Usando filha bonita para casar as feias

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O matuto do Sertão não é tão matuto assim. Sabe fazer contas, sabe criar casos, sabe escutar bem mais que os cabras da cidade, arquiteta como ninguém, na mente inquieta, maneiras para sobressair frente às peripécias locais. O sertanejo carrega em si o poder avassalador de uma rápida adaptação, é como um camaleão, só que munido de uma aguçada sabedoria. Às vezes, é taxado como doido, é taxado como besta, é taxado como anta; mesmo com o seu jeito despojado, consegue dá nó em vento. O homem do seco é tatu entocado, é suçuarana encurralada, é quem-quem avisado, é aroeira que não quebra tampouco enverga, é chão duro que só produz espinhos… Quando a pessoa chega com o fubá, ele de tempo já comeu o cuscuz. Não se brinca com pessoa possuidoras de tais qualidades, dessa cartola mágica pode sair uma miríade de truques e alternativas.

Aqui nas intermediações, fato que contaremos, ouvimo-lo da boca de gente honesta, há uma família de pessoas simples, modesta nos hábitos, recursos mensais contados. Apanhamos o caso por alto, voando em uma roda de conversa, para darmo-lo vida usaremos a imaginação e comporemos o enredo de uma possível história verídica.

A família de José, muito bem poderia ser a de João, Sebastião, Mário, Pedro, ou até mesmo de outro José qualquer, pois há tantos Josés por este universo que parece que o mundo foi feito deles para eles mesmos. Só não poderia ser a família de Washington, Henrique, Pablo, estes são nomes atuais, de gente de cidade, gente que se coloca acima dos demais, que se gaba do nome que tem. José e Maria, marido e mulher. Casal que nos remete ao passado bíblico, homenagens aos pais do grande mestre Jesus. Também temos muitas pessoas carregando o nome do grande Nazareno por aí, mas nesta família os filhos não puderam ser coroados com o título do Mestre, talvez por terem nascidos dez e no todo nenhum tenha saído varão.

Dez filhos, dez mulheres. José sempre sonhara com um menino, contudo a natureza só lhe entregou flores. Dez flores, flores que deveriam atrair beija-flores, das dez apenas duas eram vermelhas, cheirosas, cheia de néctar nos lábios, as outras oito eram flores que crescem em cacho, iguais, pequenas, esquecidas em meio à multidão que as cercas. As oito padeciam por germinarem em lua cheia. Dizem por aqui que quem nasce em dia de lua cheia tende a parecer com lobisomem; com traços toscos não chegava a tanto, mas espantava a curiosidade e a cobiça dos machos.

As duas flores vermelhas nasceram em lua minguante, longe dos efeitos tenebrosos da lua cheia, duas princesas. Das dez, elas foram as duas últimas a virem ao mundo. Começavam a desabrochar para a vida, estavam em plena adolescência. Maria teve dez filhos, um seguindo o outro, cada ano uma barrigada nova. Paria feito rato, acolhia sob suas asas uma ninhada de dez. As duas princesas atraiam os olhares dos “cabras”, dos matutos rapinas das intermediações e até de outros municípios. Aqueles meigos traços fisgavam os olhos de quem neles repousava por certo instante. As duas jovens adoravam a corte dos insetos que sempre passavam em frente à sua janela, contudo mantinha distância, temia a bravura do pai.

José andava preocupado com as filhas, a mais velha já estava com seus vinte e oito anos, ainda era uma donzela a sonhar com casamento. As outras nove também não tinham desencalhado. A norma das famílias da região sempre foi casar primeiro a mais velhas, sempre a mais velha até chegar à caçula. Com as mais novas, ele não se preocupava tanto, as mais velhas faziam a testa dele latejar. Vendo aquele movimento em sua porta, uma ideia tocou-lhe levemente em seus neurônios. Sorriu feliz. Iria resolver o problema que tanto o incomodava.

- Madalena, tenho uma missão para a senhora.

- Para mim, papai?

- Sim. Eu quero que você chame um desses rapazes que vira e mexe passa frente à porta em namoro.

- Mas eu não quero namorar nenhum deles.

- Você não irá namorar. Quando um deles se interessar por você, apenas converse com o matuto, diga-lhe que seu pai disse que com filha dele não há namoro, sim casamento.

- Eu estou nova para casar, papai.

- Faça o que eu lhe estou mandando, Madalena. Confie em seu pai.

Na mesma noite, um rapaz passou três vezes rente a moça que estava sentada em um banco sobre a calçada. Madalena o observava e sorria, tentava como uma flor atrair o afoito inseto. O matuto cheio de si criou coragem e puxou conversa. Ele sempre sonhara namorar a meiga Madalena.

- Meu pai disse que filha dele não namora, sim casa.

- Como assim? – falou o rapaz todo assustado.

- Se você quer algo comigo, deverá primeiro ir ao altar.

- Mas eu estou novo para casar?

- Sigo a risca as ideias de papai. Eu estou encantada com a sua pessoa, mas só poderemos ser felizes se casarmos primeiro.

- Sempre sonhei com você. Se for para casar, eu caso. Avise ao seu pai. Mande-o marcar a data.

- Para quando será o casamento?

- O mais rápido possível.

- Meu pai ficará feliz em casar a sua primeira filha.

- Mais feliz estarei eu após nosso matrimônio. Posso dar-lhe um beijo?

- Só depois das alianças. Regras de meu papai. Com o velho José não se brinca.

- Mas ele não está vendo.

- Você nunca ouviu falar que parede tem olhos e ouvidos? Só depois do casamento e pronto. Deixa de ser ansioso; um mês a mais, um mês a menos, passa rápido.

Corrido um mês, o rapaz estava no altar a espera da sua princesa. Sorridente, feliz da vida viu o pai da noiva adentrar ao templo guiando a filha. A noiva vinha com um lenço a tapar o rosto. José passou a filha ao noivo e ficou na retaguarda.

- Mas esta não é a Madalena! – protestou o rapaz ao ver os olhos da mulher.

- Esta é a minha primeira filha. Na minha casa, casa-se primeiro a mais velha, depois segue até a mais nova de todas. – O cano de um revolver ia rente à barriga do rapaz. – Ou casa, ou eu lhe matarei aqui mesmo, seu cabra. Será o primeiro homem a morrer em uma igreja vestido de noivo.

- Posso começar? – indagou o vigário.

- Quanto mais rápido melhor, santidade – balbuciou José.

A cerimônia transcorreu dentro da normalidade. A noiva estava radiante, iria se casar.

- Agora o noivo pode beijar a noiva – disse o padre.

- Beija-a agora! – José comprimiu o cano ao estômago do rapaz.

A primeira filha enfim desencalhou, restavam ainda nove. O velho José tinha a solução, a isca voltaria a ser armada; em breve um novo gaiato se perderia no olhar manhoso de sua linda e encantadora Madalena.

A oitava filha na linha hierárquica, diga-se de passagem, a mais feia de todas, foi ao altar graça a beleza da irmã mais nova e da esperteza do pai. O pobre do rapaz chegou a desmaiar no altar ao ver o rosto da noiva. Quis desistir, mas José o ameaçou, sacou a arma dentro da igreja e obrigou o padre a terminar a cerimônia. Após o casamento, o rapaz para enfrentar sua fera embriagava-se constantemente.

- Maria Bethânia, seu marido bebe demais. Você quer que eu faça com que ele entre nos eixos.

- De jeito algum, papai. Dentro de casa só somos felizes quando ele está embriagado.

- Por quê?

- Ele fala que quando está chumbado me ver com outros olhos. Ele disse que quando me viu pela primeira vez pensou está diante a Madalena, como naquela ocasião tinha bebido muito, acredita está na bebida a solução de seu problema. Quando ele está de fogo na bebida, ele coloca fogo no nosso relacionamento. Por isso sempre reservo um litro debaixo da cama. É só beber e o pau quebra. Quando está são fica amuado, triste, nervoso. Como sei a solução, mantenho-me paciente e prevenida.

- Você é quem sabe.

O rapaz sempre avisava nas rodas de boteco que bebia muito até chumbar porque não conseguia olhar para o rosto da esposa em sã consciência, quando ébrio tudo fluía a mil maravilhas.

- Para encarar o diabo só com muita cachaça na mente – afirmava o rapaz.

Das dez filhas, nove estavam casadas, apenas a filha que casou oito das irmãs ainda esperava por um príncipe.

- Madalena, chegou a sua hora de casar-se. Não me venha com homem feio e pobre, pois já tenho oito cabras sugando meu sangue, apenas um levou uma das suas irmãs para longe, justamente a que não precisou da sua ajuda. De dor de cabeça já ando cheio. E de prejuízo também. Deus me deu dez mulheres e nenhum homem.

- Eu só casarei por amor, papai.

- Olhe lá esse seu amor. Não me traga mais um matuto para comer da minha boia. De preferência esse amor tenha recursos, propriedades, posição social.

- Quero alguém com tudo isso e ainda por cima seja bonito. Depois de ter enrolado oito trouxas, conseguir um homem para mim não será muito difícil.

- Esta é a minha filha do coração.

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