Padre foi obrigado a ir a cavalo – História de Sertanejo

dez 16 2016 Published by under Contos

As histórias vão surgindo dos acontecimentos rotineiros dos dias. Um momento pode-se transformar em um conto digno de ser narrado para que todos venham a conhecer. O que é a vida senão um amontoado de passado contado para alegrar e criar o presente. Nessa passada, tenho o prazer de deixar minha modesta contribuição.

- Chofer, quantas pessoas irão no automóvel até a sede? – indaga Mario.

O rapaz precisou ir à comunidade de Tabua para resolver algumas pendengas, tudo pronto, necessita retornar ao conforto da família e do lar.

- Somente eu e o vigário – respondeu o chofer pacientemente.

O motorista era amigo de infância de Mario, eram como dois bons irmãos.

- Se quiser ir conosco, faço questão de levá-lo – disse o chofer.

- Perguntei ao vigário se ele poderia me levar até a sede; ele me disse que não havia vaga, que o carro estava lotado. Agora o senhor me diz o contrário.

Tratava o chofer com muito respeito, por isso usava o tratamento senhor; naqueles tempos pregressos esta profissão imprimia certo glamour.

- Ele disse isso, foi? – indaga o chofer com certo ar na fala. – Pois é ele que não irá de automóvel. O danado terá que ir a cavalo. Deixe comigo. Ele me paga.

Não demorou muito, o vigário apareceu rodeado por várias pessoas da localidade. Despedia-se deles, enquanto adentrava no veículo.

- Dê partida, chofer – manda o vigário impaciente. – Vamos. Para que tanta demora! Preciso chegar cedo em casa. Tenho compromisso.

O chofer bateu a chave, o motor fez barulho, bateu novamente, o mesmo barulho. Saiu, abriu o capô, mexeu, retornou, bateu a chave, o mesmo ruído voltou a aparecer.

- Padre, o carro está com um pequeno probleminha – disse o chofer. – Vou consertá-lo. Mas vai demorar um pouco. Se o senhor tem pressa, melhor pegar um cavalo emprestado com alguém e ir à frente.

- Este carro foi dá problema justamente agora, logo agora que estava com tanta pressa – irritou-se o vigário.

- Máquina é assim mesmo: quando menos esperamos, ela nos deixa na mão.

Um senhor de imediato providenciou um animal para o padre. O chofer ficou encostado no carro, Mario do lado, a observar a partida do vigário. As pessoas acenavam dando um até logo. O dia já corria para o meio-dia, o calor do sol era avassalador. Pobre padre, iria padecer um bocado, sofreria pelo orgulho, pela avareza. Se tivesse ajudado o companheiro que precisava de carona, estaria viajando no conforto do progresso, mas usou do pecado e agora paga um pouco da divida com sofrimento.

- Viu, Mario, como se faz com pessoas ruins – falou o chofer. – Deixe o padre ir longe para descermos à sede.

- E ele não irá achar ruim e se irritar com o senhor, não? – indaga Mario curioso.

- Ele pensa que manda em mim, não sabendo ele que é ele que está sempre em minhas mãos.

O tempo correu rápido. Vinte minutos após, o chofer batia a chave e o automóvel ganhava vida.

- Vamos – falou o chofer. – Quero encontrar o padre ainda na entrada da sede. Quando ele colocar os olhos em você, cairá de costas. Vai ficar uma arara.

E o carro ganhou a estrada na maciez da modernidade. Sem força, no conforto de um banco acolchoado, ia os dois pela estrada de terra. Encontraram o vigário já na entrada da sede, parou o veículo ao lado do vigário montado no animal.

- Deu tudo certo, vigário – disse o chofer feliz. – O carro agora está pronto para viajar.

- Agora – reclamou o vigário. – Queime-me todo neste sol de rachar. Vou descer e ir com vocês.

- Não, vigário, não pode. E o cavalo? Vai deixar o animal do homem pelo meio da estrada. Está perto. Falta pouco mais de um quilômetro. Vou ficar aguardando o senhor na porta da sua residência.

- Eu vou no carro e o carona leva o animal – disse resoluto o vigário.

- Ele está com um furúnculo na coxa, não pode montar em cavalo tampouco andar a pé, ainda mais sob um sol deste. Continue a sua viagem. Está perto, poucos minutos você estará em casa.

Deu partida no carro e arrancou levantando poeira para irritar ainda mais o religioso. O padre nervoso, esquecendo-se do seu santo ofício, xingou Deus e o mundo.

Uma história baseada em fatos reias.

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