O Pássaro e o Peixe

abr 30 2013 Published by under Contos

Os dias passam e a vida parece seguir seu monótono destino, nascer, crescer, reproduzir e enfim, perecer. Em uma manhã linda de verão, pelas bandas da Caatinga, pelas terras do sertão, o viver da fauna e da flora seguia seu ritmo corriqueiro. O sol ainda fresco lançava em milhares de milhões feixes de raios que iluminavam e fertilizavam o ecossistema.  O brilho se expandia das folhas da tabua crescendo em intensidade no limo d’água do grande lago. Pássaros soltavam seus louvores aos quatro pontos, esses se fluíam a longas distâncias, por todas as direções. Um lagarto se banhava ao sol sobre um pequeno rochedo. Enquanto que o cágado erguia devagar a cabeça por sobre a água azul e calma matando assim a sua enorme curiosidade. De antemão vislumbrou-se um casal de sapos na margem do lago, um deles lançou sua enorme língua e capturou uma desatenta libélula, o outro soltou uma coaxada e se saltou em mergulho. O viver simples continuava no seu determinado caminho, assemelhando-se a um paraíso. O bicho caçador de hoje, amanhã a presa a ser degustada, imposição da Grande Força. A Natureza se equilibrando nas carências dos seres. A paz e a tranquilidade se sustentando no labor diário pela sobrevivência. Uma guerra constante para a manutenção do convívio salutar.

Neste mesmo dia, quando o sol ardia ao pino das doze horas, tudo se virou pela cabeça, um curupira endiabrado rodopiou, um imenso redemoinho veio levantando terra pelo vale tostado, folhas secas, ninhos de pássaros lançados aos ares, borboletas perderam o rumo e suas delicadas asas. O certo é que nada condizia com o antes. Castigo dos Céus? Ou mutação programada da vida? Enigmas da Natureza, filosofia sem respostas. Mais um mistério para a já complicada existência.

Quando tudo acontecia, quando fremia em mudanças, uma linda garça branca lançava com rapidez seu enorme bico n’água. De lá trouxe um suculento peixe. Ajeitou-o no bico, quando tudo profanava para o verídico, um estalo.

- Senhora, Garça, não me faça isso! Tenha piedade de mim.

- O quê?! – indaga a ave. Como?!

- Tenho filhos para criar.

O peixe choramingava seu eminente fim. Temia pelos filhos. Uma confusão tremenda apossou-se da fauna. Seres passaram a raciocinar.

- Mas o que está acontecendo comigo? – indaga o pássaro atônito.

- Não me mate, tenha piedade de mim.

A garça lentamente afrouxou-se o bico e o peixe desceu piruetando em cambalhotas até o contato com a água. O pássaro, dotado de enormes pernas, ia de um lado a outro em passos desajeitados sem saber o que fazer. Passado algumas horas o estômago começava a reclamar alimento. Sempre quando levava o bico próximo à lâmina d’água a gritaria do cardume era medonha. Fazer o quê? Ela já não podia mais se alimentar de peixes. Olhou ao redor e viu uma vaca branca pastando as margens do lago. Não teve jeito. Abaixou-se e com muita dificuldade conseguiu arrancar alguns pedaços de folhas da verde e exuberante relva. O gosto não agradava, mas a fome era tamanha que acabou comendo a mais da conta. Deixava uma dieta rica em proteínas para um cardápio anêmico. Após dois dias comendo folhas, a pobre ave já não conseguia mais voar. Estava fraca, debilitada. A evolução de Darwin parecia condenar a garça a extinção, ou quem sabe transformá-la em outro ser.

Dentro do lago tudo cheirava maravilhas. Os peixes felizes brincavam e se reproduziam sem parar. Mas a vida reclama dos seres a falta de trabalho e o não querer raciocinar. Em poucos dias o lago se abarrotou de seres. A comida antes farta não conseguia suprir toda a população. Já não havia espaço sequer para nadar. O oxigênio da água se perdia, o lago azul virou um imenso lamaçal. Os pássaros famintos observavam tudo àquilo sem se importar. Às vezes um na loucura da fome lançava seu bico em direção ao grande cardume e a gritaria era tamanha que o mesmo se via na obrigação de recuar.

O equilíbrio natural da vida se perdeu. Os seres corriam sérios riscos de desaparecerem. Alguma medida deveria ser tomada o mais depressa possível. Mas o quê? A garça elevou-se os olhos a direção do Sol e o indagou:

- Ó grande luz, tu me pareces ser o ser maior, pois tu és o dono do dia e da noite, cria o frio e o calor, por isso te imploro que intercedas por nós. Não sei o porquê desta transformação, mas só nos trouxe desassossego. Faças valer-te a força e traga-nos novamente a tranquilidade e a paz.

Das bandas da Caatinga seca o redemoinho levantou-se, o Curupira, danado ser das matas, voltava com a astúcia de sempre, quebrando tudo e fazendo reboliço. O clima calmo se modificou, os seres em um estalo perderam a consciência e retomaram a normalidade. Os pássaros famintos se lançaram sobre o enorme cardume, enquanto que o redemoinho subia na direção do astro Rei. Em poucos dias o equilíbrio natural voltou a reinar.

A morte para a vida é como o beijo doce do amado para com a amada, que por mais demorado que seja passa e transcorre rápido. Num ambiente pequeno onde tudo se renova a dependência de um para com outro significa a sustentação natural. O pássaro que se alimenta do peixe não o faz por maldade, todavia por precisão. O homem ao se banquetear de carne de gado não fere os princípios da razão. Para haver vida pulsante sempre deverá existir a morte constante. No ciclo crucial das coisas a morte significa a sobrevivência do outro, como em uma roda que gira constantemente do ponto de partida ao da despedida retornando sempre para jamais deixar de girar. Em tudo se deve existir o equilíbrio das suas partes para que o todo não despenque por falta de sustentação.

Falta a nós humanos o comedimento dos nossos atos.

A pobre garça, depois de se fartar, com o transcorrer dos dias, já com o corpo pesado pelo desgaste do tempo, sentiu uma friagem nas costas. O hálito quente a absorveu. A morte com sua afiada força, enfim, cobrava a sua dívida. Um carcará se equilibrava sobre o corpo da ave, segurando-a com força. As unhas penetravam na carne como facas pontiagudas. Soltou um piado forte e grave e lançou seu bico na cabeça da presa. Banqueteou-se devagar e com prazer deixando o restante para a alegria de outros milhares de seres. Numa cena triste e medonha, mas corriqueira e necessária, traduz o que é de fato a vida.

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