O vendedor de pães

jan 19 2015 Published by under Crônica

pao_frances

Nas madrugadas da vida pessoas se lançam na labuta diária para a conquista do pão. Acordam antes mesmo do galo soltar seu primeiro turrado. São seres das noites iguais aos morcegos e as corujas. Cada pessoa leva nos ombros o saco que lhe fora confiado, cada qual procura suas aptidões para melhor enche-lo. Enquanto acordar cedo para muitos é sofrimento demais, para outros é a única alternativa de sustento.

O homem com o seu carrinho vara a escuridão, destino, a padaria. Ele anda devagar, cabeça baixa cobrando pelo sono que deixara na cama macia. Não consegue pensar em nada, anda passo a passo sem se importar com os acontecimentos que giram ao seu redor. Um gato preto sobre o muro, o cão que fareja uma lata de lixo, um automóvel estacionado quase no meio da rua, um muro que foi posto ao chão, passou por tudo isso como se nada existisse. Para ele apenas o trabalho, mas naquele momento o prazer do descanso o atraia mais. Que se dane as coisas do mundo, trocaria tudo por meu sono em minha cama, pensava ele. Neste espaço há correntes que nos fazem escravos das necessidades, mesmo essas não existindo visivelmente.

O rapaz com o carrinho abarrotado de pães saiu a peregrinar pelo seu caminho rotineiro. O sono deixava de o incomodar à medida que os raios do sol se levantavam no horizonte. Com a sua buzina alertava os fregueses que era hora de comprar o pão para o café da manhã. Aquele pom-pom corria pelo espaço indo de encontro aos tímpanos dos que os aguardavam. Cada residência uma pequena pausa, acionava sua buzina duas vezes, esperava; o cliente saia bocejando, pedia a quantidade de pães, pagava e voltava para o conforto do lar. O vendedor continuava na sua luta.

Certo dia, uma senhora, freguesa já de mais de mês, pediu-lhe o de sempre, logo foi entregue as mãos dela uma sacola cheia de pães. A mulher com a sacola na mão direita disse ao vendedor que não tinha dinheiro no momento, que anotasse. Ele redarguiu dizendo que não trabalhava com fiado. Ela retrucou que era uma cliente honesta, que nunca dera cano em ninguém. O rapaz com medo de perder a freguesa, cedeu ao apelo.

A senhora começou a comprar e a pagar, comprar e a pagar. Em uma dada manhã, após várias buzinadas, a senhora não apareceu para buscar os pães. O vendedor estranhou o ato, mas seguiu, alguma coisa poderia ter acontecido com ela. Passou dez dias seguidos, nada da mulher aparecer. Ao meio dia, hora do almoço, ela certamente estaria em casa, o vendedor de pães se dirigiu a residência da devedora, apertou a campainha, a dita saiu. Ao vê-lo, de imediato, falou com aspereza, fez cara de mal. Quando soube que o rapaz estava ali cobrando, a mulher se transformou, virou uma fera, disse que era uma afronta com a família dela, que ninguém nunca tivera a petulância de agir assim antes, afirmava que não iria pagar de jeito algum, pois era uma insulto muito grave. O pobre do vendedor de pães, trabalhador, honesto, padeceu com o prejuízo.

O difícil é a primeira vez. Por que ele foi ceder ao apelo daquela maldita mulher? Abriu o crediário para um freguês, acabou vendendo para todos. Como o dinheiro dele se encontrava nas mãos dos outros, pobre ser, foi obrigado pelas mazelas sociais a também comprar fiado. Com o passar dos dias, pobre ser, perdeu a honestidade, também deu o cano.

E as engrenagem da nossa sociedade gira sempre nesse ritmo tênue de comprar e não pagar. Há pessoas que constroem mansões, compram automóveis de luxo, comem do bom e do melhor, sempre nas custas dos outros. E depois essas mesmas pessoas gritam alto e em bom som: “No Brasil só tem corruptos. É uma cambada de ladrões”. Como as pessoas não se omitiram, pelo menos tiveram uma virtude, foram sinceras.

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