Algo de positivo aconteceu na sala de aula

abr 05 2019 Published by under Crônica

- Hoje iremos estudar a Segunda Guerra Mundial – disse o professor para a sala de aula repleta de alunos.

- Mas, professor, eu não sabia nem que tinha existido a primeira guerra e o senhor já vem querendo explicar a tal da segunda – redarguiu um aluno curioso.

- Verdade, ou uma brincadeira sua? – indagou o professor sem ação.

- Verdade. De história eu só sei a do Brasil. Se é que eu sei mesmo. Acho que sei.

- Mas nesta série já era para que todos vocês tivessem conhecimento de muitos assuntos.

- O senhor quer saber, professor? Eu não sei nem escrever direito. Também não sou bom em leitura.

- Mas o que vocês fizeram nas séries anteriores?

- Fizemos o que nos mandaram fazer. Resultou neste fracasso, neste fiasco.

- Mas vocês têm bons professores, têm escola bem conservada, têm transporte escolar, tem merenda, e o resultado é este?

- Se de trinta alunos, três a quatro são razoavelmente bons, não pelo que os professores passam nas aulas, mas pelo que é estudado em casa, algo deva está errado com este método de ensino.

- Verdade. Algo deva está errado. Acho que vocês não aprendem porque falta interesse, comprometimento. Está sobrando preguiça.

- Professor, para que tentar aprender um monte de assuntos que nunca irei usar na vida?

- Não é bem assim. Vocês precisam aprender, pois irão precisar na hora de prestar um vestibular, fazer a prova de um concurso.

- E depois? Vendo o meu atraso, olhando o tempo perdido, queria neste momento apenas saber ler e escrever correto. Nem isso eu sei. Os senhores não ensinam, simplesmente, porque gramática não cai no vestibular ou no concurso público. As provas viraram apenas textos com cunhos ideológicos, com propósitos pensados por autoridades perversas.

- Não é bem assim, você está equivocado.

- Agora o senhor vem falar em Segunda Guerra Mundial. Será que o que irá passar é a pura verdade, ou será mais uma manobra de entes para nos persuadir? A escola perdeu seu dom de ensinar, virou a casa da mãe Joana.

- De onde você tirou tudo isso? Você está equivocado.

- Equivocado? Não, professor, eu não estou equivocado. Tenho minhas razões. Este ensino não ensina ninguém a nada. O interesse do Estado é nos fazer marionetes nas mãos deles. Quando todos falam as mesmas palavras quem tente falar diferente é taxado de equivocado. Se eu fosse equivocado, o ensino do Brasil seria um dos melhores do mundo, na verdade paira entre os piores. E não é por falta de dinheiro, pois hoje há bem mais recursos do que outrora, contudo outrora tinha mais efeito positivo que nos atuais dias.

- Pelo jeito você anda lendo escritores proibidos. Estas ideias foram plantadas na sua cabeça por indivíduos, como posso me referir, indivíduos perversos e doentes. Você precisa esquecer estas coisas e pensar como todo mundo. Precisa passar em um vestibular, conquistar um emprego, crescer em uma carreira, ganhar dinheiro, ter uma família… Se você for por este lado, irá sofrer muito, não irá conseguir vencer na vida.

- A mesma fórmula para todos. Parece até que somos robôs. Também vou precisar roubar para ficar rico? Os conceitos foram invertidos. A sociedade patina sobre densa lama de hipocrisia. O caminho do sucesso financeiro no Brasil é um só, o da malandragem, do jeitinho, da trapaça.

- É melhor deixarmos esta conversa de lado. Vamos começar a nossa aula. Pelo jeito você sabe muito bem o assunto que iremos tratar. Seu desejo era me afrontar. Se for seu objetivo, já conseguiu.

- Não, nunca pensei em afrontar o senhor, apenas usei deste momento para trazer mais interação com os meus colegas. Viu como eles ficaram ligados no nosso debate? Talvez nós precisássemos debater mais para que as aulas tenham mais produtividade. Então vamos conhecer a Segunda Guerra Mundial. Vamos voltar ao século vinte, ao ano de 1939.

Luiz Carlos Marques Cardoso – 04 de abril de 2019

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