Sempre a um passo atrás

jan 12 2015 Published by under Crônica

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Minha vida é marcada por um fato, simples, porém de grande relevância, faz toda a diferença. Nas minhas buscas pelas conquistas pessoais, sempre, sempre mesmo, chego um passo atrás da grande massa. Seria minha sina? Ou serei eu um fraco? Ou tudo não passa de oportunidades perdidas? Ou me falta ser malandro? Não sei, mas sempre é da forma que acabamos de mencionar.

Vou narrar minha história, história de gente pequena, história que nem merece ser narrada, mesmo assim mancho a humanidade com algo sem valor algum.

Sonhei, como todos na vida já sonharam um dia, não foi sonho de quem dorme, sim uma idealização de busca por algo que nos faz seguir. Como é bom sonhar, como é maravilhoso o caminhar em busca de algum objetivo, ao final o fruto sequer sabor tem. Sonhei, já disse, ainda sonho, todavia por sonhar pequeno tenho sempre mania de me culpar pelo resultado pífio. Volto a indagar: Ou me faltou ser malandro? Se for para ser malandro para ter um sonho elevado, melhor que fique triste, melhor não me iludir com algo que não me pertence.

Certo dia sonhei em possuir um fusca, no tempo que fusca valia muito, muito para meus bolsos vazios, para outros o fusca era menos valioso que um carro de bois quebrado. Como sonhei comprar um fusca, você não tem ideia. Passei a persegui-lo diariamente. Todo centavo que sobrava já tinha um destino, o porquinho. Quantos anos nessa luta louca. Que sonho ingrato, meu Deus! Teria eu um propósito melhor se tivesse sonhando em ser doutor, advogado, arquiteto, mas não, sonhei em comprar um fusca. Comprei que se diga de passagem, contudo me ferrei.

Com o fusca eu seria um rei, a mulherada beijaria meus pés, teria uma vida das arábias. Se fosse no tempo que tinha começado a sonhar, quando eu ainda era adolescente, sim, o fusca me abriria algumas portas. Os tempos são outros, tempo de Ferrari, Camaro, Hilux. Fusca hoje em dia só tem destaque nas mãos de colecionadores, pois os mesmos além deles possuem outras máquinas modernas. Gastei dez anos de minha vida, tornei-me morfina, um autêntico pão-duro. O fusca não conseguiu me dá as chuvas de verão que tanto sonhei. Volto a frisar: Ou me faltou ser malandro?

Cabisbaixo sigo minha estrada, alguns sonhos volta e meia volta a me azucrinar, o sangue correr rápido pelas veias, o suor desce pelo rosto. Acalmo-me, coloco-me na realidade. Sonhar é bom, essencial para uma vida salutar, contudo em demasia acaba com o nosso presente, tornando-nos escravos, doentes necessitados de apoio e direção.

Se eu fosse malandro, como teria me dado bem. Quantas portas não me abririam? Tudo aquilo que havia sonhado teria se tornado real. Não quis ser malandro, perdi a chance de gozar as proezas da carne. No final todo caminho desemboca em um único lugar, os sentidos se apagam, nós nos retiramos. Agora refletindo com os meus botões chego à conclusão que valeu a pena não ceder as facilidades, pois ao olhar para o mundo, só vislumbro vícios naqueles que um dia deixaram de sonhar e encontrou na malandragem uma forma de burlar a enorme escada para conquista do sonho. Volto a repetir: o bom é a caminhada em busca do sonho, o fruto no final sequer sabor tem.

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