Deixei de comer carne

Homens matando boi-2012 - Uillian Novaes

O mundo proporciona aos seus filhos situações diversas, às vezes, até foge a razão. Como pode um gato ser amigo de um pássaro; um coelho, de um cão? Com o advento dos animais domésticos, classes antes antagônicas se viram amigas, tornou-se possível o adestramento e assim a educação dos instintos desses seres. Filhotes de gato mamando em uma cachorra, papagaio brincando com felinos e cães. Se por um lado olhamos aos animais com bons olhos, por outro, ainda possuímos a maldade cruel de um demônio.

São poucos os humanos que abdicam de degustar um bom pedaço de carne. Pode ser ela frita, ou assada, no espeto, grelhada, tanto faz. Muitos só almoçam ou jantam se sobre o amontoado de alimento estiver um pedaço grande e saboroso de carne.

- João, nós já separamos os dois animais que compramos do senhor. Um já está morto, o outro nós iremos dá cabo dele agora.

- Deixe-me ver se vocês pegaram os bois certos.

- Pegamos o amarelo e o preto, os que combinamos.

Os dois andaram em direção ao curral. Ao chegar ao local, João avistou logo um dos bois de pernas para o alto, já sem o couro, três homens com machados e facas sobre a presa.

- Aquele que está morto foi qual? – indagou João.

- O preto.

Um cheiro forte impregnava o ambiente. João viu o estômago embrulhar. Os demais acostumados com as agruras do serviço nada sentiam de estranho, apenas a normalidade do dia a dia.

- Primeira vez que eu vejo um açougueiro matar um boi.

- Verdade? Já matei tantos que sequer posso prever a quantidade, para mais de dez mil. São sessenta anos nesta atividade.

O chão estava cheio de fezes do gado que dormiu no curral na noite que passou. Cachorros rodopiavam a procura de uma sobra qualquer, moscas vagueavam atraídas pelo cheiro forte.

Um dos homens trazia na mão a cabeça do boi preto, jogou sobre a carroceria de uma picape velha, forrava o chão dela ramos de um arbusto chamado na região por Cajazeira. Logo o outro trazia as entranhas, o bofe aqui denominado.

Enquanto dois homens seguravam nas patas do boi morto, outro ficava sobre ele a deferi golpes de machado, abrindo em seguida as bandas. Em poucos minutos repartiram o animal e o fez em quatro partes, quarto no linguajar dos açougueiros. Os homens juntaram e colocaram todo o produto sobre a carroceria do carro.

- José, nós já terminamos com este.

- Traga o outro. Não podemos perder tempo.

Um dos homens soltou o boi amarelo no curral. Outro jogou o laço e o apanhou pelo pescoço. Levou o coitado ao tronco. O boi berrava, o boi tentava em vão se soltar da danada sina.

- Vá lá, Paulão, dê a machadada! – gritou José.

O homem apanhou um machado sujo de sangue e foi na direção do boi. Ergueu-o e levou a testa do bicho. O boi sentindo o golpe tirou um pouco a cabeça para o lado. O machado pegou com toda força no lado do olho direito, sangue jorrava pelo corte que fez no osso. O boi berrava forte, a língua estava para fora, tremia diante a morte eminente.

- Paulão, acabe logo com isso! – gritou José novamente.

O machado voltou a subir e em seguida a descer, desta vez foi certeiro na testa do animal que arriou de imediato. Um dos homens correu e com uma faca fez sangrar o pescoço na parte de cima. A vida se extinguia na fúria humana conhecedora do bem e do mal.

João ainda viu descer do olho direito do animal uma enorme gota de lágrima, o mar de piedade, a dor da humilhação, o sossego do túmulo. Dos olhos do ex-dono também brotou o efeito dos puros sentimentos.

Os homens se lançaram sobre o cadáver do animal a deferir cortes certeiros. Eram os abutres a estraçalhar uma carcaça. Um cheiro forte voltou a impregnar o ambiente. Cachorros andavam de um lado a outro, inquietos. Os bois no pasto estavam com as orelhas em pé, olhos bem aberto em direção ao curral, a natureza chorava aquela carnificina.

- Tenho que ir – falou João.

- Eu tenho interesse nos outros animais, se o senhor quiser o que lhe ofereci, é só falar.

- Depois a gente ver. Bom trabalho para vocês.

João se retirava do local, abalado com tudo que acabara de presenciar. A morte é feia, ainda mais de certas formas, por menor que seja, por mais insignificante que achamos ser uma vida, morrer talvez signifique o fim, desta forma se torna cruel a aceitação de um ser tirar a vida de outro. Com o espírito abalado, o pobre senhor caminhava lentamente em suas reflexões.

- Como podemos criar os bichos e depois darmos a eles tal fim. Como somos maus. Tanta crueldade, tanta loucura, para os açougueiros normalidade da profissão. Que vida louca!

Passado duas semanas, aquele episódio já havia evaporado da mente de João, ele em viagem parou em um restaurante de beira de estrada com alguns amigos para almoçar. Tomavam cerveja enquanto esperavam pela comida. O garçom aproximou com um belo e cheiroso espeto de carne.

- Vai uma picanha mal passada, senhor.

- Por favor – disse João.

O garçom deixou deslizar a lâmina afiada pela carne, um pedaço foi pendendo à medida que a faca descia, o vermelho sangue apareceu, e como num instalo a lembrança da lágrima do boi voltou a bagunçar o seu pensamento.

- Garçom, um momento! Tinha-me esquecido, não posso comer carne vermelha.

- Temos frango. O senhor deseja?

- Sim, por favor.

Deste dia em diante nunca mais conseguiu saborear um bom e suculento churrasco, ou mesmo um pequeno bife. Muitas pessoas são dotadas de sensibilidade, outras ignoram dizendo que tais fatos fazem parte da vida, certo ou não, a verdade é a nossa incerteza perante a vida.

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