Pagando propina

fev 19 2015 Published by under Contos

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Quem nunca ouviu falar no “Jeitinho Brasileiro”. Um legítimo filho da Nação, obra prima das mentes deste povo criativo. Anda por todos os locais, adora repartição pública, entra nos templos religiosos, dá olé nos gramados, palpita sem ser chamado à questão. O sucesso do indivíduo por aqui depende exclusivamente desse padrinho nacional. É cafetão, é bajulador, é bom de papo, é tudo o que você possa imaginar. Encontrando-se em uma enrascada, grite por ele, com certeza sairá do apuro na hora.

Estava um rapaz a dirigir seu automóvel pelas ruas pacatas da cidade pequena onde residia. Quanto menor o município, maior parece o poder do jeitinho brasileiro. Ao lado encontrava-se seu pai. Do nada ele foi surpreendido. Um guarda o mandava encostar. O que o homem da lei desejava? O coração do motorista batia forte, chegava a ouvir as pancadas no ouvido, suava frio. Algo esse guarda quer. Coisa boa não pode ser.

- Por favor, habilitação e documento do veículo.

Os documentos foram entregues à autoridade. Continuava a tremer.

- Tudo certo.

Que alívio escutar “tudo certo”, pensou o rapaz.

- Mas…

Meu Deus do céu, que diabo de “mas” é esse. O coração queria sair pela boca novamente.

- Por que os dois não estão usando cinto de segurança?

- É mesmo. É fruto do hábito.

- Sou obrigado a lhe multar.

- É seu dever cumprir com a sua obrigação de autoridade.

- Claro. Autoridade deve cumprir com o que manda a lei.

- Seu guarda, o senhor me cobra algo, contudo quem me defenderá das atrocidades do Estado?

- A Justiça.

- O mesmo governo que ora me aplica a multa, que me pune por uma falta, de nada sofre. Adiante, olhe os buracos na via. Quem multará o governo?

- Faz parte do sistema.

- Se eu não usar sinto de segurança, o grande prejudicado será eu mesmo.

- Não. Se você for hospitalizado após um acidente, o Estado gastará no tratamento do acidentado.

- Como? Os hospitais estão à beira da morte. Alguém lá não deveria levar uma multa?

- Não faz parte da minha jurisdição multar hospitais.

- Não tem jeito mesmo?

- Sempre tem um jeitinho.

- Tem?

- A natureza é tão linda. Dois peixes resolverão seu problema.

- Dois peixes? Tenho na carteira um peixe e uma onça.

- Desta vez eu farei um desconto pra você, mas só desta vez.

Os dois colocaram os cintos e seguiram. O jeitinho brasileiro reina soberano. A vida prossegue, a vida continua.

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