Caçador maldito

set 11 2014 Published by under Contos

Como posso confiar no futuro, se ao meu redor apenas há tristeza e destruição? A vida tem suas maldades, seus fins em si mesmo, suas loucuras…

Dois caçadores pararam seu carro rente a um curral, debaixo de uma árvore, desceram e apanharam seu arsenal no porta-malas. De armas nas mãos, dirigiram-se para a tocaia. Sentaram cada um em uma das galhas de um velho umbuzeiro. Com toda paciência do mundo esperavam sem pressa as pombas juritis, eram pescadores de pássaros. Não importava o quanto gastavam para colher seus objetivos; dez contos da munição, dez do combustível, um dia inteiro perdido, outras coisas mais. Não seria melhor comprar um frango no comércio, coisa de dez contos, e fazer o almoço do dia? Mas o gosto pela morte, pelo apertar do gatilho, por ver tombar a presa morta, isso sempre a falar mais alto, faz os olhos faiscarem de contentamento, para eles não têm preço.

Após dez horas de muita espera, um casal de pombas assenta sobre as galhas da mesma árvore, sequer desconfiava dos lobos à espreita, mal sabia que o cheiro de morte impregnava o local, que o fim poderia está bem mais próximo do que a vida supunha lhe oferecer. Um dos caçadores piscou o olho direito para o companheiro, levantou a arma, escolheu a mais gorda, mirou, deferiu-se o tiro. Um pipoco, o projétil viajou rasgando o ar, acertando em cheio a cabeça do pássaro tamanha era a pontaria do atirador. A outra pomba debandou rapidamente sem rumo.

A pomba esburacou já morta no chão duro. O homem desceu da galha, apanhou seu alimento e o colocou na capanga. O habito dos dois caçadores continuou, eles voltaram a esperar outras pombas, o objetivo era um só, matar. Matavam por matar, por diversão, por achar que tudo isso são normalidades triviais da natureza.

A outra pomba voltou ao ninho, era o macho. Esperava impaciente pela chegada da parceira, não conseguia imaginar, pois pombas não são dotadas de tal atributo, que a morte abraçou a companheira. A pomba voava, circulava pelas redondezas, cantava, cantava, retornava ao ninho, repetiu esses movimentos uma poção de vezes.

Três ovos estavam quietos, dentro as sementes tentavam germinar. Cadê o calor? Sem a quentura do corpo da mãe os pobres seres seriam privados da luz ainda no início da vida. O macho não possuía o instinto materno, não era dele essa atribuição. Se soubesse raciocinar, certamente chocaria os ovos, mas vivia apenas sobre os efeitos impostos pela natureza. O destino dos ovos estava traçado assim que o tiro acertou a cabeça da pomba mãe; sem forças para vencer a casca, sem o calor necessário para se fortalecerem, murcharam sem antes cumprir com a trajetória natural.

A pomba solteira aos poucos se afastou do local, precisava-se alimentar, tomar água. Os ovos viraram comidas para outros pássaros. A pomba guiada pela luz da sua alma cumpria com a resolução, vivia e fazia o mundo girar conforme suas obrigações. Não sentia dor, não sentia saudade, não sentia ódio, sequer sabia que existia vida e morte; se não via mais a companheira, apenas um desconforto e uma mudança de hábitos, para o animal o que importava e lhe cumpria realizar era as atribuições perante o cosmo.

As pombas não são como os humanos.

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