Archive for the 'Histórias da Nossa Região' category

Garapa

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Certo tempo, lá pelas bandas da capital Salvador, existiu um rapaz, um louco nos moldes da sociedade de então, que não batia muito bem da cabeça. Pelas vindas e idas do caminho, recebeu dos mais chegados um sugestivo apelido. Surgiu do nada, de uma hora para outra, não sabemos dizer quem foi o precursor, o correto é que nasceu a denominação como uma nuvem de repente se forma no céu. Bastava alguém gritar: “Garapa!”, que ele apanhava uma pedra, ou algo qualquer e avançava em revide contra o oponente. É sabido que moleque sempre gosta de criar, possui tempo para escolher as melhores maneiras de fazer mais algazarra com aquele que sofre de raiva por um pretexto qualquer; um grupo deles resolveu diluir a garapa, torná-la em partes.

- Açúcar! – gritava um rapaz.

- Água! – gritava outro sorridente.

- Limão! – Acrescentava um terceiro quase chorando de tanto sorrir.

O ofendido então rosnando dizia:

- Mistura, filê-da-puta, mistura! Mistura para você ver o que é bom pra tosse.

História baseada em fatos reais.

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Usando filha bonita para casar as feias

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O matuto do Sertão não é tão matuto assim. Sabe fazer contas, sabe criar casos, sabe escutar bem mais que os cabras da cidade, arquiteta como ninguém, na mente inquieta, maneiras para sobressair frente às peripécias locais. O sertanejo carrega em si o poder avassalador de uma rápida adaptação, é como um camaleão, só que munido de uma aguçada sabedoria. Às vezes, é taxado como doido, é taxado como besta, é taxado como anta; mesmo com o seu jeito despojado, consegue dá nó em vento. O homem do seco é tatu entocado, é suçuarana encurralada, é quem-quem avisado, é aroeira que não quebra tampouco enverga, é chão duro que só produz espinhos… Quando a pessoa chega com o fubá, ele de tempo já comeu o cuscuz. Não se brinca com pessoa possuidoras de tais qualidades, dessa cartola mágica pode sair uma miríade de truques e alternativas.

Aqui nas intermediações, fato que contaremos, ouvimo-lo da boca de gente honesta, há uma família de pessoas simples, modesta nos hábitos, recursos mensais contados. Apanhamos o caso por alto, voando em uma roda de conversa, para darmo-lo vida usaremos a imaginação e comporemos o enredo de uma possível história verídica.

A família de José, muito bem poderia ser a de João, Sebastião, Mário, Pedro, ou até mesmo de outro José qualquer, pois há tantos Josés por este universo que parece que o mundo foi feito deles para eles mesmos. Só não poderia ser a família de Washington, Henrique, Pablo, estes são nomes atuais, de gente de cidade, gente que se coloca acima dos demais, que se gaba do nome que tem. José e Maria, marido e mulher. Casal que nos remete ao passado bíblico, homenagens aos pais do grande mestre Jesus. Também temos muitas pessoas carregando o nome do grande Nazareno por aí, mas nesta família os filhos não puderam ser coroados com o título do Mestre, talvez por terem nascidos dez e no todo nenhum tenha saído varão.

Dez filhos, dez mulheres. José sempre sonhara com um menino, contudo a natureza só lhe entregou flores. Dez flores, flores que deveriam atrair beija-flores, das dez apenas duas eram vermelhas, cheirosas, cheia de néctar nos lábios, as outras oito eram flores que crescem em cacho, iguais, pequenas, esquecidas em meio à multidão que as cercas. As oito padeciam por germinarem em lua cheia. Dizem por aqui que quem nasce em dia de lua cheia tende a parecer com lobisomem; com traços toscos não chegava a tanto, mas espantava a curiosidade e a cobiça dos machos.

As duas flores vermelhas nasceram em lua minguante, longe dos efeitos tenebrosos da lua cheia, duas princesas. Das dez, elas foram as duas últimas a virem ao mundo. Começavam a desabrochar para a vida, estavam em plena adolescência. Maria teve dez filhos, um seguindo o outro, cada ano uma barrigada nova. Paria feito rato, acolhia sob suas asas uma ninhada de dez. As duas princesas atraiam os olhares dos “cabras”, dos matutos rapinas das intermediações e até de outros municípios. Aqueles meigos traços fisgavam os olhos de quem neles repousava por certo instante. As duas jovens adoravam a corte dos insetos que sempre passavam em frente à sua janela, contudo mantinha distância, temia a bravura do pai.

José andava preocupado com as filhas, a mais velha já estava com seus vinte e oito anos, ainda era uma donzela a sonhar com casamento. As outras nove também não tinham desencalhado. A norma das famílias da região sempre foi casar primeiro a mais velhas, sempre a mais velha até chegar à caçula. Com as mais novas, ele não se preocupava tanto, as mais velhas faziam a testa dele latejar. Vendo aquele movimento em sua porta, uma ideia tocou-lhe levemente em seus neurônios. Sorriu feliz. Iria resolver o problema que tanto o incomodava.

- Madalena, tenho uma missão para a senhora.

- Para mim, papai?

- Sim. Eu quero que você chame um desses rapazes que vira e mexe passa frente à porta em namoro.

- Mas eu não quero namorar nenhum deles.

- Você não irá namorar. Quando um deles se interessar por você, apenas converse com o matuto, diga-lhe que seu pai disse que com filha dele não há namoro, sim casamento.

- Eu estou nova para casar, papai.

- Faça o que eu lhe estou mandando, Madalena. Confie em seu pai.

Na mesma noite, um rapaz passou três vezes rente a moça que estava sentada em um banco sobre a calçada. Madalena o observava e sorria, tentava como uma flor atrair o afoito inseto. O matuto cheio de si criou coragem e puxou conversa. Ele sempre sonhara namorar a meiga Madalena.

- Meu pai disse que filha dele não namora, sim casa.

- Como assim? – falou o rapaz todo assustado.

- Se você quer algo comigo, deverá primeiro ir ao altar.

- Mas eu estou novo para casar?

- Sigo a risca as ideias de papai. Eu estou encantada com a sua pessoa, mas só poderemos ser felizes se casarmos primeiro.

- Sempre sonhei com você. Se for para casar, eu caso. Avise ao seu pai. Mande-o marcar a data.

- Para quando será o casamento?

- O mais rápido possível.

- Meu pai ficará feliz em casar a sua primeira filha.

- Mais feliz estarei eu após nosso matrimônio. Posso dar-lhe um beijo?

- Só depois das alianças. Regras de meu papai. Com o velho José não se brinca.

- Mas ele não está vendo.

- Você nunca ouviu falar que parede tem olhos e ouvidos? Só depois do casamento e pronto. Deixa de ser ansioso; um mês a mais, um mês a menos, passa rápido.

Corrido um mês, o rapaz estava no altar a espera da sua princesa. Sorridente, feliz da vida viu o pai da noiva adentrar ao templo guiando a filha. A noiva vinha com um lenço a tapar o rosto. José passou a filha ao noivo e ficou na retaguarda.

- Mas esta não é a Madalena! – protestou o rapaz ao ver os olhos da mulher.

- Esta é a minha primeira filha. Na minha casa, casa-se primeiro a mais velha, depois segue até a mais nova de todas. – O cano de um revolver ia rente à barriga do rapaz. – Ou casa, ou eu lhe matarei aqui mesmo, seu cabra. Será o primeiro homem a morrer em uma igreja vestido de noivo.

- Posso começar? – indagou o vigário.

- Quanto mais rápido melhor, santidade – balbuciou José.

A cerimônia transcorreu dentro da normalidade. A noiva estava radiante, iria se casar.

- Agora o noivo pode beijar a noiva – disse o padre.

- Beija-a agora! – José comprimiu o cano ao estômago do rapaz.

A primeira filha enfim desencalhou, restavam ainda nove. O velho José tinha a solução, a isca voltaria a ser armada; em breve um novo gaiato se perderia no olhar manhoso de sua linda e encantadora Madalena.

A oitava filha na linha hierárquica, diga-se de passagem, a mais feia de todas, foi ao altar graça a beleza da irmã mais nova e da esperteza do pai. O pobre do rapaz chegou a desmaiar no altar ao ver o rosto da noiva. Quis desistir, mas José o ameaçou, sacou a arma dentro da igreja e obrigou o padre a terminar a cerimônia. Após o casamento, o rapaz para enfrentar sua fera embriagava-se constantemente.

- Maria Bethânia, seu marido bebe demais. Você quer que eu faça com que ele entre nos eixos.

- De jeito algum, papai. Dentro de casa só somos felizes quando ele está embriagado.

- Por quê?

- Ele fala que quando está chumbado me ver com outros olhos. Ele disse que quando me viu pela primeira vez pensou está diante a Madalena, como naquela ocasião tinha bebido muito, acredita está na bebida a solução de seu problema. Quando ele está de fogo na bebida, ele coloca fogo no nosso relacionamento. Por isso sempre reservo um litro debaixo da cama. É só beber e o pau quebra. Quando está são fica amuado, triste, nervoso. Como sei a solução, mantenho-me paciente e prevenida.

- Você é quem sabe.

O rapaz sempre avisava nas rodas de boteco que bebia muito até chumbar porque não conseguia olhar para o rosto da esposa em sã consciência, quando ébrio tudo fluía a mil maravilhas.

- Para encarar o diabo só com muita cachaça na mente – afirmava o rapaz.

Das dez filhas, nove estavam casadas, apenas a filha que casou oito das irmãs ainda esperava por um príncipe.

- Madalena, chegou a sua hora de casar-se. Não me venha com homem feio e pobre, pois já tenho oito cabras sugando meu sangue, apenas um levou uma das suas irmãs para longe, justamente a que não precisou da sua ajuda. De dor de cabeça já ando cheio. E de prejuízo também. Deus me deu dez mulheres e nenhum homem.

- Eu só casarei por amor, papai.

- Olhe lá esse seu amor. Não me traga mais um matuto para comer da minha boia. De preferência esse amor tenha recursos, propriedades, posição social.

- Quero alguém com tudo isso e ainda por cima seja bonito. Depois de ter enrolado oito trouxas, conseguir um homem para mim não será muito difícil.

- Esta é a minha filha do coração.

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Promessa paga pela metade não vale

O ser humano sempre buscou nas forças sobrenaturais algum tipo de ajuda para resolver problemas de difíceis soluções. Quem neste mundo de Deus nunca rogou ao Céu uma resolução favorável em referência a uma necessidade urgente? Muitos oferecem sacrifícios financeiros ou corporais para pagar a graça recebida. Pessoas a se verem livres de doenças tidas incuráveis, como pagamento de um combinado, saem de uma cidade e vai a outra andando pagar por uma promessa; outras sobem de joelhos as escadarias de algum templo religioso; outros ainda distribuem brinquedos e comidas às crianças e necessitados em certas dadas do ano. Faz parte da cultura do homem tentar um intercâmbio mental com as divindades do além.

Um senhor, certo dia, fez um negócio com uma divindade religiosa. Se conseguisse comprar seu primeiro automóvel, na festa em homenagem a ela, ele iria com o carro novo homenageá-la na comunidade que a tem como padroeira. No contrato tácito também estava expresso que o agraciado deveria carregar o andor com a imagem da Santa da saída da igreja até o retorno da procissão ao templo. Com a ajuda ou não da divindade, o homem de fato conseguiu adquirir o carro no tempo predeterminado. Era ele, agora, um devedor da promessa assinada com o seu pensamento ao pé da imagem que tanto idolatrava. Pagar a dívida era uma obrigação.

No dia aprazado, data da festa, festejos em homenagem a Nossa Senhora do Carmo na comunidade de Morro do Fogo em Érico Cardoso, para lá se dirigiu com o automóvel fruto da santa promessa. Chegou à véspera no local, estacionou seu veículo em uma das estreitas ruas, de terra. A primeira parte do compromisso havia findado, faltava-lhe carregar o andor. Passou a noite toda curtindo o evento, missa, forró na praça, conversa com os conhecidos, violão nas portas das casas, churrasco e cerveja gelada. Uma bendita promessa, promessa digna de ser repetida todos os anos, em todas as datas religiosas. Que alegria, que farra.

Após a missa da manhã, iria dá início à procissão. Chegava a hora de quitar a segunda parte do combinado, era pegar o pesado andor e percorrer toda a comunidade, iria exigir bastante esforço, sendo que as ruas são todas íngremes ladeiras, com obstáculos na descida como também na subida. O vigário à frente puxava a multidão de fieis e devotos. Eram dois andores, um com a imagem de Nossa Senhora do Carmo e o outro com a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Do lado direito, estava o pagador de promessa, segurando firme em uma das extremidades, caminhava confiante para pagar seu débito. A procissão seguia seu destino, cânticos bonitos aromatizavam o ambiente, povo animado. Que festa linda…

Andaram cerca de cinquenta passos, o pagador de promessas estancou de vez, foi como um burro empacado.

- Desgraça! – gritou o pagador de promessa furioso. – Quem foi esse filho da puta? Bateram em meu carro. Segure o andor.

- Calma, rapaz. O senhor está diante da imagem de Nossa Senhora do Carmo.

- Deixe-me! Vou cuidar do meu carro.

O pagador de promessa colérico foi cuidar do seu querido automóvel. A frente do carro estava toda amassada por algum motorista desatento, ou quem sabe embriagado. A procissão seguiu o seu ritmo. A promessa foi paga apenas em parte, o restante, talvez no próximo ano, será quitado. O homem não entendeu que o combinado era a compra do veículo, a batida não estava acordada no contrato. Tirando o insulto a divindade, agora é entrar no débito novamente, contrair outra dívida, fazer uma nova promessa para o concerto do veículo. Mas que fique claro: promessa feita, promessa paga. Um bom pagador sempre tem crediário, sempre tem razão. Deixar no caderno, esperar que alguém bata à porta, não pega bem. No ano que vem, lembre-se de pagar o que ainda ficou devendo.

História baseada em fatos reais.

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Um ovos, três ovo

Em Água Quente, hoje Érico Cardoso, existiu uma pessoa que nos deixou muitas histórias. Aqui postamos um pequeno fato relacionado à vida de Biaca.

Biaca em uma roda de conversa entre amigos disse certa vez:

- Mulher boa é a de compadre João.

- Por quê, Biaca? – indagou alguém.

- Hoje na hora do almoço, eu pedi a ela que fritasse um ovos e ela fritou para mim três ovo.

A gargalhada foi total.

- Como é que é: eu pedi um ovos e ela fritou três ovo? – ironiza o amigo em farto sorriso.

- É os plurais das palavra– sentenciou Biaca com o seu jeito irreverente.

História de Biaca.

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Indo ao cemitério à noite

Uma rotina nas cidades pequenas do interior do Sertão, locais onde a amizade prevalece, estar nas rodas de conversas nas praças ou bancos defrontes às residências se faz de um habito corriqueiro das noites escuras ou enluaradas. No meio do grupo, volta e meia um assunto assombroso domina as mentes. Falar em histórias de terror, casos ocorrido na região, levam muitos a se arrepiarem de pavor. De onde nasce este medo do desconhecido? Muitos dos que escutam sequer conseguem dormir quando retornam para casa.

Estava um aglomerado de jovens a dialogar em alto timbre. Alguns falavam, outros apenas escutavam inquietos. A noite era virgem de lua, as nuvens possuíam o céu, fazia frio e o vento soprava para o norte. O assunto seguia os casos que narravam acontecimentos sobre fantasmas, defuntos, almas penadas…

- Eu duvido que alguém aqui tenha coragem de ir ao cemitério apanhar um rosário no cruzeiro – afirma uma moça. – Dizem cada caso medonho daquele lugar.

- Se alguém for comigo, eu irei – afirma um rapaz.

- Não, não, não! Tem que ir sozinho. Acompanhado não vale.

- Sozinho? Vou não. Sou doido?

- Dizem os mais velhos que em certos dias um cavaleiro deixa o cemitério montado em seu cavalo negro, só se escuta o barulho dos cascos. Uma mulher já viu a cena, dos dois só se viam os olhos. Dizem que ele desce a ladeira da ponte e vai ao curral ordenhar as vacas.

- Minha mãe me contou – adentrou na conversa um jovem assombrado – que há uma alma penada no cemitério, uma mulher vestida de noiva. Todas as noite esta mulher levanta da sua sepultura vestida de branco e vai à igreja na esperança de se casar. A coitada morreu afogada no dia do casamento, foi enterrada com o tal vestido. Ela espera por um marido.

- Já escutei em um boteco que existe um grupo de cinco cachaceiros fantasmas – narrou outro rapaz. – Eles sempre deixam suas tumbas para irem tomar uma nas rodas dos embriagados.

- Será se há alguém aqui corajoso? – indaga a moça. – Acho que aqui só têm medrosos.

- Por que você não vai até lá? Você não é a corajosa?

- Eu! Deus me livre.

- Olhe quem vem logo ali – grita um dos jovens.

- É Biaca – disse a moça. – Biaca é corajoso. Ele não é igual a vocês, um bando de covardes.

- Qual é o assunto? – indaga Biaca.

O homem chegara embriagado, vestia um paletó azul-marinho.

- Você é corajoso, Biaca? – indaga a moça.

- Claro. Por que razão me pergunta? Nesta cidade não há homem mais corajoso que eu. Se tiver, apresente-me, porque ainda não o conheço.

- Ninguém aqui tem coragem de ir ao cemitério apanhar um rosário no cruzeiro. São todos medrosos.

- Vocês querem que eu vá?

- Queremos – disseram todos em uma só voz.

- Espere-me para ver. Não vão embora antes que eu volte.

- Para termos certeza da sua ida ao cemitério, por favor, apanhe o rosário azul.

- Se quiser eu trago todos.

- Dizem por aí que as almas penadas não deixam ninguém levar um rosário daqueles no decorrer da noite. Quem lá vai se dá muito mal.

- Crendices deste povo supersticioso.

Biaca saiu vacilante em direção ao cemitério, de paletó andava sozinho em meio ao silêncio. A turma procurou um local adequado para observa-lo.

Naquele tempo, o cemitério estava cercado em uma das suas quatro partes, o muro havia caído. Na chegada, o corajoso homem adentrou pela porta da frente, resoluto e firme passou entre as carneiras. Ao chegar ao pé do cruzeiro, olhou para cima e viu o rosário azul, ao levar a mão, assim que seus dedos tocaram o objeto, um piado de coruja o fez arrepiar dos pés à cabeça, o coração acelerou, do rosto suor gelado começou a escorrer. Apanhou o rosário e procurou a saída mais próxima. Sentia que algo o observava, passou a ter medo, adiantou os passos, abaixou o arame e tentou transpor a cerca. Algo o segurou pelas costas, ele tentava se livrar, não conseguia.

- Solte-me, sua alma penada! Solte-me! Eu lhe devolvo o rosário.

Algo o segurava, não havia jeito de soltá-lo. No susto, Biaca deixou os braços saírem das mangas do paletó, o rosário ficou pelo chão. O homem saiu loucamente em correria.

O grupo o esperava no meio da rua. Ficaram todos espantados ao verem Biaca vindo assombrando e correndo sem o seu amado paletó de todos os dias.

- O que foi que aconteceu, Biaca? – indaga a moça. – Cadê o seu paletó?

- A alma penada! Ela não me deixou sair com o rosário. Segurou-me pelas costas. Só me soltou quando joguei o rosário no chão.

- E o seu paletó?

- Ela ficou com ele.

- Não vai voltar para pegá-lo?

- Deus me livre. Se não fosse o meu paletó, o que seria de mim agora.

O grupo ficou por ali algum tempo mais. Ninguém queria ir para casa sozinho. Estavam todos com medo. O sono, para eles, foi repleto de pesadelos.

No outro dia cedo, a cidade toda já sabia do ocorrido. O padre cheio de si resolveu tirar a história a limpo. Foi ao cemitério. Ao chegar próximo a cerca, de imediato descobriu do que se tratava. No chão estava o rosário azul, enganchado no fio do arame-farpado encontrava-se o paletó azul-marinho de Biaca.

- Alma penada! – refletiu o padre. – Que nada.

História baseada em fatos reais.

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Mata o bicho, Chico!

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Na nossa região todos conhecemos o famoso Padre Benvindo, muitas histórias pululam a respeito dele no imaginário popular.

Certo dia, não, não, não, certa noite, o Padre Benvindo iria realizar uma Missa na Sede do município de Água Quente (Érico Cardoso). Momentos antes do início da cerimônia: “Cadê o Sacristão? Por onde anda Seu Oscar?”. Ninguém sabia dizer. “Como poderemos começar a Missa do Galo sem o Sacristão? Corram, tragam-me um aqui e agora”. As pessoas entraram em pavoroso. Quem serviria de Sacristão? Ninguém desejava tal comprometimento. Sem alternativa, a única opção foi Chico. O pobre homem, como dizem por aqui: “Já estava pra lá de Bagdá”.

A cerimônia começou, o Padre falava, rezava as ladainhas, levanta, senta, os devotos cantavam… Chico a segurar o turíbulo, sempre a sacudi-lo, a fumaça aromatizava de incenso todo o recinto. O Padre levanta a hóstia, em seguida o cálice contendo o vinho. Naqueles segundos, uma mosca distraída atolou no vinho, nadava inutilmente tentando se salvar. O Padre ao perceber o episódio, disse ao Sacristão:

- Mata o bicho, Chico!

Era tudo o que Chico mais queria na vida. Avançou ao cálice e em uma golada só sorveu o líquido com mosquito e tudo.

- Chico, eu lhe pedi para matar o bicho e não para tomar o vinho! – berrou o Padre embravecido.

Sem graça, Chico resmungou:

- No linguajar nosso, “Matar o Bicho” é beber em um gole só.

Os presentes se fartaram de tanto sorrir.

História baseada em fatos reais.

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Servindo as Forças Armadas a pulso

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No Brasil a lei obriga o cidadão a servir as Forças Armadas. No passado, há alguns anos, ir para o Exército implicaria sérios riscos. Se necessitasse ter que lutar em alguma guerra, naqueles tempos a iminência de conflitos era grande, a pessoa estaria frente a frente com uma morte prematura. Muitos indivíduos tinham pavor só em pensar sobre um possível alistamento.

Um filho da região do Vale do Paramirim, certo dia, recebeu um comunicado, um documento exigindo a sua apresentação na Capital baiana para se alistar. O homem perdeu o sono, perdeu a fome, teve vários pesadelos.

Neste tempo do recebimento da intimação ao dia aprazado para estar diante ao oficial, ele refletiu sobre uma maneira de se ver livre desse maldito incômodo.

Os dias passaram rapidamente, na data e no horário determinado, lá estava ele sentando, em uma cadeira dura, frente ao general. O relógio marcava dez horas.

- Qual é o seu nome? – indaga o general, encontrava-se de cabeça baixa.

O silêncio acolhia todo o recinto, quebrado apenas por um canto de um passarinho em uma gaiola na parede.

- Qual é seu nome? – volta a perguntar.

O rapaz permaneceu imóvel, olhar fixo para o general.

- O leão comeu sua língua foi? Como você se chama? Não me faça de idiota.

O rapaz apontou com o dedo para o peito, dava a entender que ele tentava se comunicar por códigos.

- O senhor é surdo-mudo?

O homem permaneceu imóvel e com o seu olhar sempre fixo. Por sua vez o general deixou o rapaz sentado e começou a trabalhar com as suas anotações. Volta e meia indagava algo, porém não recebia resposta. Já se passava do meio-dia, a fome tomava conta dos dois.

- Já é mais de meio-dia, estou com uma fome – murmurou o general.

 O surdo-mudo pôs seu plano abaixo, a fome o traiu:

- Eu também – afoitamente disse ele. – Ops! Me dei mal.

- Surdo-mudo! Querendo ludibriar a autoridade? Irá servir o Exército sim, seu cabra! Agora me responda: qual é o seu nome?

- Fulano de tal.

- Não entendi. Fale mais alto. Soletre!

- F-u-l-a-n-o d-e T-a-l.

- Teremos o maior prazer em lhe ensinar boas maneiras. Uma delas é a de não mentir para autoridade nenhuma. A primeira coisa que faremos é a raspagem do seu cabelo.

- Eu não posso ficar aqui. Tenho que cuidar dos meus filhos.

- O surdo-mudo recuperou suas habilidades. Sua esposa cuidará bem deles. Sebastião!

Um rapaz vestido uniforme do exército apareceu rapidamente.

- Leve o homem e dê a ele as primeiras instruções. Espere. Parece que ele está com fome, só sirva o almoço daqui duas horas. É para aprender a não mentir. Agora o leve. Já.

História baseada em fatos reais.

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Por onde anda mesmo o machado?

Certo dia, em algum mês do passado da região de Paramirim, uma figura muito conhecida naquela época, todos o chamavam de Felin, chegou à residência de Dona Pequena, entrou pelo portão dos fundos, passou pelo quintal, parando na porta da cozinha.

- Dona Pequena! – gritou ele.

- Quem é? – indaga a senhora em outro cômodo da casa.

- É Felin.

- Como eu queria lhe ver, Felin. – de imediato chegava à cozinha.

- Como vai a senhora.

- Vou bem, meu filho. Estou precisando de um serviço seu.

- Pode dizer.

- Minha lenha cortada acabou, preciso que você rache os paus que estão próximos ao muro.

Ele levantou o olhar para o local, em seguida disse:

- Tem muito, vai demorar uns dois dias para terminar o serviço.

- Rache um pouco, outro dia você retorne para rachar o restante.

- Tudo bem. Mas de barriga vazia eu não vou conseguir rachar sequer dois paus. Estou com fome. Tomei apenas um cafezinho preto de manhã, sequer um pedaço de pão tinha para comer.

- Vou fazer um prato.

- Capriche, a fome é grande, e o trabalho, também.

Dona Pequena trouxe um prato a derramar pelas bordas. Felin, segurando uma colher firmemente, afoito, começou a devorar o alimento. Poucos minutos e o prato estava vazio.

- Dona Pequena, já terminei. Tem um cafezinho aí?

- Temos sim, Felin.

Ele tomou o café devagar, olhou para o horizonte, enfim disse:

- Onde está o machado?

- Está encostado no quarto lá nos fundos.

- Me mostre ele.

A senhora chegou ao local e não o encontrou, procurou por todas as partes, nada. Chamou um dos filhos, mas o machado insistia em não aparecer.

- Dona Pequena, eu vou à venda de Nelson. Se a senhora encontrar o machado, mande alguém chamar a minha ilustre pessoa.

- Certo.

Pelo mesmo portão que havia entrado, ele saiu. Ao pôr os pés na rua, desapareceu no mundo.

No outro dia cedo, uma criança brincava em um monte de areia no quintal da casa de Dona Pequena, ao passar a mão em certo local, sentiu algo estranho, ao cavar um pouco encontrou o machado enterrado.

- Vó, encontrei o machado! – gritou a criança, a mesma sabia que a avó procurava pelo objeto.

Dona Pequena ao se inteirar que o machado estava enterrado na areia deduziu logo o que tinha acontecido. Felin ao entrar pelo quintal, sabido como era, a primeira coisa que fez foi enterrar o machado. Comeu e não trabalhou. O mundo é mesmo dos espertos.

História baseada em fatos reais, fatos esses da história da região do Vale do Paramirim.

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Consulta médica

consulta

- Não estou me sentindo bem. Uma agonia dos diabos. Queima tudo por dentro.

- Por que você não procure um médico?

- Um médico? Sei não. Será se ele descobre o que eu estou sentindo?

- Claro, pois é um médico. Se ele não descobrir, passe então a procurar os serviços especiais de um bom curador.

- Fale-me um bom médico aí. Quieta com curador!

- Dr. Fulano de tal.

- Vou lá agora mesmo. Sei onde ele trabalha.

O rapaz saiu, deixou o amigo sozinho.

- A doença sua todo mundo já conhece: cachaça – murmurou, enquanto o amigo descia vacilante pela rua.

O homem adentrou pelo consultório médico, sequer bateu a porta.

- Doutor, estou aqui para fazer uma consulta com o senhor.

- Sente-se, por favor.

- Pois não, doutor.

- O que o senhor está se sentindo mesmo?

- Como? Eu venho até aqui para descobrir a causa do que me aflige e o senhor vem me perguntar o que eu estou sentindo. Quem é o médico aqui é o senhor, e não eu. O senhor é que tem que saber a causa da minha agonia. O senhor não sabe é de nada. Perdi meu tempo vindo até aqui. Vou embora. Fique com Deus. Médico de meia tigela.

Uma pequena história que aconteceu na região do Vale do Paramirim baseada em fatos reais. Preservamos os nomes dos atores do ocorrido.

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Histórias das Figuras de Érico Cardoso – Bier 2

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Todos os anos Ademário Cardoso deixava sua residência na Sede, ou na rua como aqui se denomina, para passar uma temporada com a família na fazenda Manguinha na outra margem do Rio Paramirim. Ficava por lá uns três meses, gostava da natureza, da vida na roça, dos afazeres.

Certo dia, perto do horário do almoço, almoçava sempre ao meio dia, cultura da rotina da casa, um cidadão de nome Bier chega à porta e fica a fitar o patriarca do local, após um bom tempo deixou sair da sua boca um bendito elogio:

- Ademário Cardoso! – colocava mais força no sobrenome. – Ademário Cardoso, quatro homens destes consertaria Água Quente – batia forte no peito.

Com um elogio daquele ficava difícil não ceder às intenções do sujeito. Bier sabia como ninguém elogiar, ganhar o outro nas palavras, na conversa.

- Adentre para cá, Bier. Venha almoçar com a gente.

- Comerei aqui mesmo na fresca da calçada.

Dorzila serviu um prato recheado ao homem, esse devorou em poucos minutos, terminado, pediu um copo com água, depois um com café. Parou rente a porta a observar, olhos nos olhos com Ademário, disse:

- Esse rebanho de passa fome tá bom tudo de cair no tiro – e saiu à disparada estrada a fora.

Esse era Bier, uma das figuras da então Água Quente, rico em histórias.

História baseada em fatos reais, contada a nós pelo senhor Dormário Cardoso.

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