Adeus a Dona Angélica

mai 04 2013 Published by under Crônica

Em uma tarde de outono, como as folhas que vão ao chão, após as badaladas do sino da santa igreja, o féretro era conduzido por amigos e acompanhado por uma multidão rumo à última morada. A vida que pulsou intensamente por noventa e seis anos, parou perante os desígnios do Senhor. A simplicidade e o sorriso alegre fez crescer seu elo de amizades, seu dom da bênção a fez famosa pelos quatro cantos, a sua residência simples recebia tanto carentes, como ricos; doente, ou sãos; não tinha distinção de cor, nem tão pouco de raça. Enquanto muitos brigam para aparecer, as verdadeiras estrelas brilham ininterruptamente, pois não carecem de força para produzirem luz.

Sempre ouvíamos falar em Dona Angélica. Amigos nos diziam das suas idas a residência dela, do alivio que sentia após sua benção. Pelos relatos, por gostar de conhecer e conversar com o nosso povo, tínhamos a curiosidade de conhecê-la. Nos festejos da Padroeira local em 2013, sem ter programado, no vai e volta dos acontecimentos, de repente estávamos a porta da sua residência. Ela alegremente nos recebeu. Fiquei a observar. A conversa fluía fácil. Ela usando alguns ramos benzia quem se prontificasse. Falou-nos sobre a morte. “As pessoas dizem que após a morte as almas vão para o céu, mas no alto só há a escuridão do espaço. Quando as pessoas morem, vão para o fundo da terra”. Demoramos por cerca de uma hora, na despedida ela nos acompanhou até a porta, ficou a nos observar até sumimos no horizonte. Combinamos que breve retornaríamos para nova conversa. Nem sempre o que achamos de fato é aquilo que a Natureza nos reserva.

O monsenhor Santo, Padre Pedro Olímpio, proferiu uma bonita celebração de Corpo Presente.  Na sua pregação, lembrou-se de uma conversa que teve com ela, na ocasião a pediu que fizesse uma oração, como uma grande conhecedora do assunto a fez de pronto impressionando-o.

Dentro da caixa de madeira o corpo era conduzido à morada dos que partiram. A Filarmônica Lira Nossa Senhora da Graça acompanhava o cortejo tocando as antigas melodias. Naqueles passos lentos em meio a cânticos e orações tudo caminhava ao desiderato final. Como um passarinho que conheceu os atributos da vida por saber voar ela se foi, não como os pássaros, mas como alguém que colaborou como pôde para fazer do mundo algo melhor.

Na simplicidade, sem egoísmo e avareza, sem se preocupar com a obra, pessoas fazem sem se importar com os resultados, fazem como se o que estão fazendo fossem atribuições diárias da vida.

Descanse em paz…

O ato fúnebre foi realizado no final da tarde do dia 30 de abril de 2013 em Canabravinha.

Assista ao Vídeo:

One response so far

  • Alex Correia disse:

    Luiz Carlos sou de paramirim mas moro em São Paulo sou filho de Carlito de seu antoizin da beira da lagoa acompanho o seu trabalho algum tempo, e acho louvável a importância que você dá ao povo e a cultura Paramirinhese, e de pessoas como você que precisamos, que preserve a cultura dando aos mais novos o direito de conhecê-la.