Pirão o Cão

Este é o Cão Pirão de Canabravinha do senhor Joaquim Dias

A sina de alguns seres parecem traçadas de antemão, por mais que corra, por mais que se evitem os aborrecimentos, cedo ou tarde, sob a luz do sol ou, a escuridão da noite, o desiderato se confirma. O destino se assemelha a força da morte, quando bate a porta não adiante se estrebuchar, nem tão pouco chorar, melhor ser racional e aceitar o nefasto dilema.

O cachorro apelidado por Pirão passeava pelas estradas de terras da pequena comunidade, os demais animais o respeitavam, a força do bicho e seu porte de general os intimidavam. Naquele pedaço ele era o rei absoluto. Dos cães era o mais ágil na caça, atalhava veado, encurralava tatus, pastoreava o gado, o xodó da casa, comia do bom e bebia do melhor.

Como no sertão o sol é mais quente do que nas outras regiões, os ponteiros dos relógios corriam loucamente para alcançar o número doze, estava perto; Pirão encontrou uma boa sombra debaixo de um ônibus e ficou a descansar, não se atentou ao perigo, nem se deu conta que o veiculo estava ligado. Após alguns minutos, o motorista entrou rápido e ligeiramente deu partida. O instinto do cão falou mais alto, ele tentou se esquivar, correu, mas não o suficiente, a roda no seu trajeto e com toda a sua força e peso feriu-lhe o membro dianteiro esquerdo. O osso se quebrou, muitos uivos, outros tantos latidos. Pirão nunca mais seria o mesmo, quem, todavia, nasceu rei, rei sempre será.

A agilidade do caçador estava comprometida, continuava a andar, corria, mas não como antes. Na residência de seu Joaquim há uma matilha deles. Pirão com o seu latido forte e groso, com o seu turrado, mesmo debilitado continuava como o mandachuva, todos os outros os repeitavam e os temiam.

Pirão já não mais podia caçar, os frangos no terreiro o deixavam sem fôlego, o membro danificado o impedia das proezas de outrora. O cão então deixou a vida pacata da fazenda e foi para o agito do centro da comunidade. Na praça existem os barzinhos, os botecos, neles vira e mexe os clientes fazem churrasco, nesse ambiente sempre lhe sobravam alguns pedaços. Às vezes, os churrascos aconteciam em dois estabelecimentos distintos e distantes um do outro. Pirão com toda a dificuldade de locomoção montava guarda nos dois, toda vez que outro da sua espécie tentava encostar recebia um latido e um rosnar sempre a mostrar as presas. Quando não havia movimento ele voltava a curtir as sombras das muitas árvores do terreiro da fazenda, contudo está sempre atento, igual a um soldado, basta escutar o estouro de um foguete para em disparada e em minutos ele se postar defronte ao bar ou a residência onde porventura esteja acontecendo um movimento.

O pobre e valente cão superou a deficiência e guia a sua vida de acordo com a nova realidade. Manco de um dos membros ainda assim consegue ser maior do que os demais da sua raça.

Na vida nem sempre quem tem tudo são os que alcançam maiores sucessos.

História baseada em fatos reais.

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