Cada um tem seu dia para morrer?

Quando o danado dia chega cabe-nos vestir o paletó preto, calçar a melhor botina, usar uma cueca nova, aparar a barba e descansar enrolado nas garras da eternidade. O dia fatal todos nós o temos. Mas qual seria ele? Um domingo, um dia de chuva, de festa, de feira livre, qual? Deus escreve da maneira que lhe agrada mais, a nós apenas nos compete obedecer e seguir nosso calvário de cabeça baixa.

Nas terras do Sertão uma família descansava o corpo dolorido da labuta do dia que acabara de ficar para trás. Quando a pessoa vai para cama muito cansada não se dorme, apaga. O sertanejo desligou o interruptor da sua própria luz sobre o peso da fadiga corporal. Dormia pesadamente, um sono de túmulo, algo pesado demais para ser incomodado pelos sonhos e pesadelos. Mas as linhas de Deus já foram traçadas previamente, ou será que não? O homem entrou nos contos de fadas e começou a delirar. Sonhava está no quintal de sua residência sentado a observar os bichos.

Um galo cantou alto entre o capim.

- Galo cantando a esta hora? – olhou para cima e viu a lua. – Tá explicado. O pobre está pensando que já é dia. – Voltou a olhar para o céu e lá já não a encontrava mais. – O que está acontecendo?

O galo voltou a cantar, desta vez em um grau ainda mais agudo. Saiu de dentro do capim, ficou frente com o homem e não parou mais de cantar. Cantava, cantava e cantava. Estava louco o bicho?

- Quite, diabo! Me deixe dormir.

O galo continuava a cantar. O homem se sentiu perturbado, levantou e pegou uma pedra e a arremessou contra a ave. A pedra ao sair de sua mão não seguiu viagem sequer dois metros à frente. Ele correu na direção do bicho, suas pernas pesadas o seguravam, seus olhos viram um cão negro feito a noite se lançar ferozmente contra o galo. Da fera só se enxergava seus enormes olhos brilhantes. Os dois animais sumiram entre o capim. O silêncio prevalecia no local, de repente o cão volta com a boca cheia de penas, seu rosto todo manchado de sangue. O cão o observava, em seguida disparou rumo ao homem, esse rápido feito um relâmpago deferiu uma paulada na cabeça do animal. O bicho caiu estrebuchando e logo morreu. Pela boca saia uma grande quantidade de sangue, o homem aproximou os olhos, viu refletido no líquido vermelho a sua face, porém com os olhos de defunto e lavas a sair pelos orifícios.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiii!

- O que foi, homem? ! – assusta a esposa que dormia ao lado.

- Pesadelo!

- Deu para ter medo de pesadelo?

- Vou tomar um copo d’água e já volto.

Saiu e foi sentir a brisa da noite. Esperava encontrar algo, um sinal, uma pista que desse ar de realidade ao sonho. Alguns grilos cantavam e nada mais. Tomou a água e procurou a cama. O sono logo retornou e ele voltou a dormir pesadamente. Não demorou e a esposa o acordava para os trabalhos do dia.

- José, está na hora. Hoje é dia de feira.

Acordou cansado e triste. Não sabia o motivo da sua tristeza, sentia indisposição. Abriu a janela e olhou para o terreiro, um galo cantou na casa da vizinha, o sonho voltou a povoar seus pensamentos. Sentou a mesa para tomar seu café.

- Maria, estou com mau pressentimento. Tive um sonho estranho. Acho que hoje acontecerá algo de ruim.

- Você ultimamente anda muito cansado… pode ser isso.

O dia começava a clarear e os galos a cantar. Um na casa de João, outro no terreiro do vizinho, mais um ali, e tantos outros….

- Maria, hoje os galos acordaram para cantar. Isso não é bom.

- Todos os dias são assim mesmo. Agora, caso passe das oito e eles continuem com a algazarra, aí pode encomendar um caixão que a Morte se encontra nas proximidades em busca de alguém.

- Deus me livre – fez a cruz três vezes.

João ajeitou todas as mercadorias nas bruacas e partiu montado em seu cavalo branco a puxar uma mula. Não demorou e já estava no seu ponto habitual na praça a espera dos fregueses. Naquele movimento todo se esqueceu dos problemas da noite. Certa hora sentou em um tamborete para tomar um suco e comer um pedaço de rapadura. Estava metido nesse gostoso trabalho quando escutou um galo cantar, foi como em um estalo. Ele olhou para o lado e o galo estava lá, bem em sua frente. Olhou de novo e o bicho o encarava. Os galos na intermediação começaram a cantar. O relógio já marcava doze horas e os galos continuavam soltando o cocoricó. Como havia dito a esposa Maria: “Alguém irá morrer se os galos continuarem a cantar após o horário habitual”. Aos poucos o pessoal ia partindo e com eles os galos iam juntos, certamente as aves virariam o almoço dos dias seguintes. Sentado a matutar viu um senhor passar montado em um jumento, ao lado estava um galo, preto da cor da noite, amarrado aos pés, viajava de cabeça para baixo. O animal de repente cantou. O jumento seguiu seu desiderato, partiu em disparada logo atrás um cão negro a latir. Sumiram na esquina da rua que dava acesso à ponte.

- Que coisa maluca. Vou ajeitar minhas coisas e vou embora.

Poucos minutos tinha retirado todos os pertences e ajeitado o pouco que sobrou em uma bruaca. Amarrou os animais em uma árvore e foi à banca de carnes no barracão para comprar o produto. Nas costas carregava um saco, nele alguns cereais. Entrou no local e pediu ao dono o de sempre. O açougueiro cortou a carne, pesou e a colocou em uma sacola. O homem pagou e ao mesmo instante pegou a sacola. Neste momento um menino entra correndo no local, ofegante e trêmulo.

- Seu João, um homem me pediu para que viesse chamar o senhor.

- Para que, menino? De qual homem você está falando?

- Não sei. Ele me deu dez contos de reis para vir trazer o recado.

- Onde ele se encontra?

- Venha que eu levo o senhor lá.

Ao chegar ao local o homem não estava mais. João discutiu com o garoto e saiu para apanhar suas montarias. A feira estava no seu fim. As pessoas da zona rural deixavam o recinto aos montes. João pegou a estrada da ponte e partiu na direção da sua terra. Estava distraído, não pensava em nada, apenas desejava chegar a casa e tomar um bom banho, estava cansado. Na metade do caminho escutou como um sopro ao pé do ouvido: “A carne”. Ele de imediato parou e conferiu o saco, ela não estava dentro. Amarrou um dos animais em um mourão e voltou à disparada para ver se encontrava a carne. Entrou pela cidade a levantar poeira, freou o animal e em um salto já estava na porta do barracão. Olhou para a mesa e lá estava o saco com a carne. “Como pode ninguém ter levado ela?”, pensa João. Ele sorriu, entrou a andar, levou a mão ao saco de carne. Quando virava para ir embora, uma corda quebra, a madeira pesada que era usada para pendurar os quartos dos bois desce com toda força e velocidade atingido em cheio a cabeça do homem. Perdeu a vida na hora, sem ao menos saber o que havia ocasionado. Uma poça de sangue cresceu ao redor da cabeça. Em poucos minutos a cidade toda rodeava o cadáver.

Os galos estavam certos, alguém iria morrer.

História baseada em um fato real.

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