Escravos modernos

jan 06 2016 Published by under Crônica

Quanta luta empenhada na libertação dos escravos, foram tempos difíceis, mas necessários para a evolução do amor e da boa convivência na sociedade. Nos atuais dias, neste capitalismo desenfreado, desembestado e malogrado paira sobre os indivíduos uma neblina que embriaga os sentidos. Somos escravos modernos, escravos satisfeitos com a servidão imposta pelo sistema vigente. Somos servos cativos sem ao menos nos darmos conta do tamanho das correntes que nos enrolam e nos aprisionam.

O escravo moderno levanta cedo, trabalha feito um condenado, troca o feriado por bonificação, vende as férias. O escravo moderno rouba, furta, usa de artimanhas para se dá bem. Tudo que um bom escravo moderno deseja é possuir em demasia. Um automóvel é pouco, dois é pouco, dez é pouco, tudo é pouco para a ganância de um ser que acha que possuir o colocará no topo social. Quero uma mansão, quero um apartamento, quero uma casa na praia, quero sempre mais. O escravo moderno dará a própria vida para adquirir os supérfluos. Carrega no braço o relógio de marca, no pescoço corrente de ouro, um óculos da moda, roupa dos ídolos bolas de soprar. O Escravo precisa angariar aquilo que nunca irá usufruir, pois todos nós temos limites, somos limitados.

Os tempos da tecnologia criaram seres dependentes por novidades. Cada lançamento um alvoroço, um corre-corre, filas gigantescas. Somos ou não somos escravos modernos? Faremos de tudo pelo celular de última geração, de tudo mesmo, muitos venderão a própria alma. Transformamo-nos em escravos dos bens materiais. A TV nos governa, o carro nos cobra acessórios fúteis, a sociedade nos obriga a estar onde o gasto é o primeiro requisito. Precisamos ostentar para satisfazer nosso ego de escravo obediente. O que possuímos vale mais do que nós mesmos. As atenções, os holofotes, são todos para o fascínio daquilo que o dinheiro pôde comprar. O si se perdeu no lamaçal dando holofotes apenas as preciosidades frívolas do material.

As pessoas desatentas, cegas pelas regras do capital, não conseguem visualizar o princípio basilar do sistema que nos oprime. Este sistema deseja que a sociedade toda consuma muito, que todos tenham muitas propriedades, que todos paguem bastante impostos. O escravo além de fazer as engrenagem do capitalismo girar com a força dos braços, ainda mantém com o seu suor a máquina governamental. Se tenho três veículos, três IPVAs deverei pagar ao ano; se tenho quatro casas de luxo, quatro IPTUs sou obrigado a quitar no decorrer de doze meses. Neste jogo de gato e rato, quanto menos patrimônio tiver, menos dor de cabeça terá para mantê-lo. O escravo moderno não trabalha para satisfazer as suas necessidades, labuta apenas para sustentar o mundo fantasioso que o obrigaram a dá vida.

Vale a pena lembra-se da famosa cena da caverna relatada por Platão em um dos seus clássicos livros filosóficos. Acostumamos a ver apenas aquilo que os sentidos apontam, esquecemo-nos de inquirir a razão. A vários fatos que nos levam a crer que para uma vida menos atribulada é preciso que cada um corrija seus extremos se posicionando na mediana das vontades e das necessidades. Fujamos dos vícios e da preguiça. O valor maior da obra somos nós mesmos, o restante só possui valor porque existimos, sem a nossa presença, a matéria perde todo o seu poder de fascinação.

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