Todos nós temos problemas

ago 10 2015 Published by under Contos

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Quem neste mundão de Deus não possui algum tipo de problema? As dificuldades fazem parte da vida diária de qualquer ser vivo; lutar pela vida, buscar o alimento, procriar e cuidar da prole são algumas asperezas do andarilho que segue o curso natural.

Vivemos em um mundo onde muitos tentam encontrar soluções para problemas complicados e difíceis de serem compreendidos. Procurar pelo auxílio de pessoas com dons sobrenaturais é algo corriqueiro na vida de algumas pessoas. Benzer, passar o ramo, fazer um despacho, jogar os búzios, ler as mãos, tirar o baralho…

Certo dia, uma amiga convenceu um amigo a ir à residência de um “benzedor”. De tanto insistir, de tanto implorar, o rapaz enfim fez o gosto da moça. Ao adentrar na moradia humilde, paredes sem reboco, uma mesa, quatro cadeiras, raios de sol a entrar por buracos no telhado, um gato dormindo no canto da sala. Três salvas de palmas, o senhor chegava de vagar apoiado por um pau que lhe servia de bengala.

- Boa tarde – disse o ancião.

- Como vai o senhor? – indaga a moça.

- Vou bem, minha filha, vou bem.

- Estamos aqui para receber a sua bênção – disse a moça.

O rapaz, quieto, estava com o rosto contraído, colocava-se na defensiva.

- O visitante não está muito a vontade. Sente-se. A casa é de pobre, mas de boa gente.

- Estou passando por uns dias pesados, sinto-me carregada – a moca explicou.

- Qual é o problema do rapaz mesmo?

- Não tenho nenhum problema – disse secamente o rapaz.

- Todos nós temos problemas – falou mansamente o idoso.

- Pois eu não tenho – redarguiu o rapaz com rispidez.

- Não ter problema nesta vida já é um problema, problema dos grandes. Seu problema é descobrir qual o seu verdadeiro problema. Seu problema, pelo jeito, é de difícil solução.

- Ele não acredita no seu poder de cura – explicou a moça.

- Eu não curo ninguém, minha filha. Quem tem o poder de realizar é o todo poderoso e bom Deus. Sou apenas um velho que dentro das possibilidades tento ajudar as pessoas que me procuram. O rapaz não precisa ficar de cara amarrada, não pretendo lhe convencer a nada. Acreditar ou não, tanto faz, pois a vida passa, passa rápida demais. O senhor diz não possuir problemas, mas sei que seus problemas a você pertencem. Tenho cá os meus, acredito que maiores que os do senhor. Nem por isso fico emburrado. Sua postura não resolve. Ser velho já é um lascado problema, conviver sempre com o medo da hora da morte é cruel. É natural ter medo do desconhecido. É natural. Vou colher alguns ramos para lhe benzer, minha filha.

O idoso foi ao terreiro ao lado, pegou alguns ramos de são-joão, retornou lentamente. O rapaz sempre o olhava de soslaio. A moça se colocou ereta. O benzedor foi passando o ramo pelo corpo dela, ao mesmo tempo balbuciava algumas rezas.

- Sinto-me aliviada – murmurou a moça. – Parece que tirei uma tonelada dos ombros.

- O rapaz deseja que…

- Não, muito obrigado.

- Sendo assim. Tudo bem.

- Nós temos que ir agora – falou a moça. – Outro dia retornarei.

- Fique mais, vamos conversar. Sei que não tenho estudo para uma conversa a altura, mas por ser velho tenho muita experiência de vida.

- Prometo que voltarei para uma conversa mais demorada.

- Não demore muito, pois sou um velho, e velho sempre tem que está preparado para uma abrupta partida.

- O senhor ainda viverá muitos anos.

- Sou um fruto maduro preste a se soltar do galho.

O rapaz se adiantou, venceu a porta; a moça o seguiu em passos lentos; o benzedor ficou a janela a observar a partida dos dois. Aquele pequeno encontro se desfez, os caminhos cruzados se desfizeram, cada um dos personagens procurou seu rumo.

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