Não vejo o óbvio

abr 30 2013 Published by under Contos

- Mas que droga de vida! – berrou Joãozinho – Sou pobre, feio e ainda por cima azarado. Tudo que eu faço nunca dá certo, para as outras pessoas tudo tentem a acontecer da melhor forma possível. Parece que eu nasci em uma sexta-feira treze. Já não sei mais o que fazer. Eu odeio minha vida!

- Rapaz, tu choras de barriga cheia – alguém fala ao fundo.

- O quê! – voltou o olhar ao velho homem. – O senhor não imagina como é ser discriminado por todos, como é insuportável ser um relegado, andar sempre pelas periferias. Sinto-me pequeno diante a grandeza dos outros.

- Quero-te propor um desafio.

- O que eu ganharei com isso?

- Feches-te olhos por insignificantes três minutos e eu juro que te darei este lindo brilhante.

A pedra reluzia sobre os belos olhos castanhos a cobiça humana.

- Mas isso é moleza…

- Feches-te os olhos e concentres na escuridão. Não penses em nada. Relaxes.

- Eu farei isso, mas depois você me dará essa linda pedra?

- Com certeza. Não tenhas duvidas.

- Posso começar?

- Tu também, caríssimo leitor, faças o mesmo, concentres-te, se conseguires, dar-te-ei dez pratas.

- Já fechei meus olhos.

- Agora, soltes os teus braços e relaxes. Concentres-te no manto negro. Estás vendo algo?

- Não. Somente vejo o breu, um mundo vazio, o nada.

- O vazio e o breu, sim, mas quanto ao nada, não achas que sejas um equivoco de tua parte?

- Sim, pois ainda assim vislumbro a escuridão.

- Consegues imaginar o Sol bem ao meio da lousa?

- Sim, mas é claro. Como o Sol é bonito.

- Consegues imaginar os pássaros voando abaixo deste sol e acima das águas do mar azul?

- O quadro ficou ainda mais exuberante.

- Pois é meu, amigo, tens tudo, porém não dás o valor devido – o senhor de bengala e óculos escuro explica – Tu pelo menos já viste o Sol, os pássaros, sabes como é a silhueta das montanhas, a dança frenética e caliente das nuvens. Eu que nasci desprovido de visão sequer posso imaginar o que venha a ser um pássaro, nem mesmo a luz sei do que se trata. Minha imaginação fica resumida ao tato, ao cheiro e as diversas melodias.

- De fato o seu mundo é bem pior que o meu.

- Eu só conheço uma das cores, o pigmento que fui lançado à vida, eu sou e vivo na penumbra da escuridão.  Dizem por aí que existem diferenças entre as pessoas, que umas são mais bonitas que as outras. Para mim, em uma multidão todos são iguais. Talvez somente os cegos sejam capazes de enxergar a equidade dos seres.

- O senhor sempre foi cego?

- Eu nem sei direito se cego sou, pois desconheço por completo o outro lado da minha deficiência.

- Ser cego deve ser algo muito ruim…

- Agora eu quero que tu ti levantes e comeces a andar. Mas sem abrires-te os olhos.

O rapaz levantou devagar e calmamente, começou a tatear o ar a procura de um apoio, esbarrava aqui, ali e acolá, quase lançou ao chão o aparelho de TV.

- Tu te queixas da vida, da mesma vida que te deste de tudo. Tens visão, audição, podes caminhar e falar. O que queres mais, pobre infeliz? Cobras da vida um punhado de papeis, papeis estes que dizem possuírem valor. Tu tens todos os atributos necessários para obteres sucessos, mas em vez da luta preferes passar o tempo todo reclamando. Eu daria tudo que tenho somente para ter o prazer em enxergar que fosse por apenas um singelo minuto. Como é grande o meu sonho de um dia ter a oportunidade de ficar frente a frente com o Sol. Só em ouvir as pessoas comentando sobre o que elas veem fico a tentar imaginar que tamanha grandeza se faz o mundo de cores.

- Olhando por esse prisma, o senhor tem todas as razões.

- Diz um velho ditado popular: “Cego não é aquele que não enxerga, mas aquele que faz de tudo para não ver”. Podes abrir teus olhos. Ganhaste este magnífico e valioso brilhante. Para mim, este objeto pouca serventia tem.

- E as dez pratas do leitor?

- Se tu, nobre leitor, conseguiras de fato, sem trapacear, chegares até este ponto do texto é porque não fecharas os teus olhos, desta forma não te presentearei com as dez pratas. Todavia ganhaste de mim uma bela reflexão, esta digerida com sabedoria, não tem preço, como dizem por aí: refrigera a alma e acalenta o coração.

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