Archive for the 'Histórias da Nossa Região' category

Histórias das Figuras de Érico Cardoso – Bier 1

As figuras que enfeitam a linda história do município de Água Quente, atualmente Érico Cardoso, são recheadas de nuances que encantam e ao mesmo tempo nos fazem sorrir.

Muitos na nossa região conheceram um tal de Bier, não foi do nosso tempo, mas sempre escutamos algo a seu respeito. Dormário Cardoso nos contou um fato e resolvemos deixá-lo registrado para posteridade.

Naquele tempo em que a política era acirrada e, nas muitas das vezes, violenta no citado município, disputa entre os caciques Érico Cardoso e João Martins, Bier por ser personagem do povo transitava entre ambos os lados com certa facilidade e sem despertar rancor por nenhuma das partes.

Nos meses anteriores a eleição, o movimento e o falatório sobre a mesma aumentava. Bier sempre brincalhão encontrava maneiras de pôr mais lenha na fogueira de labaredas já altas.

Ele chegava à porta da residência de Érico Cardoso, olhos grudados por cerca de dois minutos com os do chefe político, dizia:

- Como disse Joãozinho: “Érico tá bom é de cair no tiro”.

Repetia a frase uma poção de vezes e se dirigia à residência de Joãozinho. Chegando lá, parava à porta, olhava fixamente nos olhos do político e soltava o verbo:

- Como disse Érico Cardoso: “João Martins tá bom é de cair no fuzil”.

Bier foi, é e sempre será uma figura histórica do município de Érico Cardoso.

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Comigo gol só se for de bicicleta

A história do futebol em nossa região é muito rica e, nas muitas das vezes, cômica. Se na região já é desta forma, quanto mais no município da outrora Água Quente? Érico Cardoso é uma terra de um povo criativo, brincalhão, que sabe viver a vida da melhor maneira.

Um centroavante nato de nome Dudu de Basílio, jogava sempre ao lado dos defensores Dormário e Bernardo pela equipe do Juventus da Malhadinha. De tanto praticar o esporte juntos cresceu o entrosamento, cada um sabia de antemão o que o outro iria realizar dentro de campo, desta forma os gols saiam com mais facilidade.

Vamos narrar um lance corriqueiro no decorrer daquelas memoráveis partidas, ao nos contar, os senhores Altamiro e Dormário se desfaziam em risada.

“Dormário desarma o atacante adversário, olha para frente, vê o matador Dudu se deixar ir pela diagonal, lança a bola no seu bicudão clássico. O atacante corre, para a bola, dispara pela linha de fundo, cruza a bola para área, o zagueiro adversário antecipa e coloca pela linha de fundo. Escanteio aponta o Árbitro indicando com a mão direita o tiro de meta. Dormário deixa o sistema defensivo, um meio campo volta para guarnecer a zaga. Dormário ajeita a bola com calma, olha para área e vê Dudu já se posicionado para um lance genial. O atacante Dudu encontra-se agachado esperando a bola para emendar uma linda bicicleta. A bola recebe uma bicuda e viaja, voa sobre os jogadores, encontra a chuteira afiada do atacante matador. De bike Dudu coloca a bola no fundo da rede. Golllll… Faltando somente dois minutos para o final a torcida grita: ‘É campeão! É campeão’. Dudu é o homem da partida, marcou o único gol do jogo, gol do título, gol de matador, uma verdadeira pintura assinada com a marca do craque. Dudu de Basílio, o homem da bicicleta”.

Todas as vezes que tinha um tiro de canto e que Dormário pegava a bola para bater, Dudu logo se posicionava agachado para dá sua famosa bicicleta. A torcida ia ao delírio.

História baseada em fatos reais, contadas a nós pelos senhores Altamiro (Boga) e Dormário.

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Assassinato no Arrozal

A vida na zona rural tem das suas rotinas diárias. Levantar com os galos, arar terra, alimentar o rebanho, regar, tirar leite, colher frutas no pomar, e por aí se segue a eterna labuta, sem férias e tampouco feriado.

Em nossa região, tivemos o arroz como uma das culturas predominante, com o passar do tempo e com as mudanças no clima e no comércio, de tal lavoura só se consegue colher prejuízos e muito suor.

No ano de 1972, na região da então Água Quente, na comunidade de Tabua, um homem do campo de nome Fidelcino labutava com uma pequena roça de arroz. Como o serviço era do nascer do sol ao deitar para o descanso, sobrava um quinhão até para os filhos, pois tinham que passar o dia todo a espantar os pássaros que apareciam para saborear os apetitosos cachos. O filho do dono da propriedade era o guarda da plantação; fazia os espantalhos e os distribuíam pelo arrozal, com um estilingue ficava a atirar pedras de um lado a outro, batia em uma lata, gritava, cantava… Para o jovem aquele serviço se assemelhava a uma prisão, o desejo era sair, passear, namorar…

Durante seis dias da semana, o rapaz fazia o serviço sem muitas queixas, mas na segunda-feira, dia de feira livre na sede, dia de paquerar, dia de se divertir, nessas ocasiões sentia o coração apertar e o sangue ferver por todo o corpo.

Havia duas semanas que o nosso trabalhador conhecera uma jovem, que para ele era a mais bela das princesas, algo vindo do mundo dos sonhos. As coisas iam se ajeitando entre eles, tudo encaminhava para um relacionamento, mas as investidas e os sucessos só aconteciam nos dias de feira livre, momento em que os dois se colocavam no mesmo local, já que moravam distante um do outro.

O jovem tentava descobrir uma maneira de deixar o trabalho e ir ao encontro da futura amada. Mas qual? O que fazer? Pensava, novamente pensava, pensava de novo, nada refrescava a cabeça louca do pobre apaixonado.

Surge diante dele um boi, não um boi qualquer, um animal com um ferimento, uma bicheira, da qual escorria bastante sangue. O bicho incomodado esfregou a parte ensanguentada em um mourão na tentativa de se coçar, além do sangue na madeira, pelo chão ficaram vários pingos também. Uma luz acendeu na mente turbulenta do rapaz. Deixou a roça em correria e foi ter na casa dos pais na comunidade de Ovos.

- Pai, pai! – entra agitado e gritando, suor descia pela face, ofegante avisava ao genitor o que acabara de presenciar. – Pai, eu vi no meio da roça de arroz um homem esfaquear outro!

- Você conheceu os homens? – indaga o pai preocupado. – Isso não é brincadeira sua não? Com morte não se brinca.

- Não, estou falando sério, eu juro. Quando eu vi aquela cena, comecei a correr, tive medo que ele me visse e quisesse me matar também.

- Vamos lá conferir.

- É melhor chamar a polícia.

- A polícia?

- Se o matador ainda estiver lá? Quem sabe ele não mate nós também?

- Tem razão. A polícia sabe lidar melhor que nós dois juntos. Vamos à feira informar ao delegado.

A metade do plano do rapaz havia obtido sucesso. Ao chegar à sede, o rapaz deixou-se sumir no meio da multidão, enquanto o pai se dirigia até a delegacia. O senhor partiu da feira livre na companhia de dois policiais; como o rapaz não chegava, foram eles somente.

Não sabemos se o rapaz tivera sucesso com o seu romance. Já na roça, eles encontraram o sangue no mourão e no chão, em outro local havia no meio do capim também. O rapaz havia falado a verdade. Mas por onde andava o corpo do defunto? Eles procuraram por todos os locais próximos e não o encontrou. Um mistério. Quem seriam eles: o morto e o matador? Ninguém ao certo sabia. Gente da comunidade não era, pois todos se encontravam em suas residências.

A notícia do tal matador perambulou pelas localidades igual pólvora pegando fogo. O temor tomou conta daquela gente, ninguém mais queria por os pés fora de casa, o medo e o pânico os dominaram.

Logo começaram a surgir boatos de todas as ordens. Uns afirmavam que havia visto um homem armado deixando a roça, outro dizia que conversara com um indivíduo armado em um boteco, outros mais distantes disseram que havia dado comida a um estranho. As histórias foram moldando novos contextos ao caso. O clima de medo e de apreensão era imenso. Os policiais faziam ronda na tentativa de descobrir a figura do matador, ou encontrar o corpo da vítima. Todos desejavam saber alguma coisa sobre o assassino e o defunto. Suposições eram levantadas: o homem enterrara o corpo em algum local, jogara em uma caverna, e por aí seguia os falatórios.

O medo crescia com as horas, de tempo em tempo, algo novo era especulado.

- Encontrei um homem estranho subindo a serra em determinado local – afirmava um senhor.

A polícia se dirigia ao lugar, alarme falso. Várias foram às notícias desencontradas. A população medrosa se recolhia em casa, todos tinham medo de encontrar com tal o matador. Os policiais perderam a esperança diante à tantos alarmes falsos. A vida no lugarejo seguia tensa, arisca.

Havia passado sete dias do episódio, quando o senhor foi obrigado a ir a roça colher o arroz que corria sérios riscos de se perder no campo. Poupou o filho do serviço, temeroso de algo ruim vir a acontecer com a prole. Chegou e presenciou a passarada a devorar seu trabalho, olhou para o lado onde o homem tinha sido assassinado, lá viu um boi preto, o mesmo animal, a esfregar o dorso no mesmo mourão, foi até lá conferir. A bicheira estava feia, precisava de cuidados. De imediato, no homem o sangue começou a ferver, rodopiava pelo corpo em alta velocidade. Montou em seu cavalo castanho e saiu em disparada a chicoteá-lo.

- Mulher, onde está o rapaz? – descia do cavalo e entrava loucamente sala adentro.

- Disse que ia à feira.

- Ele disse que ia à feira foi? Pois é lá que a lição será dada. Mais nunca aquele infeliz mentirá para mim. Hoje ele me pagará caro.

Montou novamente no animal e sumiu na estrada de terra adentro. O cavalo só perdeu a velocidade já na feira, cansado e melado de suor. O homem pulou antes mesmo que o animal parasse. Entrou entre o povão a procura da caça. Encontrou o rapaz abraçado com a namoradinha a conversar sentados ao redor de uma mesa de um dos bares da praça. O filho não teve tempo de se esquivar, foi agarrado pelo braço esquerdo, levantado e chicoteado com uma bainha de facão na frente da namorada e de todos. O povão cercou o bar, ninguém conseguia sair, nem entrar, todos desejavam saber qual o motivo da surra. O rapaz levou mais de cinquenta chibatadas, distribuídas no lombo, nas pernas, nos braços. Gritava de dor e chorava. Pedidos para parar de bater eram ouvidos. Em dado momento, dois policiais adentraram, de imediato agarrou o homem que estava em estado furioso, fora de si, e o fez cessar. O senhor foi encaminhado à delegacia e lá esclareceu o ocorrido ao delegado. Já calmo, retornaram para casa, ele montado em seu cavalo, tendo o rapaz à frente e a andar.

O arrozal havia sido comprometido, os pássaros levaram no bico mais da metade da produção, não houve assassinato, pura travessura do adolescente. Entre perdas e ganhos, o rapaz ganhou alguns beijos e sofreu uma baita de uma sorva; o agricultor perdeu metade do arroz e a calma, a esposa perdeu horas a cuidar do filho, o mundo sempre termina no lucro, alimentou seus passarinhos, deu assunto às línguas, ganhou uma história.

A vida no povoado voltou a sua normalidade.

História baseada em fatos reais, contada a nós pelo senhor Antônio de Nondas.

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Romaria a Bom Jesus da Lapa

A Romaria à cidade de Bom Jesus Lapa é antiga, arrasta-se por vários anos. Com o passar dos tempos, ela foi se modificando, fruto da evolução tecnológica. Nos primórdios, os devotos para lá se dirigiam a pé ou levados pela força de alguma montaria. A fé daquele povo parece maior que a da população atual, as penitências por eles realizadas pagaria qualquer pecado. Ir à festa do Bom Jesus era obrigação de todos os fieis, a Meca do Sertão.

Conta-se que em certa época levavam-se dois dias a viagem de caminhão que doravante denominavam por “Pau-de-Arara”. Saia de Água Quente na parte da manhã, passava por Paramirim, Livramento, São Timóteo, Lagoa Real, parando para dormir em Caetité. No outro dia ainda na penumbra da noite, o caminhão seguia destino, levando na sua carroceria pessoas felizes e a cantar. Cantavam-se as músicas referentes à romaria a viagem toda.

Antes da cidade de Riacho de Santana, havia um bar de nome “O Quinca”, os veículos estacionavam, as pessoas faziam suas refeições, esperavam o motor do pau de arara esfriar. Ao partir se preparavam para o famoso “Areão da Lapa”, temido por muitos, era tanta areia que caminhões atolavam no seco, quando o fato acontecia, os demais carros que vinham logo atrás eram obrigados a parar, a estrada era estreita. Em uma dessas paradas, a vontade de seguir era tamanha que o povão juntou em um caminhão e no braço o tirou da areia, permitindo o fluxo do pequeno congestionamento.

Ao se aproximar da cidade de Bom Jesus da Lapa, os carros paravam, os homens desciam e caiam no mato. Em pouco tempo os feches de lenha eram acomodados sobre a carroceria, em seguida, a viagem continuava. A lenha seria usada para acender o fogo do fogão, dele sairia a comida para alimentar toda aquela gente.

Por vários anos o senhor Ademário Cardoso alugou uma das residências do senhor Chico Preto, casa grande, de muitos quartos e sala enorme. As pessoas se acomodavam por todos os lugares, era um movimento intenso de entra e sai durante todo o dia. Os que não tinham um abrigo para dormir, armavam-se redes nos caminhões.

A festa se resumia ao sobe e desce pelas ruas, as Missas, a Procissão, aos banhos no Rio São Francisco, aos goles nos botecos. Naquele tempo estava na moda sobrevoar a cidade de avião, pagava-se o ingresso e o indivíduo tinha o prazer de ver do alto o Santuário de Bom Jesus. Alguns dos vapores realizavam festas regidas por orquestra, o barco descia o Velho Chico levando o grupo em pleno divertimento. No meio do Rio existiam algumas ilhas, nessas muitos passavam o dia jogando bola e tomando banho. Na cidade havia a boate “Tudo Azul”, nela aconteciam às festas durante as noites, as orquestras faziam a alegria dos foliões.

Naquele tempo muitos se perdiam em meio à multidão, volta e meia o alto-falante bradava: “Atenção, o senhor José da Luz encontra-se perdido, por favor, algum parente ou amigo venha até a entrada do Santuário. O homem espera aflito”.

Certo ano, ao deixar a cidade, todos traziam presentes, o finado Basílio comprou um cari gigante (peixe), amarrou o animal no fundo do caminhão, ao chegar a Água Quente o peixe era só terra, estava temperado pela poeira e frito por receber tanto sol no lombo.

Assim que o pau-de-arara parava defronte a residência de Ademário, as pessoas já marcavam compromisso para o ano seguinte.

A Romaria ao Bom Jesus da Lapa era bem mais que uma singular manifestação religiosa, era festa, era lazer, era viagem, era aventura, era sair da rotina para alguns dias de sonho em uma terra distante.

Fatos contados a nós pelo senhor Dormário Viana Cardoso.

Foto: Ilustrativa, fonte internet.

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Vendedor de frutas

Todo bom comerciante é um artista nato que ganhou no dia a dia a sua experiência de negociar. Um produto que na mão da maioria vale um preço, na dele sobe vinte a trinta por cento, e consegue a venda mais rápido do que aquele que não vive de tal atividade.

- Senhor, quer comprar laranjas? Só frutas de primeira qualidade.

- E aí, como são essas laranjas?

- São doces feito mel.

- Que pena, amigo, eu queria umas laranjas azedas para fazer suco.

- No meio tem umas azedinhas.

- Veja como descobrimos a qualidade da mercadoria. Pela cara dessas laranjas, as mesmas são azedas iguais a limão.

- O senhor está enganado. Compre-me pelo menos uma dúzia, preciso do dinheiro para comprar o arroz, tenho dois filhos para alimentar, o comércio está fraco.

- Como sei que não me dará sossego enquanto não me vender as tais laranjas, vou comprá-las em sua mão.

- Se não for doce, o senhor poderá me devolver na próxima semana.

- Mas o amigo não estava a me vender laranjas? Agora vem com essa de doce. O amigo vende laranjas, ou doce? É brincadeira… Deixe uma dúzia desses limões aí sobre a mesa.

- São laranjas.

- Engana que eu gosto. Nessa escola que o amigo recebeu o diploma, eu fui professor.

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Furtando cocos

coqueiro

As histórias de um povo é o reflexo do caminhar de um determinado local. Por essa estrada sempre há aqueles que se destacam mais, que imprimem suas marcas, que, literalmente, pega no lápis e escreve várias páginas do tempo.

Água Quente teve um passado muito rico. Quantas figuras não habitam o imaginário local hoje frutos dos homens daquele tempo? Casos e histórias são contados nos bares, nos bancos, nas praças, por todos os ambientes.

Uma pessoa influente na cidade, certa vez, viu a sua pequena produção de cocos desaparecer. A singela chácara tão bem cuidada, gastos somas importantes, e do nada vem um gaiato qualquer e faz do suor dos outros sua merenda. Dia após dias os furtos continuavam, a notícia correu as ruas, o homem queria por que queria saber quem andava lhe surrupiando. De tanto buscar, de tanto procurar, encontrou ele o indivíduo da façanha.

- Então foi aquele safado! E todos pensando que o danado era doido. Doido por bem dele! Vou atrás daquele desgraçado agora. Ele me paga!

O homem entrou em seu automóvel e se colocou a procura do infrator. Se já tinha perdido os cocos, perdia também combustível. Demorou um pouco para ter o rapaz nas mãos, o mesmo era rápido nas pernas, não parava em lugar algum, quando se pensava que ele estava aqui, já tinha andado, ou corrido mais uns dois a três quilômetros.

- Então foi você que estava furtando minha chácara, seu pilantra?

- Tinha tantos cocos, um a mais e um a menos, não faz diferença. O senhor é rico.

- Ainda por cima é atrevido.

- Não se preocupe não. Não voltarei a pegar mais coco no seu terreno.

- Pensou que voltaria?

- Não vou pegar mais, simplesmente, porque em Paramirim coco caiu o preço, não compensa. É muito longe para levar um saco nas costas e receber tão pouco. Fique tranquilo, desse padecimento o senhor não morrerá mais não.

O dono da chácara furioso disse um monte de impropérios que não carece ser mencionados. O outro, meio aéreo ao mundo dos vivos, apenas sorriu longamente. O dono mais furioso se encontrava, quase sofreu um infarto, quase voou na goela do infeliz.

Final da história: se os coqueiros são bons, vão produzir mais cocos, porque os arrancados já não voltam mais.

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Histórias de Augusto

augusto

Água Quente é terra de histórias diversas, em seu solo viveu e vive um povo criativo e brincalhão. Algumas décadas passadas, certo homem andou por estas bandas, no meio da população local, ele carregava o seguinte nome: “Augusto de Samariquinha”. Morava no sobrado onde hoje reside a família de Paulo Alberto, na Praça São João. Augusto gostava de tomar umas “pinguinhas” a mais. Em certa noite, a mãe dele enferma o tendo ao lado do leito murmurou:

- Meu filho, acho que está chegando minha hora. Eu vou morrer.

- Minha mãe, quem arriou seus cavalos que vá seguindo!

Revoltado com a terra onde morava, resolveu ir buscar novas oportunidades no Estado de São Paulo. Ao deixar o município, ele resmungou ao chofer: “Vou embora deste maldito lugar. Nunca mais retornarei. E se minha alma tiver vergonha na cara nunca passará por aqui quando eu morrer!”.

Augusto bebia em demasia, no dia em que ele resolveu parar, e parou para nunca mais triscar um gole na goela, o irmão Zé Marin começou na dita arte e nunca mais parou.

Fatos relatados a nós pelo senhor Dormário Viana Cardoso.

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Cadê o meu relógio?

Certo profissional da construção civil estava trabalhando na edificação de um prédio. A obra subia rapidamente. Homens carregando baldes de massa, outros levando tijolos, alguns na colher erguendo as paredes. Um dos pedreiros estava usando um sistema arcaico de andaime, alguns paus segurando algumas tábuas, uma loucura só. A arapuca foi tão mal feita que, num dado momento, não suportou o peso e quebrou-se, o pobre do profissional se esborrachara no chão. Os amigos correram de imediato para socorrê-lo.

- Machucou, Pedrão? – indaga um dos homens aflito.

- Meu relógio, meu relógio! Onde está meu relógio?

- Que diabo de relógio? Você não se machucou não?

- Meu relógio! Onde está meu relógio?

- Olhe o relógio dele ali – aponta com o dedo outro ajudante.

- Acharam o meu relógio.

- Você está sentindo dor?

- Ai, ai, ai! Eu acho que quebrei uma costela. Meu corpo dói todo.

- Vou chamar alguém com um carro para lhe levar ao hospital – o homem com o relógio na mão disse e virou-se.

- Meu relógio! Traga meu relógio. Não leve meu relógio

- Você não está sentindo dor coisa alguma. Dá mais valor ao relógio do que a própria saúde.

- Meu relógio, só quero meu relógio.

- Toma este seu relógio.

- Como ele é lindo…

- E a dor?

- É mesmo, tinha me esquecido. Ai, ai, ai! Chame um carro urgente. Eu acho que vou morrer.

- Você é um descarado isso sim.

- Que relógio lindo… Ai, ai, ai! Chame um carro logo! Estou sentindo muitas dores nas costas. Se demorar muito, eu vou morrer.

- Tomara que você precise vender esse seu relógio para pagar a conta do hospital.

- Meu relógio? Nunca. O que houve aqui foi um acidente de trabalho. O patrão terá que arcar com o meu tratamento e ainda por cima pagar o concerto do meu relógio.

- Por que o concerto do seu relógio?

- Por que o relógio não está mais funcionando. Meu relógio querido, o que você tem?

- Quer dizer que você já não sente mais dor?

- Tinha me esquecido dela. Ai, ai, ai! Chame um carro, minhas costas doem demais. Eu acho que vou morrer.

- E o relógio?

- O relógio está igual a mim, quebrado. Ai, ai, ai! Chame logo um carro.

- Vamos precisar também de um relojoeiro.

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Qual o valor de um presente?

O reconhecimento e a lembrança em momentos oportunos se fazem como remédio para as almas afetuosas e carentes. Uma mãe se alegra com o abraço do amado filho, o namorado com um beijo demorado esquece as dores do mundo. O ressentimento de não ser lembrado dilacera o coração e faz escorrer lágrimas pelo rosto.

Hoje é o segundo domingo de maio, dia em que se homenageiam as mães. Nesta data os filhos presenteiam suas genitoras, dão abraços, beijam-na no rosto. Momento de um farto almoço, conversas ao léu.

- Paula, recebi de meu filho hoje um perfume de que gosto demais, dois ingressos para o cinema e muitos beijos e abraços.

- O meu até agora nem sinal de vida deu.

- Ainda tem o dia todo.

- Aposto que ele se esquecerá de mim.

- Ele é um jovem de luz, de bom caráter, isso tudo já basta para a felicidade da mãe.

- Faço tudo por meu filho. Morro de tanto trabalhar para dá condição aos estudos dele.

- Não se preocupe não, ele irá ligar, ou quem sabe lhe fazer uma surpresa lhe mandando um presente.

- Sei não. Se fosse para a namorada, com toda certeza ele ligaria assim que acordasse.

O dia foi passando, minuto a minuto, hora a hora. Nesse percurso o sofrimento da pobre mãe só aumentava. Um telefonema, a coitada corria ao telefone pensando ser uma ligação dele, mas ao escutar alô, ela já perdia a esperança e se entristecia.

Já na outra manhã, a mãe triste e cabisbaixa, conversava com uma amiga.

- Margarete, tenho um filho ingrato.

- Por que, Paula?

- Ontem foi o dia das mães e o infeliz sequer ligou para mim.

- Ele deve ter se esquecido. Deve está estudando muito.

- Eu me matando de tanto trabalhar em prol dele, e o que recebo em troca, ingratidão.

- Como desejaria que o meu filho fosse igual ao seu. Ao contrário do seu, o meu me presenteou com perfumes, presentes e flores.

- Então, qual é a sua queixa?

- Meu filho é dependente químico, já faz dois anos que não vai à escola. Quantas noites passo às claras preocupada com ele. Já fui à delegacia várias vezes. Recebi muitos presentes, abraços, beijos no rosto, mas tudo isso não foram suficientes para acalmar meu turbulento coração. Agradeça a Deus pelo filho que tem. Peça a Ele para que mantenha seu filho longe destas pragas que são as drogas.

- Você tem razão.

- Pegue o telefone e ligue para ele.

- Vou fazer isso assim que eu estiver em casa. Neste momento ele deve está na faculdade.

Ao retornar para casa, Paula foi informada pela empregada que o filho havia ligado. Enquanto elas conversavam, o telefone tocou.

- Alô.

- Mãe?

- Filho.

- Desculpe-me por não lhe ter ligado ontem. Nos últimos dias foram de muito estudo e provas. Estava tão compenetrado com os estudos que me desliguei do mundo. Mas o bom é que conseguir passar em todas as matérias. Como eu queria está aí agora para lhe dá um gostoso abraço. Daqui a três dias estarei chegando. Levarei alguns presentes.

- Você não sabe como estou feliz, meu filho – fala a mãe em lágrimas.

- Obrigado pela senhora existir, minha mãe, minha querida mãe.

- Eu lhe amo, meu filho.

- Eu também lhe amo, minha mãe.

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Ou faz o gol, ou leva cartão vermelho

No ano de 1964, no Campeonato Municipal de Água Quente, no clássico da competição entre as equipes do Bangu e a do Vila Nova, um fato inusitado aconteceu. Essa partida era válida pela fase classificatória, um jogo repleto de rivalidade, campo lotado, torcidas eufóricas, foguetes, banda de música, batuque…

O duelo seguia truncado, duro, difícil para os atacantes. O jogo já passava dos trinta do segundo tempo, tudo indicava que seria um amargo zero a zero. O zagueiro do Vila Nova caminha lentamente com a bola dentro da área, o Arbitro apita, o silêncio toma conta do estádio. “O que ele teria marcado?” – pergunta que voava pelas mentes dos que participavam do evento. O dedo apontado para a marca do pênalti fez a torcida levantar em berros, uns alegres, outros revoltados. O tumulto dentro de campo iniciou-se. Foi, não foi, foi. A equipe do Vila Nova decide retirar o time de campo. Bate a penalidade, não bate, bate. O zagueiro e capitão do Bangu Dormário Cardoso pega a bola, mas antes tinha avisado aos jogadores da equipe adversária que iria chutar a mesma para fora, pois sabia que não havia sido pênalti. O silêncio voltou a tomar o estádio. O arbitro apitou, o zagueiro correu e com muita categoria isolou a bola. A torcida foi ao delírio. O arbitro insatisfeito se dirigiu até o zagueiro e firme ergueu o cartão vermelho expulsando o desobediente jogador.

A equipe do Bangu, mesmo jogando com um a menos, conseguiu vencer pelo placar de um a zero.

O Arbitro era Seu Juquinha, um fanático torcedor do Bangu.

História baseada em fatos reais.

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