A Lenda da Loira da Estrada de Água Quente

Pelo imaginário humano vagueia duvidas, medos, fantasias… Temos várias lendas, fatos confirmados por muitos e também chacoteados por outros. Uns dizem já terem visto, outros olham de banda, poucos afirmam de pés juntos que tudo não passam de histórias ou contos de fadas. A lenda do Curupira, a do Saci-Pererê, a da Mula Sem Cabeça… cada uma com a sua lição de moral.

Certo dia, já era final de tarde, porém o sol ainda estava brilhando com muita força, um homem conduzindo uma motocicleta trafega em direção a Água Quente. No sentido contrário vinha um automóvel. O rapaz do carro acionou duas vezes o sinal da luz alta, o da moto respondeu na igual saudação. Ao passar rente um ao outro, o homem do carro dá duas buzinadas e observa atentamente pelo retrovisor.

- Danadinho ele!

A estrada que liga Paramirim a Érico Cardoso (Água Quente) foi recentemente construída, antes se passava por outra próxima ao leito do rio, já não existe mais, vive debaixo das águas da Barragem.

- Estevão! Estevão!

- E aí, Paulo, o que lhe traz aqui a esta hora?

- Rapaz, estava curioso.

- Curioso?

- Sim. Quem era aquela Loira que você carregava na garupa da sua moto?

- Loira, que Loira?

- Não se faça de desentendido.

- Não sei do que o senhor está falando.

- Que mulher bonita. Tinha umas pernas! Oh mulherão!

- Você bebeu, Paulo? Está louco. Eu não trazia mulher alguma na garupa da moto.

- Quem diria… Logo você. Todos nós pensávamos que você fosse santo, mas aquela Loira prova que todos os homens são iguais. Uma aventura de vez enquanto faz bem ao coração.

- Que implicância é essa sua que só fala nessa Loira. Não sei de onde você tirou isso.

- Rapaz, deixe de besteira. Você não quer confirmar, tanto faz, o importante é que eu o vi com a Loira na garupa de sua moto.

- Você está louco.

O rapaz deu partida no veículo e sumiu rua acima. Logo ao chegar a casa, chamou a esposa ao canto e contou o ocorrido. No outro dia cedo, a notícia correu às casas de boca a ouvido na velocidade do vento. O sol já mostrava fraqueza quando o boato chegou ao seu ponto final, aos ouvidos da esposa de Estevão.

- Sandra, a notícia que circula pelas ruas da cidade é que Paulo viu uma Loira na garupa da moto do seu marido. Você se gabava do seu esposo, mas todos os homens são iguais.

O matrimônio do casal entrou em turbulência. A esposa ficou vários dias sem olhar para o marido. Com o tempo, os laços foram se unindo novamente e tudo voltou ao que era antes, porém a esposa sempre a jogar na cara do companheiro a infidelidade dele.

Passados alguns meses, um novo episódio volta a acontecer. Os fatos foram semelhantes ao já mencionado. O homem jurava de pé junto que não havia Loira na garupa da moto, ao contrário do primeiro caso, neste o rapaz era solteiro.

- João, quem era aquela Loira?

- Não sei de qual Loira o senhor está falando.

- Você é solteiro, se não quer falar é porque a moça é casada.

Os boatos se espalharam com mais rapidez, o povo só falava na tal Loira.

- Onde esta Loira está escondida que ninguém a ver? – pergunta um senhor na roda de amigos a conversar nos degraus da igreja à noite.

- Eu queria conhecê-la – diz outro.

A Loira já entrava no esquecimento quando um acidente faz o povo correr ao local. Um rapaz caiu da moto e veio a falecer. As pessoas cercavam o corpo, todos a conversar.

- Como aconteceu?

- Por quê?

- Ele corria demais?

- Será que exagerou na bebida?

Um carro para ao lado e um rapaz desce correndo.

- Fiquei sabendo e voltei para ver. Passei por eles a vinte metros daqui.

- Eles? – indaga o povo.

- Estava ele e uma Loira na garupa.

- Loira? ! – o povo volta a indagar.

- Tinha uma Loira na garupa da moto dele, tenho certeza que eu a vi.

- Mas aqui só se encontra ele. Onde estaria esta Loira?

- Eu não sei. Só sei que ele estava acompanhado por uma Loira.

A conversa seguia a todo vapor. Muitas perguntas e nenhuma resposta. Outro rapaz chega e diz também ter visto uma Loira na garupa da moto do falecido.

- Senhores, eu fiquei sabendo que a Loira se trata de um fantasma – fala uma mulher morena e de cabelos negros. – Disseram-me que a Loira sempre monta na garupa dos motoqueiros, também me falaram que se o motoqueiro perceber e olhar para o rosto dela, o coração endurece e ele morre na hora.

- Seria uma medusa? – indaga um rapaz.

- Disseram-me também que a tal Loira é uma alma penada.

- Alma penada – o rapaz volta o olhar para trás e lá já não estava mais ela. – Cadê a moça que estava aqui ainda há pouco?

- Que moça?

- A moça que falou da Loira. Uma morena de cabelos negros.

- Eu não a vi não.

Ninguém ali viu a morena, apenas ele. O acontecimento flutuou igual à fumaça nas mentes do povo. A mulher que achava que fora traída pediu perdão ao esposo. Estava esclarecido, a Loira se tratava de um fantasma.

Os dias foram passando rapidamente, no decorrer deste tempo, religiosos fizeram orações no percurso da estrada. O fato ia aos poucos se diluindo, perdendo força, porém bastava uma pessoa ter que ir sozinha de uma cidade a outra que o medo aparecia, ainda mais se fosse à noite.

Certo dia, um rapaz, já com seus trinta anos, dirigia ao retornar de Paramirim a Água Quente. O som estava ligado, mantinha uma velocidade condizente com a estrada. De repente, ele sente a presença de alguém sentado a seu lado, pensou em olhar, mas o medo de ter o coração virado pedra o fez ficar rígido ao volante, estava branco, trêmulo, suava em demasia, parecia que havia virado uma rocha. Apertou o pé, desejava chegar logo, foram cerca de dez quilômetros, pouco, mas que naquela noite pareceram a mil. Ao chegar próximo à entrada da cidade, ele sentiu que não havia mais a presença de uma pessoa ao lado, mesmo assim não se atreveu a olhar para o lado. Já era meia-noite, parou o carro defronte a casa, sequer o colocou na garagem, desceu trêmulo e fraco.

- O que é que você tem? – indaga a esposa ao abrir a porta. – Viu uma assombração?

- Ainda bem que eu não a vi, todavia ela esteve o tempo todo ao meu lado.

- De quem você está falando?

- Da Loira da estrada.

- A Loira!

- Assim que eu sentir a presença dela, eu firmei meu olhar para frente e sentei o pé no acelerador. Se eu não soubesse como proceder, agora estaria morto em uma das curvas da estrada.

A notícia voltou a circular, o povo correu a casa do rapaz, queria saber tim-tim por tim-tim do ocorrido.

A lenda da Loira da Estrada de Água Quente ainda vive na memória do povo, muitos têm medo de trafegar sozinhos pelo dito trecho; à noite, o medo é ainda maior.

História baseada em um fato real depois transformada neste conto pela mente de um aspirante a Escritor.

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