O vento que sempre sopra

ago 18 2014 Published by under Contos

A vida nos dá a oportunidade de aprender e de se melhorar. Feliz quem busca a cada dia se tornar mais culto. A existência é um campo fértil onde os seres humanos têm nas mãos tantas ferramentas ao seu dispor de que possam imaginar, para isso basta apenas à força da vontade.

Todas as tardes, sempre que passava por certo local, encontrava um senhor sentado em um banco. Carregava na mão como apoio uma bengala; na cabeça um velho boné, desbotado e pintado com uma propaganda de um comércio local; nos pés um chinelo de correias azuis; calça e camisa. Não me recordo se carregava no braço um relógio, talvez naquela idade as horas já não fossem mais bem vindas. Transparecia ser dotado de felicidade, seus traços era de um idoso alegre.

- Boa tarde – disse-me a ele.

- Boa tarde, meu jovem – respondia seriamente.

Sempre se repetiam os mesmos dizeres. Os meses se arrastaram, dias, e não me lembro de se passara ano, mas deve ter vencido algumas primaveras.

Certa tarde, dia de muito frio, o vento gritava forte, o sol sumia em sua toca noturna, ao passar não o vi sentado no seu habitual banco. Talvez fosse a friagem? indaguei-me. Por sete dias seguidos não o vi mais, já não fazia mais frio. Parei frente à porta de um bar e perguntei ao funcionário sobre o idoso, ele refrescou minha curiosidade:

- Hoje completa sete dias do falecimento dele.

- Como assim falecimento? – assustei-me com a resposta, não havia me passado tal conclusão.

O rapaz me narrou todo o episódio, fatos que não carecem ser explicados, pois são meros acontecimentos triviais dos instantes que antecedem a falência total dos órgãos. Mas contaremos o que envolveu o velório e o sepultamento.

O senhor fora velado na residência de uma irmã, por sinal, a dita somente o suportava em vida pelo simples fato de ter em mãos o benefício da aposentaria dele. Cinco a dez curiosos adentraram no recinto. Como não tinha amigos, alguns chegados da irmã trataram de pegar nas alças do caixão e o conduzir até o cemitério, sequer fora chamado um padre para uma missa, enterrou na terra, sobre o amontoado foi posta uma cruz, não tinha nome, não havia a data de nascimento e tão pouco a de morte. O coveiro ao sentir tanta friagem dos integrantes do cortejo, ergueu a voz e fez um Pai Nosso em homenagem ao defunto.

- Que história triste – refletir. – Ele me parecia ser um homem tão bom, não merecia tanta indiferença.

- Dizem que na juventude roubou os irmãos, levando a família à falência.

Poucos dias e ninguém mais se lembrará dele, será como uma rajada mansa de vento que passou e sequer fora notada. Quantos milhares e milhões na história tiveram a sina de não ter sido registrado sequer em livro, sequer em uma lápide de um cemitério qualquer? O leitor saberia me dizer quem foi João da Silva Santos? Certamente tenha existido tal cidadão, mas quem seria ele? Pouco importa mais, passou, se não deixou pegadas, tanto faz, porque para a odisseia humana somente alguns iluminados nunca perecem, serão por toda eternidade os ventos que jamais deixarão de soprar.

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