos, não era mais raridade, passou a praga, além do mais tinha um canto sem graça. Deste dia em diante o estrangeiro que chegou com pompas de reis se transformou em um voraz invasor, expulsou as andorinhas e os morcegos das suas tocas, passou a comer nos cochos dos porcos e das galinhas, no linguajar da região: “Transformou-se em praga”.
Moral da história: “Na nossa região, Santo de casa não faz milagres”.

Este conto é baseado em fatos reias acontecidos na nossa região.

Segundo o site (http://www.wikiaves.com.br/pardal): O pardal (Passer domesticus) tem sua origem no Oriente Médio, entretanto este pássaro começou a se dispersar pela Europa e Ásia, chegando na América por volta de 1850. Sua chegada ao Brasil foi por volta de 1903 (segundo registros históricos), quando o então prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, autorizou a soltura deste pássaro exótico proveniente de Portugal. Hoje, estas aves são encontradas em quase todos os países do mundo, o que as caracteriza como uma espécie cosmopolita. Essa ave tem se expandido pelo espaço rural e, em alguns casos, prejudicado a produtividade agrícola.

Comments are off for this post