Lição para a vida

nov 10 2014 Published by under Contos, Crônica

Quando lhe encontrei, coisa estranha, linhas e mais linhas, letras aos milhares, uma porção de páginas. Quando lhe encontrei, não foi amor à primeira vista, obrigação a mim imposta. Quando lhe encontrei, como quis fazer uso do fogo, ou de um lago profundo. Quando lhe encontrei, uma tempestade, corda para amansar o instinto deste burro bravo.

Comecei a percorrer minha estrada, sem gosto, sem prazer, executava uma obrigação. De início, confesso-lhe que foi complicado, arranhava, pulava, não entendia, voltava, tentava seguir, a cabeça, literalmente, fervia. Como tinha uma tarefa a realizar, como gosto de cumprir com a palavra, prosseguia vacilante com minha pesada cruz incrustada na mente.

Da aspereza dos polos, aos poucos não é que brotou um sentimento nobre, a revolta se converteu em amizade, com o tempo se transformou no mais puro e singelo amor. Amava aquele objeto, queria tê-lo constantemente, apaixonado ia para cama e acordava ao lado dele, união das duas partes em um todo. O costume moldou-se um novo hábito.

Hoje perco tempo contemplando meu sucesso. O que seria de mim na sua falta? Como esse amor me fez mudar, não direi da água ao vinho, mas da lama a chuva. O frescor da água, a limpidez, o cheiro sem cheiro, a cor sem cor, algo inexplicável, algo incomparável. Cresci e agradeço ao meu Professor, vários Professores, cada um à sua maneira, com o seu jeito particular de nos ensinar, de nos propor soluções até então estranhas a nós.

Falo dos milhares de professores mudos que vagam pela Terra, muitos perdidos nas estantes, prateleiras, malas, bolsos, livrarias, bibliotecas… O que dizer do poder impactante do Livro. Que sabedoria. Mudo por natureza, pronto a ensinar quem seus códigos conseguem decodificar. As carreirinhas de palavras a formarem enunciados, a dizer o que não conhecemos e o que já nos foi dito de uma nova maneira.

O gosto pela leitura se inicia quase sempre por imposição ou necessidade, com o tempo o dever passa a familiaridade de um ente querido, com mais idade vira obsessão, um amor eterno.

Amar os Livros, para obter a sabedoria.

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