Os galos e o brilho da Lua

ago 21 2014 Published by under Contos

A noite escura afoga a luz no espaço sem cores, tira dos objetos seus traços magistrais, retrai os seres a meros vultos, dá mais visibilidade aos sons. A noite escura se eleva a ouro na presença dos raios aureolados da Lua cheia, cresce nas nuances das formas e das sombras, ganha ares de boemia, cheira aromas primaveris.

As estrelas se enfraquecem diante a luz noturna, o Sol é esquecido por um instante, o rei se reina do seu absoluto poder. Um galo desperta dos sonhos de galo, abre os redondos olhos, é pego, amarrado, amordaçado, enforcado, trucidado pelo fascinante brilho. Aquela bola a pegar fogo sobre a testa, hipnose instantânea, olhos se dilatam, agigantam-se, tomam todo o rosto; olhos redondos, olhos de reverência. Em transe ergue o pescoço três vezes e em estado sonambúlico deixa escapar da goela seu grito forte de louvor. Aquele canto de co, de co, co ri co rasga o oxigênio, penetra pelas frestas, adentra as intimidades das copas verdes, corre pelos túneis dos vermes, dispara aos lados, para, não, vara o ouvido de outro galo. Esse recebe o golpe e se contrai, o transe se alonga, o olhar se volta ao alto, olhos arregalados, olhos redondos, olhos de galo, três erguidas de pescoço, um novo canto explode e se deixa fugir na busca desenfreada. A teia se entrelaça nos sons, galos loucamente, música suave da sintonia da noite de um lindo e espetacular luar.

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