A Verdadeira História do Sertão

mai 26 2013 Published by under Contos

A noite no sertão é magnífica, exuberante, encantadora, cheira a contos e fantasias. O céu noturno na sua pura e inibida nudez mostra todos os seus atributos aos que detém o poder espantoso da visão. A vegetação adormecida sonha e espera paciente pelas benditas lágrimas de felicidades da divina Providência. Aqui o calor é forte, descomunal, abrasador, foge a razão dos demais tópicos. Os animais são verdadeiras feras, não em termo de força nos dentes, destreza nos hábitos, mas na sua robustez de adaptação ao clima. Os homens, aqueles que vivem sobre espinhos de xique-xique, em volta a cascavéis, jararacas e jaracuçus, na árdua labuta, sonham diariamente com chuvas, vivem a ver oásis onde só há sequidão, são tidos por cabras da peste. Mas tudo o que se enxerga nos dias de hoje outrora fora totalmente contrário ao presente.

No meio do mato, entre mandacarus, coroas-de-frades, umbuzeiros, juazeiros e caatingas de porcos encontra-se uma singela moradia. Uma porta no centro, duas janelas de cada lado, pelo teto deixa fugir alguns raios da fraca luz do candeeiro, ainda na frente, uma desgastada calçada acompanhada por um terreiro de terra batida. Nessa casa já morou coronel. A morada não era dos que residiam, mas do patrão, moravam de favor, eram trabalhadores da propriedade. O que ganhava com o suor não dava sequer para comprar carne seca, arroz e feijão; a vida dura era de pena, mas a dignidade os fazia prosseguir, a fé em Jesus Cristo tornava-se a existência amena frente às dolorosas setas que não paravam de atormentar.

Um senhor de idade, tinha nas mãos calejadas e nos grandes pés rachados, sofridos pelas intempéries, noventa longos e penosos anos. Sentava-se em um banco, sempre carregava um cajado como assistente, apoiava o queixo nele enquanto não estava a falar. Como gostava de contar histórias, afirmava serem todas verídicas. As crianças disputavam lugares na calçada na ânsia de se empolgarem com os novos contos. Na casa havia três netos, eles adoravam escutar o avô falar, da redondeza vinham outras crianças para viajarem nas encantadas palavras do homem de barba branca e chapéu a tapar a careca dos seus poucos fios de cabelos, o restante ficaram pelas estradas pedregosas e abissais do Sertão.

O Natal se aproximava dia a dia, data em homenagem ao nascimento do Menino Jesus, as crianças já no clima da festa natalina indagavam ao bom velho:

- O senhor acredita em Papai Noel?

- Se eu acredito em Papai Noel? Sim, claro… como não… Papai Noel, o Bom Velhinho… Hou, hou, hou!

- O senhor já viu o Papai Noel, vovô?

- Se eu já vi o Papai Noel? – pensou um pouco – Não. Nunca o vi.

- Como o senhor pode acreditar em algo se nunca o viu antes?

- Crianças, eu vou lhes contar uma história, por sinal uma linda história.

- Quieta, vovô, Papai Noel não existe. Se ele existisse, teria nos presenteados nos Natais passados. Nenhuma criança da nossa região sequer ganhou que seja um único presente, uma única bala doce. Papai Noel nunca existiu. Se ele existiu ou existe, então não gosta da gente.

- Irei contar a vocês a história verdadeira do Papai Noel. Vocês querem que eu a conte?

- Claro! – todos gritaram em uma voz só.

- Existe outra história? – indagou o neto surpreso – Uma nova história do Papai Noel…

- Há muito tempo nossa região era um lugar bonito. Os rios corriam o ano todo, a vegetação estava sempre verde, os animais não passavam privações. Certa época, o orgulho e a avareza dos homens cresceram, foi então que nasceram os coronéis. As propriedades, antes de todos, foram cercadas, os homens, até então livres, se viram forçadas a conviverem sobre o peso das ordens e da chibata. Naqueles longínquos tempos, todas, mas todas as crianças ganhavam do bom velhinho um presente de Natal.

- O povo vivia feliz naquela época… – sonhava o netinho.

- Quanto mais os dias iam passando, maior se tornava a ganância dos homens. Nas feiras livres, as brigas corriam soltas, mulheres se perdiam na prostituição, crianças e idosos eram relegados ao acaso. O homem renunciara o seu maior legado, a decência. As famílias passaram a travar duelos por motivo de posses, nossa região virou um campo de sangue e de ferocidade. Deixamos fluir de dentro de nós a podridão que carregamos no âmago do espírito. Éramos verdadeiros demônios. Não havia mais paz. Obedeciam, os sensatos; imprimia a força, os de poder; os loucos pereciam por não saberem obedecer.

- O povo era ruim assim, vovô?

- Nem todas as pessoas, mas a sua grande maioria sim. Bastaria dá poder a um manso para que ele se tornasse em ruindade aos que já estavam.  Com as lutas muitos morreram. A força começou a se estabelecer entre duas facções, de um dos lados, à família do Coronel Afonso, do outro, a do Coronel Santana. A luta entre os dois grupos eram pela disputa da hegemonia. Não se encontrava por estas paragens mais amor, só se cheirava ódio e raiva. Dificilmente você iria deparar com uma árvore que não fosse assinalada por balas.

O velho parou, tirou do bolso uma palha de milho, do outro, um roliço pedaço de fumo, com o canivete que trazia na cintura trabalhou em sua obra prima; das mãos surgiu um cigarro de palha, para fechá-lo passou-se a língua devagar pela margem da palha e com o dedo fez colar. Levou-se a boca, tirou do bolso uma caixa de fósforos, passou-se o palito, o fogo germinou, levou-se a palma da mão como proteção à chama e lentamente, puxada a puxada deu razão e serventia ao produto. A fumaça foi lançada ao céu umas três vezes. Olhou para uma estrela e disse: “É lá onde mora o Papai Noel”.  As crianças viajaram naquelas palavras: “É lá onde mora o Papai Noel” Repetidas vezes: “Lá, lá, lá onde mora, lá onde mora, o Papai, o Papai Noel”.

- O Coronel Afonso brigava constantemente com o Coronel Santana. Volta e meia um dos seus aparecia morto. A alegria do nosso povo, dos humildes, dos carentes, reservava-se a época de Natal. O Papai Noel iria trazer presentes e alegria. O único tempo que os habitantes deixavam as armas para confraternizarem com a paz. Todos respeitavam o Papai Noel. Mas o coronel Afonso, na sua demoníaca loucura, não queria mais a felicidade de seu povo, resolveu acabar com o pouquinho de alegria que pairava por estas terras. Se ele carregava em si ódio, porque os outros também assim não os teriam de carregar? Mas o motivo era outro, o interesse dele era as mercadorias. “Os presentes do Papai Noel serão todos meus. Este povo fedorento não precisa de nada” – asseverava o Coronel.

O velho deu mais duas puxadas no cigarro, com um peteleco o lançou uns cinco metros. “Pedrinho, vá lá dentro e traga para mim um copo com café”. O menino saiu à disparada, em segundos esticava a mão para o avô e o entregava uma xícara onde em seu topo subia fumaça. “Pedrinho, você é um bom menino. Quando você crescer, será um grande homem. Nossa terra carece muito de homens bons”.

- Vamos retomar a nossa história. O coronel Afonso juntou todos os seus homens, mandou buscar no Pajeú outro tanto e em seguida cercou toda a propriedade. O Coronel na ocasião disse: “De hoje o Papai Noel não passa! Esse Bom Velinho há de ter com os meus pesados punhos”.

Os jagunços se posicionaram feitos gatos a espera do pequeno passarinho. A noite não era tão noite, a luz da lua a fazia parecer a dia. O ponteiro do relógio corria loucamente engolindo os segundos, os minutos e em hora as horas. Faltavam trinta minutos para a meia-noite, no céu um pequeno risco de luz, a jagunçada a observava atentamente. O brilho ia aumentando, aumentando, aumentando… Seria um cometa? Poucos segundos para se confirmar o contrário. Em um voou rasante o trenó puxado pelas renas sobrevoou o céu da propriedade. Assim que o objeto tocou o chão, meio mundo de armas em um estalo se virou ao ilustre visitante.

- Hou, hou, hou! – o Papai Noel tentava acalmar suas renas.

- Papai Noel, que bom lhe vê por aqui – zomba o Coronel. – Estava pensando que o senhor não viria mais. Como foi de viagem? Trouxe muitas mercadorias? Só não lhe convido para a ceia em minha fazenda…

- Sou o Papai Noel, vim trazer os presentes para a criançada.

- Sabemos. Mas neste ano seus presentes não serão distribuídos às crianças como fora feito nos anos anteriores…

- Por que não?

- Estamos aqui para confiscá-los.

- Mas isso é uma afronta a Deus.

- Nas minhas terras mando eu. Toda a sua carga pertence a mim. Não vê que está em terras particulares. Homens, amarrem o Papai Noel e os seus dois ajudantes. Levem o trenó ao barracão e façam o descarrego.

- Vocês serão punidos por toda essa infâmia.

- Nestas terras manda quem tem bala na agulha. É melhor o senhor se comportar, porque se não… Não quero ser o primeiro a matar um Papai Noel.

- O senhor infringe o Código de Ética. Segundo o Artigo Quinze: “Quem tentar furtar ou roubar os presentes do Papai Noel sofrerá dura pena: mil gerações sofrerão pela afronta”.

- Agora de nada vale esse seu Código de Ética, somos donos da situação, você um prisioneiro. Na guerra, não há ética, nem códigos, somente a força do vencedor esmagando o vencido. Deixemos de conversa. Leve-os daqui!

O papai Noel e os seus dois ajudantes foram amordaçados e levados ao cárcere. Postos em uma casa escura e suja. Enquanto o bando comemorava a façanha, regado a muita aguardente, uma voz ressoou em alto grau pelo ambiente.

“Vocês não deram valor. Irão sofrer. Preparem-se, pois dias terríveis não tardarão em chegar”.

- Quem disse isso?- indaga um dos jagunços.

- Vamos ter uma conversinha com o Papai Noel. Essa voz deve ser um dos brinquedinhos dele – afirmou o Coronel.

Um dos capangas abriu a porta e a horda adentrou para uma conversa com o Bom Velinho.

- Papai Noel, conhecemos seus truques e seus brinquedos. Não queira nos fazer sorrir.

- Não sei do que o senhor está falando.

- Prende-os naquele quarto.

- Coronel, o senhor gosta muito de carne de caça. O senhor já experimentou carne de rena?

- Boa ideia! Após descarregamos os brinquedos iremos dá a liberdade a três das seis renas, e logo depois, caça-las.

- Não façam isso com esses pobres animais, eles são sagrados – implora o Papai Noel. – Como retornarei para minha terra?

- Nunca mais retornará a sua terra! Quem mandou se intrometer onde não fora chamado.

- Fui sim chamado. Todas as crianças me pediram presentes. Olhe nas janelas das suas casas e verá um par de meias.

- Tudo mentira! Nossas crianças jamais pediram nada a você. Leve-os, agora!

Os presentes foram descarregados, as renas soltas. O coronel tirou a arma da cintura e a ergueu ao alto, apertou o gatilho, um pipoco, no susto as renas adentraram na mata em plena correria.

- Vamos caçá-las, homens!

A matilha de homens ferozes sumiu na mata. Gritos de jagunços, latidos de cães, o terror tomava o interior do matagal. Não tardou em zunir pelo ar os estampidos dos tiros. Três horas foram suficientes para o abate das três renas.

- Coronel, por que não soltou todas as seis renas?

- As outras três iremos criá-las. Quero ter um rebanho desses bichos para mim.

Os homens trabalhavam a carne, enquanto outros cuidavam da fogueira. O Papai Noel observava tudo pelo vidro da janela, triste, chorava a morte dos amigos.

- Vocês não sabem o que fazem – balbuciou.

Comeram, beberam, dançaram, ali mesmo dormiram. Acordaram com os primeiros raios do sol, alguns pássaros já ensaiavam o canto. Ao abrir os olhos, não encontrou mais as renas e nem tão pouco o trenó. Correram para vistoriar o local onde se encontrava o Papai Noel e seus ajudantes. A porta estava fechada. Um alívio. Ao abri-la, surpresa, não se encontrava ninguém.

- Como eles fugiram daqui? –indaga o coronel furioso.

- Papai Noel é acostumado a entrar e sair pela chaminé. Acho que eles saíram por ali.

- Como fomos ingênuos! Como não pensei nisso antes. Mas ano que vem ele retornará, e aí o pegaremos novamente.

- Coronel, olhe só o que o Papai Noel deixou.

- Um bilhete de Papai Noel. Dei-me isso aí agora.

- O que nele diz?

O bilhete do Papai Noel dizia:

“De hoje em diante vocês sofrerão bastante para darem valor nas criações de Deus. Vocês aprenderão do modo mais difícil a terem bons modos. Da sua geração a mil gerações futuras sofrerão pelo disparate em que os senhores nos colocaram. Todos os finais de ano terão um único presente, o povo clamará por essa dádiva, e quando ela vir, se felicitará e agradecerá por ela. Passarão a me respeitar. Serão apenas dois meses de chuvas, no ano que forem bem comportados poderão ter dois ou até três, mas no ano em que desobedecerem, eu tenho até dó, não haverá sequer um. Tudo dependerá de vocês. Como sei que seus corações são feito à rocha, carregam em si um ódio medonho, não tenho duvidas, haverá muito sofrimento e miséria”.

- O Papai Noel nos amaldiçoou! – grita um dos homens com os olhos esbugalhados, carregado de terror e medo.

- Isso aqui não passa de um monte de baboseira – afirma o Coronel com um sorriso sinistro.

Enquanto andava em direção à montaria, fazia do bilhete um quebra-cabeça.  Sobre o cavalo, aprumaram-se as esporas na barriga do pobre, saiu em disparada, pelo caminho lançava os pedacinhos ao céu.

As nuvens aos poucos foram sumindo da atmosfera, o sol mostrava todo o seu poder. O povo feliz se banhava nos rios e lagos, aproveitava-se o paraíso que se formou.

- Está vendo, homens – disse o Coronel – o Papai Noel estava errado, olhem que paraíso.

Passou-se um dia, dois, uma semana, um mês.  Apenas sol. A vegetação sentia os efeitos, os rios já não corriam como antes. Um clima de pura apreensão pairava pelo ar.

- Coronel, se não chover nos próximos dias, como faremos para plantar?

- Vamos apanhar água nos rios.

- Mas os rios estão secando, logo não haverá mais água.

- É a maldição do Papai Noel! – afirmou o outro jagunço.

A serva escutou pela fresta da porta e tão logo saiu a comentar. De boca a ouvido, de ouvido a boca a notícia corria igual ao vento a contar telhados e os galhos das árvores: “A maldição do Papai Noel”, “A maldição do Papai Noel”, “A maldição do Papai Noel”.

- Maldição do Papai Noel! No Natal passado ele não passou por aqui. O que será que aconteceu? – indaga um comerciante indignado.

Passaram-se dois meses, vários animais iam se definhando, a água que corria em fartura começava a faltar, o temor apoderava-se do local que começava a ser Sertão.  No quarto mês de sol e calor faltava alimento nas mesas dos mais humildes, a fartura sumia com a vegetação.  Os animais que vagavam felizes viraram comida, as grandes árvores pereciam. O terror tomava conta do antigo paraíso.

- É a maldição do Papai Noel! – gritava o pecuarista que perdeu tudo.

- A maldição do Papai Noel! – saiu a gritar uma senhora.

- A culpa é do desgraçado do Coronel Afonso.

A loucura se apoderou do lugar. O povo se aglomerou defronte a residência do citado Coronel. Queria resposta, desejava soluções.

- Queremos saber o que significa essa história de Maldição do Papai Noel – gritava a multidão.

Dentro do recinto o Coronel chamava seus homens e os repassava a seguinte ordem:

- O primeiro que colocar os pés na varanda da minha residência, será o primeiro a cair por chão. Entenderam?!

- Sim, senhor.

- Agora vão. Daqui a pouco eu chegarei lá.

Os carrascos se posicionaram nos pontos específicos, lobos a espreita dos coelhos. Bastaria um simples sinal, um singelo esmagar de graveto, para tudo acontecer. E esse sinal veio, assim que o Coronel pôs os pés na varanda, aquele mais valente, sem intimidação, avançou em direção a ele, quando subia o quinto degrau de dez, recebeu nos peitos uma bala, enquanto sangue voava aos quatro cantos, o corpo se voltava para trás em grande violência, mínimos segundos, espatifou no chão duro de terra. O silêncio de tumba tomou o ambiente, se uma mosca passasse cortando o ar, de certo que todos a ouviria; mas nem as moscas tiveram coragem para tamanho atrevimento.

- Qual será o próximo? – perguntou o Coronel. – A coragem acabou? Já matei vários, para mim, tanto faz mandar para o além outro tanto. Agora, sumam daqui!

O pessoal aos poucos foi desaparecendo no meio da escuridão. Fazer o que em uma situação assim, o estrago estava confirmado. Os dias passavam-se, a situação só ia piorando. O povo acostumado com a abundância se via obrigado a privações, muitos sumiam no mundo em busca de outras terras, pelo caminho milhares perderam-se a vida, outros se suicidaram. A Maldição do Papai Noel se concretizava. A vegetação em algumas décadas mudara de aspecto, nova flora e fauna se levantavam, enquanto outras sumiam.

O tempo foi passando, o Coronel ganhando idade, já não tinha tanta disposição. Na propriedade dele ninguém tinha coragem e vontade de ir, a solidão virou a única companheira do velho homem, até os capangas foram desaparecendo, muitos mortos em brigas de bares. Tinha uma cadeira de balanço na varanda do antigo casarão, toda manhã e início de tarde lá ele se sentava. Sequer um passarinho aparecia para quebrar o silêncio, de vez enquanto um galo de penas negras e de canto feio subia em uma cancela velha e soltava seu lamento. O homem era tão ruim, mas tão ruim, que viu no galo uma afronta a ele após ouvir de seu último capanga a seguinte frase:

- Esse bicho canta feio demais, parece que quer nos agourar.

Aquilo ficou na mente do maldoso velho. “O bicho canta feio demais. Quer nos agourar”. Na manhã seguinte, ao acordar, abriu seu guarda-roupa e apanhou sua preferida arma, um rifle papo amarelo. Sentou-se na sua habitual cadeira e ficou a observar, seus olhos sempre fixos na cancela. O sol já começava a mostrar sua força, não havia uma única nuvem no céu. Não demorou e o galo, como sempre, saiu do meio da relva e foi subir na cancela, mas antes virou para o coronel, ficou a olhar, parado se encontrava o bicho, parado ele ficou. O Coronel elevou-se as sobrancelhas, estranhou. “Por que o galo tinha parado? Isso não era costume dele”. O homem levantou irritado e foi em direção ao animal. Os olhos daquela pobre ave continuavam a lhe encarar querendo devorá-lo.

- Vou lhe matar assim mesmo, seu desgraçado! Nunca mais cantará e nunca mais me olhará com esses feios olhos.

Ergueu a arma, o cano na direção do alvo. O olhar do galo estava fixo. De repente, o animal volta a andar em direção à cancela, o Coronel atônito, para e fica a observar. O galo solta seu primeiro canto e em seguida outro e mais outro. O galo cantara três vezes. O coronel volta a erguer a arma, mira e leva o dedo ao gatilho, aperta. Silêncio no Sertão. O galo com o barulho voou e correu para o mato loucamente. O coronel tombava ao chão, ao lado, um homem fora das suas razões, nunca teve, segurava uma enorme faca ensanguentada, era o líquido vermelho do perverso Coronel. O pobre coitado olhava para o objeto e gritava: “Matei, matei o desgraçado! A maldição agora acabará. Matei, matei o desgraçado”. O coitado passou o restante dos seus dias repetindo o mesmo pronunciado: “Matei, matei o desgraçado! A maldição agora acabará. Matei, matei o desgraçado”.

- Essa é a real história do Papai Noel – retomava o velho a conversa com as crianças. – Por isso quero que você sejam pessoas boas, de caráter.

- Se formos bons, vovô, o Papai Noel voltará para nos trazer presentes?

- Não sei dizer ao certo, mas se nosso povo esquecer o orgulho e a avareza, certamente, nós teremos um mundo melhor.

- Mas nós somos bons.

- Mais ou menos… Ontem mesmo eu vi vocês tirando a vida de um pobre passarinho que tinha acabado de fazer um ninho naquela árvore.

- Foi para comer.

- E os filhinhos dela quem cuidará? Irão morrer por falta de cuidados. Às vezes fazemos coisas que nos parecem normais, todavia são elas afrontas a Mãe Natureza.

- Tinha dois filhinhos. Hoje eu fui olhar e ambos estavam mortos.

- Não voltem a fazer isso novamente, porque Papai Noel está lá no alto a observar tudo. Agora vão, já é hora de dormir. Mas antes não se esqueçam de escovar os dentes e fazer a oração.

A maldição do Papai Noel se concretizou, ela pendura até os dias atuais, basta olhar ao Sertão. Quem sabe em um futuro próximo o povo se eleve e toda essa querela tenha fim. Nossas terras foram marcadas por grandes e dolorosos embates. No tempo presente, a ganância e a corrupção prevalecem. Tudo se acaba sobre o peso das mãos cruéis dos homens. Sejamos bons para que as chuvas sejam fartas e o nosso povo feliz.

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