O cantar de um passarinho preso

jan 03 2014 Published by under Contos

Carro matou o pássaro

Para muitos aqueles que mostram os dentes, os de gargalhada farta, são os que realmente carregam em si a cobiçada felicidade. Mas entre o achar e a realidade viva navega um imenso rio de águas barrentas e bravas, saber ao certo o que há no seu corpo, observar o agito a ferir as margens em um silêncio revolucionário, só nos compete opinar. Detemo-nos a enxergar uma fortaleza de contentamento nos outros, como não temos o poder de escutar os pensamentos íntimos, nas muitas das vezes nem os nossos próprios, ignoramos a verdade. Os humanos são ótimos atores, conseguem disfarçar facilmente seus medos e suas incertezas. Todavia nem todo cantor que canta bonito carrega no peito o fogo crescente e ardente da felicidade.

Um automóvel rasgava o ar vencendo a estrada, louco e furioso por chegar. O barulho forte assustava os animais. Pela mata um verdadeiro corre-corre. As rodas levantavam poeira, essa caia lentamente por sobre a relva ressecada que ficava pelo retrovisor, os pneus lançavam pedras aos lados. Já era final de tarde, o sol acenava com adeus, o sono cobrava dos seres o repouso habitual, ventava brandamente. Antes de prosseguirmos na carroceria desse nervoso bicho de ferro voltemos às primeiras horas daquele dia.

A manhã havia se iniciado cheia de beleza, tudo era felicidade. Havia cheiro de flores pelo ar, cantos de cigarras e passarinhos davam brilho ao ambiente, o sol mostrava a força. Um singelo bando de pequenos pássaros voava de galho em galho. Atravessara uma estreita estrada de terra, procurava a fartura dos cachos do capim e a abundância da água fresca próximo a um pequeno regato. Ficara a curtir esse paraíso durante o decorrer das horas de luz, às vezes, o patriarca ou a matriarca voava e se posicionava sobre um galho mais alto e transmitia alguma informação, cada comunicado um canto diferente.

O sol já ia se precipitando pelo horizonte. O líder se colocou em um ponto elevado e soltou o alto e estridente canto de retirada. Ele partiu e os demais os seguiram. O voo deles não eram como os dos gaviões, venciam a distância voando de galho em galho, aos poucos aproximavam do pouso seguro, dos ninhos. Em certa parte do trajeto, os pássaros precisavam gastar mais energia, voar um trecho maior e usar bastante força nas asas, as árvores se encontravam longe uma das outros. Dois piados foram o bastante para o bando se arremeter, o chefe sempre à frente a ditar as ordens do seu pequeno exército familiar. De repente, um barulho, um automóvel em alta velocidade cortava o ar como a navalha o fino linho. O carro passou erguendo sujeira, a poeira tomou o céu. Ufa! Os pássaros se safaram.

Continuaram-se a marcha, após certa distância, um dos machos sentiu a falta da querida companheira. O coração bateu acelerado, o corpo tremia todo, mau sinal. Na ânsia por uma resposta cantava sem parar, entrou em desespero. O mundo ficou mudo as suas perguntas, a noite se aproximava e ele sentia o pavor negro da temida imaginação. Sem atinar aos perigos fez o caminho de volta. Não parava de cantar, cantava na esperança de ser ouvido, na vontade de escutar o sinal que lhe roubava a paz. A temida noite já ia absorvendo toda a luz, era perigoso, devia voltar. O coitado não sabia mais o que fazer. Procurar pela amada ou ir repousar no abrigo de sempre? Temeroso resolveu retornar. Seres o observavam com olhos famintos. Talvez ela já estivesse o esperando no habitual aconchego. Com o coração não se brinca, bem no fundo, sabia da realidade desfavorável que lhe aparecia.

Posicionou-se no seu habitual dormitório, a seu lado lhe faltava a outra metade do coração, não tinha a fiel companheira para repousar a cabeça.  Chorou durante toda a noite, não conseguiu pregar-lhe os olhos, o tempo se arrastava, insistia em não passar. Algo de muito grave deveria ter ocorrido, pensava o pobre pássaro. Não suportando a dor, ignorando o bom censo, ainda na penumbra da madrugada, saiu loucamente a procurar. Muitos seres o seguiam na tentativa de dar o bote. O sol voltou a reinar. O pássaro triste e preocupado cantava freneticamente como nunca o fizera antes. A mata se alegrava com o seu melodioso canto, enquanto ele se desfazia em dor.

A pequena ave não sabia o destino que havia tomado a sua ilustre princesa, tinha esperança, no fundo sabia que dificilmente a veria novamente. No momento em que o automóvel passou pela estrada, a pobre fêmea não conseguiu ser rápida o bastante para vencer o espaço, ficou pelo caminho, com a velocidade e o atrito enganchou no para-choque, morreu instantaneamente, não teve tempo de se despedir.

O passarinho solitário passou a cantar cada vez mais, com isso seu canto foi ficando afinado, perfeito. Quem o escutava afirmava que aquela melodia bonita, daquele pequeno pássaro, era um canto de alegria. “Felizes são os pássaros que desconhecem as preocupações do mundo” afirmava certo alguém. O animal não via interesse na vida, estava desprovido da outra metade. A esperança não o tinha abandonado, mas o gosto pela vida, de uma hora para outra, tornara-se de sabor amargo. Cantava na tentativa de ser escutado pela fiel amada. A dor que sentia, para outros seres era como um refrigério a alma.

Um senhor que possuía uma residência próxima e que adorava pássaros, gostava tanto que os aprisionavam apenas para satisfazer o ego, sentenciou:

- Esse danadinho ainda cantará em minhas mãos. O bichinho canta alegre. Você será meu!

Na outra manhã havia uma gaiola contendo um pássaro da mesma espécie, encontrava-se pendurada em uma das árvores. Esse pássaro, do sexo masculino, cantava forte e firme, mostrava seu poder, exibia-se para marcar o território, chamava os demais para duelar. O solitário no topo de um umbuzeiro cantava sem se importar, seus pensamentos eram todos da amada, sequer prestou atenção no infeliz da gaiola. O prisioneiro, tomado pela cólera, exibia-se ainda mais, queria por que queira brigar, porém via-se limitado pelas grades.

O homem de tempo em tempo corria para olhar. O pássaro não se importava em defender a área, nenhuma fêmea o atraia, sequer se importava com a apresentação daquele estranho. O homem pensou, pensou… Não seria esse coitado a se livrar das suas garras, ele era o melhor na arte de capturar aves. No local onde o pássaro gostava de ficar, o velho com muito esforço colocou o visgo.

- Agora esse danado será meu… – afirmava o homem enquanto soltava farto sorriso.

O passarinho arisco, esperto, estranhou e foi cantar em outra galha. O homem então voltou e colocou mais um visgo, o pássaro pousou em outro local. O homem se viu desafiado, já não fazia mais outra coisa, o pássaro teria que ser dele. Sentado em uma pedra, cansado e desanimado, tentava encontrar uma solução. Ele não poderia ser humilhado daquele jeito.  De repente, uma pombinha pousou logo à frente, cantou três vezes, e tão logo a companheira chegou.

- É isso!  Como não tinha pensado nisso antes. Agora sim você não escapa!

No outro dia cedo chegava o homem com uma gaiola na mão e dentro havia um pássaro, de cada lado dela um alçapão. Estava sorridente e confiante. Colocou a gaiola em uma galha e se afastou. O passarinho cantava longe, o da gaiola soltou um piado sem graça.  O outro o escutou, aquilo varou o peito e transpassou o coração. O amor voltou a germinar. O calor ardente da paixão começou a tomar o corpo, a pulsar nas veias. Do nada se sentiu novamente vivo. Da gaiola veio outro piado. Ele cantou forte e se lançou em busca do invisível.

- Agora você será meu – o homem falava sorridente ao ver seu troféu chegar. – Vou tomar meu café e quando eu aqui voltar ele estará em um dos alçapões. A perdição dos seres se encontra no sexo oposto. O coitadinho está caidinho pela dona do pedaço.  Vai catar para mim, seu danadinho.

O velho homem foi fazer seu desjejum.  Comeu arroz com ovos, dois pedaços de mandioca cosida, tomou um copo grande de café. De passos lentos saiu para vistoriar a gaiola. Ao chegar, surpresa, os alçapões estavam do mesmo jeito. Sentou em uma pedra e ficou a vigiar, triste esperava por uma reposta.

O passarinho apaixonado não desgrudava da gaiola. Namorava a fêmea, ignorava a comida dentro das armadilhas. Delirava com a presença da nova amada, para ele tudo naquele exato momento. Quanto tempo havia ficado triste e sem gosto para viver? Agora não mais, o sangue corria rápido pelo corpo, a vida valia muito, o mínimo detalhe o fazia sorri. A alegria dos pássaros se expressa em certo tipo de canto.

- Esse bicho está mangando comigo. Já se passaram três dias que ele não desgruda da gaiola, mas até agora nada. Vou por visgo em um pau e deixar sobre a gaiola. Não, não, colocarei logo uns quatro deles. Bastará que o danado pouse para este meu tormento terminar.

O pobre velho fez aquilo que o pensamento lhe ordenava, o resultado, porém, não foi o esperado. O pássaro, esperto, sempre evitava algo estranho.

- Mas fazer o que agora?  – resmungava o velho ferido no íntimo.

Observou o movimento do animal, viu-o trazer no bico um inseto, uma pequena borboleta.

- Já sei! – gritou o velho enquanto sorria satisfeito. – Peixe morre é pela boca.

Andou em direção à gaiola.  O pássaro voou para uma árvore próxima. Abriu a porta e retirou a vasilha com comida e a colocou no alçapão.  Olhou para o pássaro, apontou o dedo em sua direção e sentenciou:

- Só sairei daqui ao ver você preso na minha armadilha. Seu orgulho será em breve punido.

O pássaro que cantava quando estava triste, agora alegre já não cantava mais, passou a viver em vigília, o amor lhe prendia a sua querida luz. O velho nem tomou conta, estava cego, o único objetivo era capturar seu troféu. Sentou na pedra e esperou. O animalzinho voltou e ficou a namorar. Passado algumas horas o pássaro da gaiola passou a ter fome. Deixou de namorar o da espécie para dá atenção à comida. O pássaro apaixonado enlouqueceu. Ao perceber que a fêmea estava com fome saiu e voltou com uma pequena libélula no bico. A sua perdição só queria o milho. Quanto mais o tempo passava, menos atenção ela dava a ele. Na insanidade da paixão, sem razão, louco pela atenção, louco de amor, entrou na armadilha e sem querer ativou o dispositivo que fez descer a tampa e que o fez prisioneiro. Não imaginava que todos os apaixonados são no fundo reféns. Com o bico pegava a comida e a colocava no bico da nova companheira.

- Peixe morre é pela boa, e pássaro fica preso é pelo bico – delirava o velho em sono profundo.

O estalo da tampa do alçapão o despertou, pulou e saiu a correr, gritava loucamente de alegria.

- É meu, é meu! Não falei, não falei! Nenhum pássaro é pairo para mim.

O velho sorridente conquistara o seu prêmio, a sua vitória pessoal.  Tirou o prisioneiro do alçapão e o colocou em uma gaiola com milho e água, depois a levou ao prego da parede. O pássaro mesmo preso se encontrava feliz, pois estava frente a frente com a fêmea. O velho esperava escutar o canto bonito, mas os dias foram se passando e nada. O passarinho só queria saber de comer, beber e olhar para o seu amor. O velho observava com atenção, resolveu agir.

- Vamos separar os pombinhos. Se não canta na alegria, com certeza na tristeza cantará.

Pegou a gaiola do macho e a levou para o outro lado da casa. O bicho ficou doido, desesperado.  A fêmea soltou um pio, o coração dele voltou a ficar mole. O velho observava tudo. O passarinho então resolveu soltar seu primeiro canto, canto de apaixonado, cantava de tristeza. Queria ver sua amada.

- Como sou experiente – gabava-se o velho. – Agora sim terei com que me alegrar.

Toda pessoa que chegava à residência do velho ficava impressionado com o pássaro.  Muitos queriam compra-lo a alta soma. O dono sempre respondia: “Esse eu não o vendo por nada neste mundo”.

- Mas que pássaro que canta bonito – comentava uma senhora. – Canta de alegria… Queria ser como um pássaro, sempre alegre.  Queria poder voar e cantar sem preocupação.

Nas primeiras horas de uma manhã qualquer, ao acordar, o velho estranhou, o seu passarinho favorito ainda não havia soltado a voz. Sua experiência, seu tino de vida, dizia que algo grave tinha acontecido. Ao chegar próximo à varanda, escancarada estava a porta, alguém havia entrado no local. Ao olhar para a parede, ao procurar à gaiola, dos olhos desceram pingos de lágrimas. Ele já não se encontrava mais. A tristeza e a raiva, duas feras indomadas, tomou o espírito do pobre homem. Percorreu todas as residências, esperava escutar o seu passarinho, mas não conseguiu sequer uma única pista. O velho estava amargurado, o sol já não passava tanta beleza, a noite era de dor e revolta. Diferentemente dos pássaros, os humanos em momento de tristeza não catam, choram.

O passarinho cantador havia desaparecido, desconhecemos o que tenha acontecido com ele. Certo é que a tristeza do pequeno animal era a alegria dos que os rodeavam. Todos acreditavam que ele cantava de felicidade, por ser um canto lindo, sua dor, todavia, ele deixava escapar pelo bico.

Nem sempre o que vemos ou escutamos é de fato o que imaginamos.

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