Você sabe com quem você está falando?

mai 20 2019 Published by under Crônica

Hoje eu acordei e de cara deparei-me com esta indigesta interrogação: “Você sabe com quem você está falando?”. Fiquei a olhar atentamente para aquele que me inquiriu. Olhei, olhei e olhei. Realmente, preciso pensar um pouco para formular uma resposta.

Eu estava defronte a um espelho. Nós dois nos encarávamos. Parecia a um duelo de filmes de faroeste americano. Quem irá atirar primeiro. Não, não, quem irá falar primeiro. Como ele não se mostrava confiante em abrir a conversa, decidir iniciar um bate papo.

- Quem é você?

No mesmo instante recebi a mesma indagação. Uma pergunta deveria seguir de uma resposta, mas seguiu da mesma interrogação.

- Meu nome é Paulo.

Ele tem o mesmo nome que eu. Estranho. Olhando bem o seu rosto, seus traços se assemelham com os meus.

- O seu nome é igual ao meu.

De novo falamos as mesmas palavras ao mesmo tempo. Parece telepatia. Que coisa estranha.

- Você mora onde?

Tudo que eu falo ele repete.

- Moro em São Paulo.

Ele também mora em São Paulo. Talvez ele more aqui perto. Poderemos ser bons amigos.

- Você mora aqui perto da rua x? Sim, moro. Poderemos ser bons amigos, então? Claro.

Que sintonia a nossa. Gostei dele. Parece muito comigo.

- Por que você sempre repete o que eu falo?

Não dá para ter uma conversa saudável com este rapaz. Ele está a debochar de mim. Como devo proceder diante dele? Agora, ele só me observa atentamente, parece meditar. Ele, com certeza, está armando alguma. Conheço este tipo de pessoa. Sujeitinho malandro.

- Pare de olhar para mim deste jeito!

Olhe a petulância dele, quer que eu pare de olhar para esta cara feia. Mas deixe comigo. Ele me paga. Sei lidar com gente assim.

- Mas você é arrogante! Sua mãe deve estar triste por ter um filho como você.

Eu estou perdendo o juízo com este rapaz.

- Você me respeite, seu cabra!

Acabou de me chamar de cabra.

- Deixe-me em paz. Vá procurar a sua turma.

Se eu pudesse, eu encheria a cara dele de porradas. Sujeitinho petulante.

- Vem cá, você tem namorada?

Ele deseja saber o nome de minha namorada. Será por quê?

- Cecília. Por quê?

O nome é igual ao nome da minha namorada.

- Cecília de quê?

Será se Cecília me traiu com este sujeitinho ordinário? Estou ficando preocupado.

- Cecília Aparecida Santos Silva.

Meu Deus, ela me trocou por este sujeito. Como ela pôde ser cruel assim comigo. Mas isso não irá ficar assim. Tenho que resolver esta situação agora. Nunca fui de violência, contudo não suporto mais tamanha tortura.

- Seu desgraçado! Toma!

Ele me feriu na mão. Como dói. Está sangrando.

Cadê você que sumiu? Apareça. Você sabe com quem você está falando? Volte para terminarmos o nosso duelo.

Uma porrada deferida contra o espelho fez desaparecer a sua própria imagem. Convivemos com nós mesmo o tempo todo, sequer nos conhecemos por completo. É uma tortura o diálogo de mim para comigo, pois as respostas recebidas das indagações feitas já foram processadas pelo mesmo canal. Não posso encontrar em mim o que não tenho no meu interior. Se não consigo diante do espelho determinar quem eu sou, como poderei exigir de outrem saber quem sou eu. Por isso uma inquirição assim só poderá ser feita perante o espelho, mesmo assim sem um resultado favorável, pois sequer nos conhecemos ao fundo. “Você sabe com quem você está falando?”. Com toda a certeza deste mundo: não, não sei.

Luiz Carlos Marques Cardoso 19/05/2019.

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