Jumento Poeta

mai 01 2015 Published by under Contos, Crônica

jumento

Aquele que sabe algo, sabe tudo o que se sabe. O conhecimento abre portas tirando o ser da gaiola da ignorância. Quanto mais se ingere colheradas de aprendizado, maior é a fome. Na infinidade das coisas apenas o saber é capaz de transformar a inquietação do fim em algo plausível.

Certo dia, um Jumento, infeliz com a sua situação de burro, resolveu sair em busca de conhecimento. Algo dentro dele fervia, um calor tomou-lhe o corpo, empolgado correu em disparada atrás do seu novo sonho. Para muito, um objetivo complexo de ser alcançado, ainda mais se falando de um asno.

Passados alguns dias, o Jumento aprendera a vogal “A”. Ele saia pelos campos a soletrar a letra: um “AAAAAAAAAAAAAAA” um “AAAAAAAAA”. Qual foi o tamanho da felicidade que lhe apossava do peito. Os outros o olhavam de soslaio: “Endoidou de vez o pobre”.

Continuou na labuta do aprender, galgava a montanha passo a passo, as bruacas da mente vazias ganhavam suas primeiras sinapses. Um “AAAAAAAAA”, um “EEEEEEEEEEE”, um “IIIIIIIIIII”, um “OOOOOOOOOOOOO”, um “UUUUUUUUUUU”. Sentia-se um verdadeiro poeta, todos os outros jumentos o admiravam pela forma bonita que rinchava. Mesmo assim consideravam-no louco. Aprendera tão logo as consonantes, já sabia formar palavras. O jerico deixava a condição de burro.

De tanto tentar, de tanto buscar, conseguiu juntar os primeiros versos: “Eu fui jumento, não sabia as vogais, apenas rinchava, hoje ainda jumento, sou rico em conhecimento, um AAAAAAAA, um EEEEEEE, um IIIIIIIII, um OOOOOOOO, um UUUUUUUU”. Saiu a pronunciar sua poesia aos quatro cantos. Como pode um jumento se tornar poeta? Os amigos sem entender nada afastaram-se dele. Estava literalmente louco.

O Jumento ao adquirir um pouco de conhecimento viu crescer dentro de si a estrela do orgulho. Achava-se o maioral. Feliz com o que sabia, saiu a gozar de sua nova reputação. Considerava-se um gênio.  Nas suas andanças encontrou um idoso, um ser pálido, quieto, manso. O Jumento cheio de si, na sua petulância, quis zombar do senhor.

- Jumento, achas que sabes muito? Já paraste para observar o mundo? Quantas coisas há. Leias este livro que te empresto. Depois voltes que estarei aqui a te esperar.

O Jumento leu o livro uma vez, leu duas, leu três, demorou para entender o conteúdo. “Quem escreveu algo assim?”. Voltou a procurar o idoso.

- Que livro rico de informação – disse o Jumento.

- Escrevi este livro quando tinha quinze anos.

- Quinze anos?!

- Desejas que te empresto outros?

- Gostaria muito.

O Jumento passou a devorar um livro atrás do outro com farto apetite, quanto mais lia, mais inquieto ficava. Cada linha, cada parágrafo, traziam-lhe novas descobertas. O interesse só aumentava.

Em uma dada tarde, o idoso chamou a atenção do Jumento:

- Precisas deixar os livros por um tempo, precisas ir, sair e conhecer, aprender com as situações da vida. O mundo prático ensina muito. Basta de livros por um período.

O Jumento que escrevia livros, que fazia músicas, que recitava suas próprias poesias, saiu a perambular pelas cidades. Ao deparar com os humanos, na sua grande maioria ignorantes, analfabetos, viu que naquele espaço ele era um verdadeiro sábio. Em pouco tempo, conquistou o poder. Passou a carregar na cabeça uma coroa de alta majestade. Sabia como ninguém formular leis. A sua pátria prosperava, construiu escolas, universidades… A ignorância aos poucos deixava aquela terra. Sem motivação resolveu deixar tudo e ir a procura de novos sonhos. Já com a idade elevada, voltou a procurar o idoso. Ao chegar, apenas encontrou, sobre uma velha mesa de madeira, uma carta, nela uma frase estava escrita:

“Eu conseguir transformar um jumento em um sábio, agora é a sua vez de continuar com esta proposta que vem desde o começo do mundo”.

A carta foi escrita em uma língua antiga, somente seres de alto grau de sabedoria para entender tal frase.

O Jumento apoderou-se da casa, escrevia e estudava o tempo todo, esperava por um novo jumento, a proposta não poderia findar.

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