Fábula – Escolha Difícil – Os Cabritos e os Lobos

out 02 2012 Published by under Fábula

No mundo há os começos, os fins e os recomeços. Nessa troca intensa de acontecimentos, os dias nascem constantemente, momentos renascem ininterruptamente. A estrada alonga-se para uns, chega ao fim para outros e se abre para muitos. É a vida com suas curvas, suas retas, seus declives, seus aclives, suas alegrias e suas desilusões rompendo a passos de formiga e velocidade de leopardo.

Pelo espetáculo lindo e verdejante de um majestoso vale pastava um rebanho de cabras; animais brancos, animais negros, animais misturados. Os bichos se fartavam naquela magnânima manhã de primavera. O líder do grupo, por sinal o maior dentre todos, cifres grandes, barbicha enorme, olhos de fera, permanecia atento, abaixava e apanhava o alimento, mastigava-o vagarosamente, tinha sempre a cabeça erguida na busca de um simples sinal que representasse perigo. Os demais pastavam providos de despreocupação.

O vento havia parado, o sol ardia forte. O líder parecia prever algo, bastaria um único pressentimento e…

- Corram! – berrou o grande patriarca.

Um singelo balancear da relva baixa o fez agir abruptamente. Conhecedor e experiente não titubeou sequer um segundo. O rebanho em um único estalo, como um projétil que se lança ao espaço após o gatilho acionado, debandou em correria.

- Para as montanhas! – acrescentou.

Do nada sugiram vários lobos, esses se lançaram na perseguição do que poderia ser o almoço do dia.

- Corram! Corram! – voltava a berrar o poderoso líder.

A matilha cortava o ar feito relâmpago, trazia na sua força a ferocidade carnívora dos sanguinários predadores.

- Vamos! Vamos! – uivava o lobo pai – Hoje teremos comida farta. Avante, meus nobres companheiros!

Os cabritos sentiam a frieza gelada da derrota. A matriarca do grupo aos poucos diminuía a velocidade.

- Vamos! Vamos! Não desanime! Não fique para trás! Vamos conseguir! – o líder voltava a berrar.

- Já estou velha, resta-me pouco tempo de vida, é melhor me sacrificar a por em risco a vida dos nossos jovens. Já vivi o bastante, deixe que eles também assim os façam. Estou cumprindo com a lei natural das coisas. Meu fim será a prolongação da vida de outros. Foi maravilhosa a vida ao lado de vocês. Fujam! Salve o nosso rebanho!

Os lobos logo perceberam a fragilidade daquele cabrito, a horda não hesitou no ato, todos em um simples olhar se lançaram a captura da presa.

Os demais cabritos chegavam a serra e em saltos tentavam se posicionar o mais longe possível das feras. O grande chefe ficou sobre uma rocha a observar o duelo.

- Lá está a nossa alimentação!  Vamos caçá-lo! – uivou um dos lobos.

-Vamos, você consegue! – berrou o chefe dos cabritos.

A grande matriarca aumentou a velocidade, corria em zigue-zague, tentava em vão se safar da dura sina. Os lobos sabedores da vitória, apenas cercava a vitima, o cansaço dela era notório.

- Meus queridos, para mim, não dá mais, já não tenho forças para suportar o cerco. Obrigada por tudo. Agora vão, é chegada a hora difícil da partida – sentencia a matriarca em perigo.

O líder do rebanho tinha em pranto um olhar triste de fim de tarde. Impotente diante os acontecimentos tremia os nervos por não poder fazer nada perante a cena macabra que se desenrolava perante os olhos.

- Vamos! – berrou o líder. – Perdemos a batalha.

- Melhor perder uma peça da nossa família a por em risco todo o nosso rebanho – respondeu a presa rodeada por lobos famintos.

- Vamos! – o grande líder baixou a cabeça e seguiu serra acima acompanhado pela fileira de cabritos tristes e de cabeça baixa.

- Ao ataque! – uivou um dos lobos.

Moral da história: “Em certos momentos, ceder, ou perder algo é melhor e mais inteligente do que colocar em risco todo o sistema, toda a estrutura construída até então”.

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