Torneio de melhor canto no reino animal

jul 22 2015 Published by under Fábula

papagaio-verdadeiro

A inveja também habita o reino animal. Sempre haverá um ser querendo usurpar o trono de outro. É o mesmo jogo que leva os humanos a digladiarem por algumas migalhas de pão. Todos almejam a glória, os troféus, as coroas de louro. Vencer faz parte, ganhar sempre é bom, ser campeão então não há palavra que se expresse tal sentimento.

No reino dos pássaros, em um mundo paralelo, todos os anos se realiza uma competição para escolher a ave campeã de canto. Os passarinhos passam os doze meses se exercitando para soltarem seus dons no concurso. O espetáculo atrai bichos de todas as espécies, um show de ilustres tenores.

O pássaro Cardeal é tricampeão do torneio, nos últimos três anos, os holofotes só estiveram na sua direção, reina absoluto no palco. Ô bichinho que canta! Canta demais este passarinho de cabeça vermelha. Entrava na disputa deste ano como um dos favoritos, contudo não seria uma parada fácil, todos treinaram forte para tentarem acabar com a hegemonia dele. O campeão passou um ano sem muitos treinos, voltou a praticar seriamente há apenas sete dias. Com três títulos, com muita fama, faltava-lhe tempo para se aprimorar. É um legitimo brasileiro, basta ganhar uma única vez para se acomodar feliz, cair na farra, beber, namorar; treinar deixa para as horas vagas que nunca chegam.

A Papagaio Louro passou o ano inteiro treinando pesado para desbancar o grande campeão. De tanto repetir, ficou bem mais afinado do que o próprio Cardeal. Estava confiante, pois sabia da sua potencialidade. Levava no canto do bico um sorriso malicioso, era a sua vez de receber aplausos, de ser coroado, de erguer um troféu de melhor passarinho cantador.

O torneio começou em uma manhã linda de verão, dia fresco, havia chovido na tarde anterior, palco ideal para uma boa disputa. O evento iniciou com o Pássaro-preto, este um grande cantador, teve uma brilhante performance, todos o aplaudiram de pé. Em seguida, subiu ao palco o Canário da Terra. Que apresentação! Também soltaram o canto: o Sofrê, o Quem-quem, o Trinca-ferro, a Fogo-pagou, a Coruja-buraqueira, o Periquito-maracanã, o Tiziu, o Sabiá, o Bem-te-vi, entre outros. Cada apresentação mais bela que a anterior. Seria difícil a escolha do melhor. Os jurados roíam as unhas, um olhava para o outro indeciso.

Já era final de tarde, por sinal, um lindo pôr do sol enfeitava o céu, restavam-se apenas dois participantes a se apresentarem: o Louro e o campeão o Cardeal. O locutor anunciou no microfone: “Agora ao palco, o Louro”. O animal subiu todo esbelto, trajando um terno, pimpão bem penteado. O apresentador fez o sinal para que o aspirante a astro iniciasse a sua apresentação. O Louro começou, todos ficaram de boca aberta, atônitos. Como ele conseguia imitar tão bem? Terminou a apresentação, todavia não recebeu sequer uma única salva de palmas. Achou estranho, ficou mal-humorado, com raiva, nervoso.

É chegada a hora do grande campeão, andou ao palco devagar, a plateia hipnotizada parou até com a respiração, contemplava a grande estrela, mostrava-lhe respeito. O Cardeal soltou o conto, algo melodioso, com notas suaves, firmes, finas e inéditas. O público o aplaudia de pé, muitos assovios, muitos “Já ganhou! Já ganhou!”. Um verdadeiro gênio do canto se curvava em agradecimentos. Antes mesmo de terminar a apresentação, o veredito já era certo. O Louro insatisfeito resolveu protestar:

- Contesto o resultado! – gritou o Louro.

- Mas nem houve resultado ainda – respondeu o apresentador.

- E precisa? Pela a alegria de todos, já sabemos que o Cardeal ganhou novamente. Fui melhor que ele, minha afinação foi perfeita, sou merecedor do troféu de campeão.

- De fato tudo que você disse é verdade, mas o senhor perdeu no quesito autenticidade. Se o senhor tivesse participado de um concurso de imitação, com certeza, seria o vencedor, pois imitou perfeitamente o canto do Cardeal. Para ser campeão deste torneio o participante precisa ser em primeiro lugar original.

O Louro deixou o recinto de cabeça baixa, triste e desconsolado. Participou de vários torneios de imitação, em todos saiu com o troféu de primeiro colocado. Contudo sua frustração era que nunca se consagraria campeão do outro torneio, pois só sabia imitar, criar era algo estranho a sua mente. Foi um campeão, passou a vida toda frustrado.

Moral da história: Imitar, a grande maioria consegue, mas criar algo novo, isso é apenas para alguns santos escolhidos a dedo por Deus.

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