Bandeirolas aos Ares

Antigamente, lá pelas bandas da rapadura no tacho, do tocar os pássaros nas roças de arroz e das conversas nos bancos defronte as residências, os causos e as histórias aconteciam com mais denodo, com mais sorrisos, e por que não dizer, com mais maestria.

Pelas quebradas do passado, o mês de junho devagar e sorrateiramente aproximava-se, fagueiro, cheirando a fumaça dos fogos. O festejo em louvor ao Santo Padroeiro já estava abrindo a porta. O povo, no alvoroço, corria para enfeitar as ruas da cidade. A Avenida Principal, com o sacolejo constante do vento em curso, característico da estação, colocava as bandeirolas para bailar em ritmo de forró, mudando o visual rotineiro do ambiente.

Eitá tempo bão! O Santo Antônio iria começar.

Era uma manhã fresca de domingo, Água Quente jogaria em Rio do Pires contra a Seleção local, o caminhão partiu capengando de expectativa, jogadores e torcida no mesmo clima, pura alegria. A estrada era de cascalho, demorava a vencer pequenos percursos, buracos, pedras soltas e despenhadeiro próximo à volta do rio. O automóvel adentra por Paramirim, os integrantes gritavam e soltavam rojões, e sem muita demora segue firme seu rumo à Rio do Pires.

O resultado da partida se perdeu no tempo, parece que aconteceu lá pelas bandas dos anos setenta, mais precisamente no ano de 1972. Os atores daquele momento, reais nos dias que se seguiram, hoje, anônimos, encenavam algo que sequer imaginariam que certo tempo depois seria narrado por alguém. Após o jogo, a farra correu solta pela Praça da cidade, para cada copo de cachaça duas ou três paqueras. O retorno se deu já no badalar da meia noite.

Na volta, caminhão lotado, alegria e sorrisos a encantar a noite, resultado do jogo já não o era lembrado mais. O motorista guiava a fera pela buraqueira da estrada seca do sertão baiano cortando a escuridão asfixiante. O canto corria solto (Se esta porra não virar, eu chego lá). Na comitiva tinha um tocador de violão, outro de pandeiro, mais um agitando o triângulo e para fechar a orquestra um batedor de bumba. Apontou na entrada da cidade levantando poeira, lá vinha o caminhão com seus dois enormes e esbugalhados olhos, poderia cortar caminho, mas resolveram passar pelo centro da sede de Paramirim, desejavam com a sua alegria acordar a cidade. A Avenida Principal estava toda enfeitada de bandeirolas, já era madrugada, muitos acordavam atordoados e iam bisbilhotar nas frestas das janelas. O tocador de violão resolveu levantar seu instrumento, o braço do mesmo estendido a Deus, e no andar do carro as bandeirolas iam descendo devagar, tristes deitavam-se pelo chão. A algazarra ganhava mais ardor e intensidade. O trabalho de muitos dias se perdeu em menos de cinco minutos. A alegria da festa refletida nas cores do baixo céu da avenida deu lugar à tristeza dos funerais. O caminhão seguiu em direção a Água Quente, chegando lá, a folia não parou, continuou, ninguém lembrava mais nas tais bandeirolas.

No outro dia bem cedo, o Subdelegado de Água Quente tinha trabalho a prestar, intimou todos os jogadores para prestar depoimento na delegacia local. Para surpresa e espanto, a festeira do Santo Antônio era a esposa do Promotor. O reboliço foi enorme, o frio na barriga correu solto, o medo devorava os acusados. A mulher queria por que queria o reparo dos estragos. Como não achou o culpado, nenhum quis delatar o tocador de violão e nem tão pouco o próprio quis dizer que fora ele o autor do delito, os dias correram, e a própria festeira resolveu enfeitar tudo novamente.  O festejo a Santo Antônio seguiu e o caso foi arquivado.

Essa história é baseada em fatos reais, porém usamos um pouco da nossa ficção para torná-la mais agradável.

Comments are off for this post