Um dia de domingo qualquer

jul 14 2013 Published by under Crônica

Acordei faltavam dez minutos para oito, mas meu querido e inseparável despertador tocou no horário determinado de sempre, as seis e trinta, de imediato o desliguei. “Deixe de me importunar, vá dormir, hoje é domingo, também sou filho de Deus”. O despertador, um relógio que trabalha constantemente sem se queixar, manteve-se o seu sepulcro silêncio e seguiu com a sua labuta diária. Tic-tac, tic-tac. O bom é que os despertadores não entendem a língua humana, se entendesse poderiam fazer manifestação, ou em uma oportunidade que estivéssemos precisando do seu seguro trabalho ele simplesmente nos deixaria na mão. Levantei meio cambaleante e fui ao banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes, penteei os cabelos. Sentei a mesa, peguei uma xícara, o café despencou do alto feito uma cachoeira de petróleo e repousou dentro do pequeno lago. Enquanto eu me alimentava assistia ao Globo Rural, que por sinal passava uma reportagem sobre o café plantado na Bahia. Comecei a fazer alguns afazeres, logo o celular tocou. Tinha que sair. Peguei a chave do carro e em poucos minutos já me encontrava em uma praça onde em seu centro se encontra uma quadra. Cerca de trinta crianças se divertiam ao belo e aromático sabor de correr atrás de uma insignificante, mas maravilhosa bola. Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que a garotada estava ali desde as sete horas. Pensei comigo: “Às sete horas meu corpo estava sobre uma macia cama, protegido pelo calor de um quente cobertor e um inseparável mosquiteiro. Todavia enquanto meus pensamentos vagavam por outra dimensão nas asas dos sonhos o mundo por todos os lugares não parou, continuava na sua loucura de sempre”. Se a morte é, como se diz por aí, igual a um sonho, estamos perdendo tempo vivendo, mas vá que não seja, vá que a morte seja realmente o fim, melhor ficar por aqui mesmo, não preciso morrer para está em sonho, basta para isso dormir, cedo ou tarde serei obrigado a pisar nesse cadafalso que tantos já pisaram, vamos aguardar com bastante paciência, não tenhamos pressa, como se dizem por aí: “Vamos viver a vida”. Não demorei e voltei a dá partida novamente no carro. Não sei como as gerações passadas viveram tanto tempo sem o auxilio dessas máquinas. Uma música me tirava da realidade e me jogava em um mundo paralelo, não sabemos o porquê, mas o poder da música sobre nós é inexplicável. Um boi negro que estava pastando, não era um boi e sim uma vaca, encarou-me, com a câmera congelei aquele singular segundo, logo após ele voltou a se alimentar, talvez tenha gostado de ter sido importante por alguns segundos. O que vale ser importante? Será que vale muito? Sei não… ser importante é meio complicado. A frente uma linda flor amarela, sobre ela um enorme besouro negro a sugar o seu delicioso néctar; a flor alegre se exibia e se entregava aquele estranho ser, faz parte da vida. Fiquei por lá cerca de três minutos, parti e ele continuou na exata posição. A sorte de certos insetos é poder namorar as flores com o feliz consentimento delas. Deixei o automóvel na segurança de uma garagem e sai a fotografar pelas ruas e avenidas. Como é bom poder vagar e bater um simples papo com as pessoas. A princípio o pessoal nos estranha ao nos ver com a câmera na mão, poucos segundos e passamos a fazer parte daquele ambiente e tudo se acomoda nos seus devidos lugares. Em frente ao cemitério havia umas quarenta pessoas, indaguei a um senhor que observava de certa distância, ele me disse que uma senhora da zona rural falecera e fora sepultada momentos antes. A morte e as suas tenebrosas garras não falha nem nos domingos. Passei por um pequeno bar e encontrei um grupo se divertindo com as pedras de dominó. Um rapaz carregando uma garrafa de refrigerante preenchia a rua vazia, o sol dizia que já beirava a hora do almoço, certamente se encaminhava para refeição. Parei e me pus a imaginar, olhando para casas, para ruas, para as pessoas, vejo o quanto aquilo tudo está impregnado de significados, de histórias; cada canto, cada paralelepípedo a cobrir o chão, cada fechadura, cada quarto, cada centímetro com seus contos. A vida se faz de momentos, bons ou ruins, se é que saibamos diferenciar os dois.

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