Danada Sina

set 03 2012 Published by under Contos

Vagando pelo meu passado me detenho na minha feliz infância. Tempo bom era aquele. Lembro-me bem dos meus primeiros passos. Naqueles dias tinha chovido bastante, o mato se encontrava enverdecido, meus irmãos, gordos e saudáveis, tinham comida e água a vontade, um verdadeiro paraíso. Andava por esses campos na companhia do meu amigo Tom. Às vezes, perdíamos horas correndo atrás de borboletas; quando calor, a brincadeira era junto ao regato. Os dias foram saltando, meu corpo foi ficando bonito, de repente, já estava namorando. Meus parentes e amigos foram sumindo aos poucos, ninguém sabia para onde eles tinham indo. Sentia uma saudade da minha mãe… Meu pai eu não sabia quem era; disse-me que uns brutamontes o laçaram e que ele foi levado a força, isso antes do meu nascimento; ninguém jamais soube de seu paradeiro. Minha mãe me contava que meu pai era forte, bonito, tinha um olhar penetrante, todos os respeitavam.

Ontem vieram três seres estranhos e passaram alguns minutos me observando, eles gesticulavam e falavam palavras desconhecidas por mim, um deles sorria muito.  Fiquei com medo, mas demoraram pouco; ainda bem que se foram. Não sei o porquê, contudo daquele instante passei a ficar inquieto, nunca tinha me sentido assim antes. Durante a noite, não preguei os olhos um segundo. Algo me afligia.

O sol sorrateiramente veio preguiçosamente saindo por sobre a serra. Não sei o que deu em mim, estava em pranto. Não tinha fome e nem tão pouco sede. Alguns pássaros soltavam um melodioso e triste canto. Algo por dentro me dizia que uma tempestade iria se abater sobre mim.

O dia seguia seu curso, comecei a me alimentar um pouquinho. Ao longe vi o momento em que um automóvel parou, três seres desceram e vieram em minha direção. Uma força me mandava fugir, então eu corri, corri, corri… Os seres agora vinham sobre cavalos, tentavam me cercar. Minhas forças estavam se esgotando, não podia mais resistir. Uma corda foi lançada, sentir o aperto, faltava-me ar. Debatia-me na tentativa em vão de me libertar. Eles conversavam e sorriam. Fui arrastado, fui puxado e amarrado em um tronco. Um dos seres foi ao carro e apanhou uma mala, tirou de dentro alguns objetos, pegou uma lâmina brilhosa e começou a manuseá-la.

O homem veio em minha direção, tentei com todas as forças me desvencilhar e fugir. Com um simples golpe, sentir-me por todo o corpo uma friagem, sentia-me fraco, o mundo rodopiava, sangue descia como um riacho pelo meu pescoço. Por que toda aquela brutalidade comigo? O que eu havia feito com eles? Estava morrendo. Do nada passei a entender o que eles diziam.

- O danado é gordo. Darão umas vinte arrobas.

Ainda conseguir soltar um último berro. Vi o céu pela derradeira vez. Os três seres se lançaram sobre mim feitos urubus na carniça. Era o que eu me sentia naquele maldoso momento. Eu sumia deste mundo, todavia o mundo ainda continuava em seu devido curso e lugar. Da mesma forma que sumiu meu pai e a minha mãe, agora acontecia comigo. Essa talvez seja a sina dos bois.

Uns seres buscaram a picanha para um churrasco de domingo sobre a laje. Outro levou as patas para fazer uma iguaria qualquer. As entranhas viraram buchada. O couro um acento de cadeira. Os cifres e os ossos transformaram-se em botões. Do animal só sobrou uma parte da cabeça, essa após ficar apenas nos ossos foi pendurada sobre uma estaca da cerca, rente à estrada de terra, para espantar mal olhado.

O pobre animal após todo esse sofrimento ainda vive sobre a estaca a por medo nas crianças que passam pelo local.

A face cruel da morte impõe aos vivos a dura e certa verdade a que todos querendo ou não se ver coagido e obrigado a passar.

A vida nasceu fadada a morte, mas alguns seres nasceram com a dura sina de serem mortos.

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