Fugindo da Realidade

out 28 2013 Published by under Contos

carro-batido

Em um mundo paralelo alguém se encontra entocado nos seus medos, anseio e sonhos.

- Garçom, por favor, mais uma.

Não demorou muito e o rapaz voltou a pedir:

- Garçom, por favor, mais uma.

E assim se repetiu por inúmeras vezes, só que, à medida que falava ao garçom a frase que antes mostrava respeito passou a vir em forma de insultos.

- Garçom, traga mais uma!

- Garçom, traga mais uma. Ligeiro, rapaz!

- Mais você é lerdo! Não ver que estou pagando! Traga mais uma, verme!

Foi servida mais uma dose, mais outra e mais várias outras da mesma bebida.

- O que você está me olhando?

- Meu caro amigo – indaga o garçom –, você não acha que já está na hora de parar? O senhor já bebeu demais por hoje.

- Que intimidade é esta comigo? Dirigi-se a mim como senhor. Você está aqui para servir e não para dar conselhos.

- Não está mais aqui quem falou…

O rapaz tomado pelo efeito do álcool habitava naquele momento um universo paralelo. Tudo aquilo que ele não tinha coragem de realizar em plena consciência, agora, desinibido, não possuía mais. Fantasmas povoavam sua imaginação, demônios os convidavam ao inferno, ele cedendo aos apelos destas entidades ia aos poucos gostando das opiniões. Fatos decorrentes de sua vida que o incomodava vinham lhe atormentar as ideias. Havia dentro do peito um gosto por vingança. Era obsediado, as vozes faziam pensamentos virarem realidades, transformou-se em uma marionete nas mãos dos bichos do além.

- Traga-me a conta, por favor! Não quero mais beber nesta droga de estabelecimento. Vou para outro lugar. Isso aqui paga o que eu bebi? – tira uma nota de cem do bolso.

- Sobra troco.

- Fica para você.

“Isso não vai terminar bem” – pensou o garçom.

Alguém resmunga:

- Não pode dirigir neste estado. Ele vai bater o carro.

- Você não pode dirigir – gritou o garçom.

Antes de abrir á porta do veículo, virou e sacou um trinta e oito.

- Eu quero ver quem é o doido que irá me impedir.

O silêncio abateu-se por todo o estabelecimento, até o vento sequer quis manifestar uma opinião, ninguém ousou qualquer movimento, parecia que o tempo e o espaço haviam parado naquele local, naquele determinado instante.

Embriagado, o homem liga o automóvel e arranca em alta velocidade pela longa e larga avenida.

“Mais fundo, mais fundo!” – vozes escoavam em seus ouvidos. “Não pare de acelerar, não pare”. “A sua mulher é a grande culpada”. “Você foi traído”.

Por um instante sentiu seu pé mais pesado, parecia que tinha mais uns três outros sobre o seu apertando-o contra o acelerador. Tentou puxar, não conseguia. Talvez fosse o efeito da bebida. Algo muito estranho estava acontecendo. O volante foi tomado das suas mãos por uma força gigantesca. Apagou-se, não viu mais nada.

Três dias se passaram até a luz voltar a habitar suas retinas.

- Onde eu estou? – pergunta o enfermo.

Uma moça toda de branco o olha com desprezo.

“Não, eu não posso está no Céu” – pensou ele.

- O que uma traição não faz na vida de uma pessoa – alguém comenta.

Ele não ver o rosto desta mulher, apenas escuta suas palavras e volta ao estado de antes.

Enquanto o automóvel arrancava em alta velocidade, o garçom corria freneticamente ao telefone. Ao discar o primeiro número escuta um estrondo. “Só pode ter sido ele. Tomara que nada de grave tenha acontecido”. No recinto ficou apenas o garçom, não poderia de maneira alguma deixar o estabelecimento a sós sem antes fechá-lo.

Trazido pelo vento chegam choro e lamentações. As portas do bar são fechadas. “O pior aconteceu”, falou o garçom enquanto se dirigia em direção ao ocorrido.

Os olhos do garçom de imediato notaram a chegada de uma ambulância ao local, logo viu um homem e uma moça usando jaleco branco prestando os primeiros socorros a uma senhora já de idade. Sangue, muito sangue pelo passeio. Chegou mais perto, uma multidão rodeava o veículo, com muito esforço e pedidos de licenças conseguiu ver o interior do mesmo.

- Dê licença, dê licença! – chegavam mais homens de roupas brancas.

Alguém da multidão deferiu sagazmente:

- Este daí, já era…

Com muito trabalho conseguiram retirá-lo do meio das ferragens.

Outra pessoa indaga:

- Doutor, ele morreu?

- Não. Mas o estado não é dos melhores. Dê licença, dê licença, precisamos levá-lo ao hospital o mais rápido possível.

Os dois enfermos foram encaminhados ao hospital da cidade. Não tardou e a polícia chegava ao local. Restava ao pessoal apenas comentar o fato ocorrido.

- O que uma bela mulher não faz com um homem – dizia um ancião de uns oitenta anos.

- Ele descobriu que a mulher o traia – afirmava o amigo do velho que possuía quase a mesma idade, alguns anos a menos.

Muitos comentários a respeito do ocorrido, o certo é que tudo aquilo havia virado realidade, acontecimentos que ninguém desejaria presenciar, mas que volta e meia chegam assustando a todos sem aviso ou compromisso.

Passado seis dias, ausente e presente neste mundo, o homem do carro volta à vida com plena consciência de vida.

- Onde estou? O que aconteceu comigo. – Lembra dos vários copos de bebidas, dos insultos ao garçom, da perda da direção. No fundo torce para que tudo aquilo não tenha passado de um sonho, um horrível pesadelo.

- Você foi um irresponsável – explica a enfermeira dando uma pequena pausa. – Atropelou uma senhora, derrubou um muro e acabou com o seu carro.

- Atropelei…? Como assim, atropelei…?

- Atropelou uma senhora. E o pior: ela perdeu uma das pernas. Os médicos tiveram que amputar o membro esquerdo da pobre mulher. Está feliz agora?

- Meu Deus, o que eu fiz? Tudo por causa daquela desgraçada da minha esposa!

- Não coloque culpa em outrem, a culpa foi somente sua. Dirigir alcoolizado e em alta velocidade, crime grave, não acha.

- Tem razão… Fui uma criança. Mas como passa a senhora?

- A sua mãe? Passa bem…

- Minha o quê? – O mundo desabou sobre si em tamanho peso.

- Só que sem a perna esquerda.

Um ato é capaz de mudar o mundo, tanto para o bem quanto para o mal. Pense antes de agir.

Comments are off for this post