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Você sabe com quem você está falando?

mai 20 2019 Published by under Crônica

Hoje eu acordei e de cara deparei-me com esta indigesta interrogação: “Você sabe com quem você está falando?”. Fiquei a olhar atentamente para aquele que me inquiriu. Olhei, olhei e olhei. Realmente, preciso pensar um pouco para formular uma resposta.

Eu estava defronte a um espelho. Nós dois nos encarávamos. Parecia a um duelo de filmes de faroeste americano. Quem irá atirar primeiro. Não, não, quem irá falar primeiro. Como ele não se mostrava confiante em abrir a conversa, decidir iniciar um bate papo.

- Quem é você?

No mesmo instante recebi a mesma indagação. Uma pergunta deveria seguir de uma resposta, mas seguiu da mesma interrogação.

- Meu nome é Paulo.

Ele tem o mesmo nome que eu. Estranho. Olhando bem o seu rosto, seus traços se assemelham com os meus.

- O seu nome é igual ao meu.

De novo falamos as mesmas palavras ao mesmo tempo. Parece telepatia. Que coisa estranha.

- Você mora onde?

Tudo que eu falo ele repete.

- Moro em São Paulo.

Ele também mora em São Paulo. Talvez ele more aqui perto. Poderemos ser bons amigos.

- Você mora aqui perto da rua x? Sim, moro. Poderemos ser bons amigos, então? Claro.

Que sintonia a nossa. Gostei dele. Parece muito comigo.

- Por que você sempre repete o que eu falo?

Não dá para ter uma conversa saudável com este rapaz. Ele está a debochar de mim. Como devo proceder diante dele? Agora, ele só me observa atentamente, parece meditar. Ele, com certeza, está armando alguma. Conheço este tipo de pessoa. Sujeitinho malandro.

- Pare de olhar para mim deste jeito!

Olhe a petulância dele, quer que eu pare de olhar para esta cara feia. Mas deixe comigo. Ele me paga. Sei lidar com gente assim.

- Mas você é arrogante! Sua mãe deve estar triste por ter um filho como você.

Eu estou perdendo o juízo com este rapaz.

- Você me respeite, seu cabra!

Acabou de me chamar de cabra.

- Deixe-me em paz. Vá procurar a sua turma.

Se eu pudesse, eu encheria a cara dele de porradas. Sujeitinho petulante.

- Vem cá, você tem namorada?

Ele deseja saber o nome de minha namorada. Será por quê?

- Cecília. Por quê?

O nome é igual ao nome da minha namorada.

- Cecília de quê?

Será se Cecília me traiu com este sujeitinho ordinário? Estou ficando preocupado.

- Cecília Aparecida Santos Silva.

Meu Deus, ela me trocou por este sujeito. Como ela pôde ser cruel assim comigo. Mas isso não irá ficar assim. Tenho que resolver esta situação agora. Nunca fui de violência, contudo não suporto mais tamanha tortura.

- Seu desgraçado! Toma!

Ele me feriu na mão. Como dói. Está sangrando.

Cadê você que sumiu? Apareça. Você sabe com quem você está falando? Volte para terminarmos o nosso duelo.

Uma porrada deferida contra o espelho fez desaparecer a sua própria imagem. Convivemos com nós mesmo o tempo todo, sequer nos conhecemos por completo. É uma tortura o diálogo de mim para comigo, pois as respostas recebidas das indagações feitas já foram processadas pelo mesmo canal. Não posso encontrar em mim o que não tenho no meu interior. Se não consigo diante do espelho determinar quem eu sou, como poderei exigir de outrem saber quem sou eu. Por isso uma inquirição assim só poderá ser feita perante o espelho, mesmo assim sem um resultado favorável, pois sequer nos conhecemos ao fundo. “Você sabe com quem você está falando?”. Com toda a certeza deste mundo: não, não sei.

Luiz Carlos Marques Cardoso 19/05/2019.

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Somos Garotos Propagandas Zero Oitocentos

mai 14 2019 Published by under Crônica

O que me leva a ser medíocre? A sociedade moderna está carregada de fatos em que raciocinados levariam certas pessoas a notar a sua estupenda basbaquice. A normalidade da massa encobre aberrações comportamentais. Se um grupo considerável de indivíduos segue certo modismo, nas muitas das vezes, tal ponto de vista se propaga como vírus. Quando estamos afogados neste lamaçal sequer nos damos conta da gravidade em que nos encontramos perante nós mesmo.

O que leva uma pessoa a adquirir uma camisa cara com a marca de uma empresa multibilionária de refrigerante? Usar tal camisa doada ou oferecida pelo patrocinador gratuitamente não seria tão grotesco, mas fazer propaganda pagando caro é algo que precisa ser estudado.

Vi uma foto de um jovem fotografado tendo ao fundo um painel com a marca de uma cerveja famosa no carnaval. Ele sorridente, feliz. Postou nas redes sociais achando aquilo o máximo do máximo. Meu Deus para aonde estamos indo? Que loucura. Além de pagar caro pela bebida, ainda assim se dá ao mico de fazer propaganda. Já não bastam termos de usar tênis estampando as marcas dos produtos.

Mas o ponto a ser abordado esteja justamente em mostrar aos olhos do mundo seu status como consumidor do capitalismo selvagem. Quanto mais caro for o produto, maior será o interesse em exibi-lo. Se o mundo atual o que manda é o dinheiro, mostrar, para quem tem recursos sobrando, vem a ser algo primordial na vida dos seres sociais. Viramos vitrines vinte e quatro horas. Neste tempo de redes sociais e fotos, então, parece ultrapassar as horas do dia.

Não percebemos a nossa idolatria impulsiva a certos fetiches. Muitos passarão a vida toda e nem os perceberão. Somos usados o tempo todo como estopim de enriquecimento de grandes corporações. O que fazer diante deste dilema peculiar? Cada dia que passa, é necessário, procurar-se policiar mais. Sabemos da pressão das mídias, sabemos da opressão dos grupos em que estamos inseridos, sabemos da força avassaladora das opiniões da massa. Precisamo-nos desviar de tais armadilhas. Quanto ao leitor, faça o que lhe aprouver. Se desejar vestir sua camisa do time do coração e sair gritando pelas ruas, saia, mas lembre-se de que teu ato particular estará servindo a certos interesses estranhos ao seu conhecimento. O manto sagrado para você é a fortuna do esperto que você nunca conhecerá.

Luiz Carlos Marques Cardoso – 13/05/2019.

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O que vem a ser melhor para nós

mai 07 2019 Published by under Crônica

“É melhor afastar-se do mundo pouco a pouco, em vez de tudo de uma vez” – Pio de Pietrelcina.

Lendo certo texto em um singular livro, deparei-me com a frase citada acima, dita por Pio de Pietrelcina. Busquei algo da biografia do autor, encontrei uma história bastante volumosa e cheia de mistérios. Ele tinha o poder de bilocação, poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, vários acontecimentos são mencionados, tornando-o especial. Ele foi um ser que passou pela Terra e deixou seu legado; se assim não fosse, não estaríamos falando de sua vida ainda agora.

Voltemos à sugestiva frase. O que ela quer nos dizer? Está clara para o leitor? O que vem a ser: “É melhor afastar-se do mundo pouco a pouco”. E o que insinua: “Em vez de tudo de uma vez”. Nos atuais dias, dias de um materialismo sedutor e catalisador da cultura universal, uma frase como esta vem na contramão de toda a ideologia aplicada na sociedade, na cultura reinante. Devemos, pouco a pouco, nos afastarmos da matéria que nos cobra fidelidade e amor incondicional, assim se deduz da frase. Os bens sedutores que nos roubam os sentidos nos deixando apaixonados sem noção e razão, eles devem ser repelidos pelo bom senso.

Ou fazemos, aos poucos, nosso desapego da matéria; ou faremos de uma só vez em um segundo de tempo em uma ocasião qualquer. A morte irá chegar, cedo ou tarde, com suas garras a nos arrastar sabe-se lá para onde. E toda nossa vida vivida em prol dos pertences que pensávamos serem nossos terminados da mesma forma que começou, como um enigma dos céus. Ao fechar os olhos para este mundo, o que de fato importou em nossa existência? O nosso suado patrimônio pula de mãos num estalar de dedos, o defunto até o corpo perde aos vermes e à terra. O que pensar da banalidade da nossa insignificante história.

Pio Pietrelcina foi formidável em estruturar tal frase, conhecedor da religião e do apego dos humanos pelo material, moldou algo que nos instiga a pensar no atual estado da nossa existência. Ele já transpor o lago da vida para eternidade, contudo o poder do seu verbo ainda vibra como notas agudas a mostrar aos que querem respostas o verdadeiro segredo do bom caminhar. Se não acumulei riquezas, se não erigir pirâmides, se não fui imperador, pelo menos sentir o cheiro das flores, pelo menos ouvi os cantos dos pássaros, pelo menos tive o prazer de viver, para mim só de estar vivo valeu todo o sacrifício da vida. Do mundo não se leva nada, apenas nos é outorgado a chance de saborearmos momentos felizes, momentos ruins, momentos diversos, momentos.

Luiz Carlos Marques Cardoso – 06/05/2019

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Algo de positivo aconteceu na sala de aula

abr 05 2019 Published by under Crônica

- Hoje iremos estudar a Segunda Guerra Mundial – disse o professor para a sala de aula repleta de alunos.

- Mas, professor, eu não sabia nem que tinha existido a primeira guerra e o senhor já vem querendo explicar a tal da segunda – redarguiu um aluno curioso.

- Verdade, ou uma brincadeira sua? – indagou o professor sem ação.

- Verdade. De história eu só sei a do Brasil. Se é que eu sei mesmo. Acho que sei.

- Mas nesta série já era para que todos vocês tivessem conhecimento de muitos assuntos.

- O senhor quer saber, professor? Eu não sei nem escrever direito. Também não sou bom em leitura.

- Mas o que vocês fizeram nas séries anteriores?

- Fizemos o que nos mandaram fazer. Resultou neste fracasso, neste fiasco.

- Mas vocês têm bons professores, têm escola bem conservada, têm transporte escolar, tem merenda, e o resultado é este?

- Se de trinta alunos, três a quatro são razoavelmente bons, não pelo que os professores passam nas aulas, mas pelo que é estudado em casa, algo deva está errado com este método de ensino.

- Verdade. Algo deva está errado. Acho que vocês não aprendem porque falta interesse, comprometimento. Está sobrando preguiça.

- Professor, para que tentar aprender um monte de assuntos que nunca irei usar na vida?

- Não é bem assim. Vocês precisam aprender, pois irão precisar na hora de prestar um vestibular, fazer a prova de um concurso.

- E depois? Vendo o meu atraso, olhando o tempo perdido, queria neste momento apenas saber ler e escrever correto. Nem isso eu sei. Os senhores não ensinam, simplesmente, porque gramática não cai no vestibular ou no concurso público. As provas viraram apenas textos com cunhos ideológicos, com propósitos pensados por autoridades perversas.

- Não é bem assim, você está equivocado.

- Agora o senhor vem falar em Segunda Guerra Mundial. Será que o que irá passar é a pura verdade, ou será mais uma manobra de entes para nos persuadir? A escola perdeu seu dom de ensinar, virou a casa da mãe Joana.

- De onde você tirou tudo isso? Você está equivocado.

- Equivocado? Não, professor, eu não estou equivocado. Tenho minhas razões. Este ensino não ensina ninguém a nada. O interesse do Estado é nos fazer marionetes nas mãos deles. Quando todos falam as mesmas palavras quem tente falar diferente é taxado de equivocado. Se eu fosse equivocado, o ensino do Brasil seria um dos melhores do mundo, na verdade paira entre os piores. E não é por falta de dinheiro, pois hoje há bem mais recursos do que outrora, contudo outrora tinha mais efeito positivo que nos atuais dias.

- Pelo jeito você anda lendo escritores proibidos. Estas ideias foram plantadas na sua cabeça por indivíduos, como posso me referir, indivíduos perversos e doentes. Você precisa esquecer estas coisas e pensar como todo mundo. Precisa passar em um vestibular, conquistar um emprego, crescer em uma carreira, ganhar dinheiro, ter uma família… Se você for por este lado, irá sofrer muito, não irá conseguir vencer na vida.

- A mesma fórmula para todos. Parece até que somos robôs. Também vou precisar roubar para ficar rico? Os conceitos foram invertidos. A sociedade patina sobre densa lama de hipocrisia. O caminho do sucesso financeiro no Brasil é um só, o da malandragem, do jeitinho, da trapaça.

- É melhor deixarmos esta conversa de lado. Vamos começar a nossa aula. Pelo jeito você sabe muito bem o assunto que iremos tratar. Seu desejo era me afrontar. Se for seu objetivo, já conseguiu.

- Não, nunca pensei em afrontar o senhor, apenas usei deste momento para trazer mais interação com os meus colegas. Viu como eles ficaram ligados no nosso debate? Talvez nós precisássemos debater mais para que as aulas tenham mais produtividade. Então vamos conhecer a Segunda Guerra Mundial. Vamos voltar ao século vinte, ao ano de 1939.

Luiz Carlos Marques Cardoso – 04 de abril de 2019

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Somos Forçados a Fazer Parte do Jogo

mar 12 2019 Published by under Crônica

Um estranho fato me roubou a atenção. De repente, ele se petrificou perante meus olhos. Chegou como uma explosão de bomba atômica, sem esperar. Aquilo ao me atingir, despertou-me uma vontade de explorar suas entranhas para tecer algumas considerações. Um pensamento estranho para o estado moderno em que nos encontramos, todavia fruto deste meio de transição de gerações. Talvez estas palavras que as escutei, outras pessoas também as escutaram ou virão a se deparar com elas no decorrer dos próximos dias, meses ou até anos.

Um rapaz, graduado em nível superior, dotado de suas faculdades mentais, disse-me que as redes sociais, que os sites de internet, que as funções do celular, que não seja a de ligação, para ele são tudo banalidades que dispensam interesse. A frase dita por ele não foi nestes termos, mas o conceito é o expresso. Sem falar na revolta e no nervosismo dele a tentar impor suas arcaicas ideias. O tempo passou e ele continua agarrado nos aprendizados do seu pretérito.

Já não cabe mais a nós querer ou não querer certas situações que o mundo nos obriga a realizar para termos capacidade para participar do presente atual se preparando para o futuro que já está à porta. Ignorar a tecnologia é o mesmo que tentar se flagelar regredindo a épocas passadas. O mundo é tal como se apresenta neste momento. Ao homem, cabe se aperfeiçoar, cabe a nós capacitar nosso corpo para as novas conjunturas, instruir a mente em torno de novos conceitos. O homem por ter a inteligência como patrimônio maior, deve, por obrigação natural, enriquecer os seus neurônios com conhecimentos variados e atuais.

Neste instante de turbulências várias, neste ponto de ruptura tecnológica, muitas pessoas, apavoradas, relutam em buscar capacitação e desejam com afinco permanecer no seu mundo feliz, na sua zona de conforto. O novo chega com muita força, obriga a lentidão a se retirar, faz-se a energia central do pêndulo que sustenta a sociedade. Atributos que eram tidos vitais desaparecem em um piscar de olhos. Empregos, profissões nascem com velocidade da luz, enquanto outros desaparecem como em toque de mágica. No meio de tudo isso estamos nós, somos ingredientes desta formidável sopa.

Tentei mostrar ao rapaz a verdade do nosso mundo. Mudar é preciso. Aquele que tentar brecar este impulso catapultado no decorrer da história será destroçado por esta força propulsora que absorve os que interagem e destrói as anomalias do sistema. É questão simples, ou participa do jogo e tenta obter lucro com as regras, ou será eliminado da vida social. O rapaz atordoado com minhas explicações, viu-se acuado, chamou-me de pessimista e arrogante. Neste mundo, dá conselho não é fácil, melhor vendê-los; mas será se há gente interessada em comprá-los?

A evolução tecnológica vem nos últimos anos ganhando velocidade de velocista. Se antes passeávamos a contemplar as modificações de décadas em décadas, agora o caldo muda de sabor dia a dia, uma verdadeira loucura. Você dorme empregado e acorda procurando por emprego. O que fazer para caminhar com os passos da evolução? Primeiro aprender a dominar o novo, depois ter uma posição firme em detectar abalos no terreno em que está instalado. A pessoa satisfeita com o pouco que sabe é a mais vulnerável em se perder. Nunca na história humana fomos exigidos mentalmente como neste século vinte e um.

O rapaz da conversa, por obrigação de seu emprego, se viu obrigado a adequar suas rotinas com aparelhos que executam procedimentos indiferentes as aptidões humanas. Sem notar, o indivíduo vai aos poucos penetrando na nova realidade, mesmo os mais ferrenhos opositores. A vida moderna é como uma máquina em pleno funcionamento, cada um de nós é uma peça da engrenagem maior. Se falharmos, de imediato, somos substituídos.

Luiz Carlos Marques Cardoso. 06/03/2019

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Cultura Popular do Brasil

mar 07 2019 Published by under Crônica

Qual a verdadeira cultura popular do Brasil? Será se temos uma cultura genuinamente brasileira? O que quer dizer cultura popular?

Três indagações pertinentes sobre o tema. Nosso país tem pouco mais de quinhentos anos do descobrimento. Todavia, bem antes aqui já viviam os índios. Para muitos, o Brasil começou em 22 de abril de 1500. Podemos passar uma borracha em tudo o que nesta terra floresceu antes? Dividir, ou começar nossa história com a descoberta da pátria amada chega a ser infantilidade de um povo que se julga superior. Superioridade que se perde nos dados, nas condutas, na mania de copiar. Por que é tão difícil sermos nós mesmos? Deixamos de ser uma estrela a emitir luz, e agarramos com unhas e dentes nas ideologias de outros povos. Somos ou não somos capaz de criar?

O brasileiro é fruto de uma mistura pulsante de raças. Quando Cabral aqui atracou com as suas caravelas, encontrou as várias tribos indígenas. Com a colonização dos portugueses tão logo chegaram os negros vindo do continente africano. Branco, negro e índio passaram a conviver e dividir o mesmo espaço. Nasceram os mulatos, mamelucos e cafuzos. O Brasil virou um celeiro da mais pura miscigenação. No decorrer dos anos foram chegando holandeses e japoneses. Cada indivíduo trouxe consigo algo da sua terra natal. As lembranças da infância, as músicas, as festas, as vestimentas e seus costumes corriqueiros. O Brasil sendo um país enorme foi moldando cada região com características distintas e nas muitas das vezes antagônicas umas das outras. A influência estrangeira foi se enraizando lentamente pelos quatro cantos.

Passamos a copiar e assim seguimos até nos atuais dias. O Brasil poderia ser diferente? Sim, poderia, contudo somos o que escolhemos ser, somos hoje os frutos das árvores que se plantaram e cuidaram no pretérito. Poderíamos gozar neste momento de melhor condição em várias áreas. No entanto, poderíamos também está em pior situação.

A cultura popular é a face da cultura nacional. Somos nossas manifestações, nossos desejos, nossos sonhos, nossa música, nossa arte… Remova tudo isso, e o que teremos é apenas o vazio. A vida humana em sociedade não se pauta apenas no trabalho, trabalho apenas existe pelo simples fato de haver as necessidades básicas. A vida é bem mais complexa. Na falta da cultura popular, sobrariam aos seres humanos a loucura, a debilidade total, a insanidade de uma vida sem razão. Quanto mais ricos formos em cultura popular, maior será nossa felicidade, razão pela qual vivemos. Os nossos sentidos precisam de estímulos para produzirem conhecimento, esta energia vem por meio do envolvimento e do engajamento social. Não nascemos para sermos máquinas, criamos as máquinas para que sobre tempo para o ócio criativo.

Gabamos por temos muitos recursos naturais, esquecemo-nos de sermos grandes a ponto de orgulhamos dos nossos feitos. Louvamos o que recebemos de graça, entretanto pouco contribuímos para a evolução das coisas. O que aconteceu que nos fez acomodados? O que este gigantesco País contribuiu para a humanidade geral? O que ele poderá contribuir nos próximos anos? Quem somos nós? Nem nós mesmo sabemos quem nós somos. Não sabemos o que queremos. Caminhamos sem direção rumo a qualquer lugar. E agora? Vamos continuar a remar rio abaixo deixando o fluxo da água nos levar? Ou vamos nos rebelar e enfrentar a forte correnteza em busca da beleza da nascente no topo da grande serra?

Já não temos mais gênios, os de destaques são tão rasos que o simples toque do vento os remove ao esquecimento imediato. A cultura popular verdadeira vence o tempo e os seus idealizadores. Vejamos a capoeira e o forró, ainda fortes e latentes no gosto da maioria. Por mais que a mídia tente impor à sociedade o conceito de uma minoria alucinada, a sociedade curte o novo, enjoa e retorna ao verdadeiramente belo e atraente. As músicas são tão banais que vira o ano e tudo já retornou ao balde de lixo. Os livros que lemos hoje são os mesmos que foram lidos por nossos antepassados. Os filmes são meras copias aprimoradas daquilo que foram sucesso. Muitos batem no peito e dizem: “Somos modernos! Fazemos parte da modernidade!”. Com tudo que temos em mãos, e o pouco que produzimos de valor real, somos meras crianças enganadas com o sabor doce de um pirulito oferecido pelo pai para paramos de chorar.

Demorei para acordar. Não sei se tenho tempo de recuperar meu tempo perdido. Uma coisa eu sei: “Vou seguir tentando até o último segundo de vida”. Que Deus me dê força e discernimento para escolher os atalhos corretos. Aonde irei chegar, não sei, se soubesse, talvez perderia o sabor de tentar.

Luiz Carlos Marques Cardoso.

09/02/2019

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A vida está difícil

fev 07 2019 Published by under Crônica

A vida está difícil

A vida está difícil. Realmente, para algumas vítimas da própria natureza, sim, sempre haverá seres nesta complicada situação. No geral, falando-se de Brasil, a vida é bem mais bela e prazerosa que no passado distante. Neste momento, nosso país passa por mais uma crise, algo que nos coloca na defensiva. Mesmo assim, ainda assim, as flores do presente são bem mais perfumadas que as do passado. Perambular nos documentários da história nos leva a períodos de intensa treva humana. Tempo de carnificina total. Doenças, hoje controladas com remédios, matavam milhares de pessoas. Guerras com os seus poderio de massacre tiravam dos seres até a esperança de ter um futuro. A loucura dos grandes ditadores. Pais vendo a morte dos filhos, filhos assistindo o fuzilamento dos pais. Nazismo, Fascismo, Comunismo a fazerem belas metrópoles se reduzirem a pó. A fome ocasionada pela crueldade dos governantes a dizimar populações inteiras. Hoje, mesmo com todos os seus problemas, ainda assim é bem melhor. Falamos do Brasil e de boa parte dos países da Terra, pois há locais que parecem ter parado no tempo, que o caos pulsa diariamente. A liberdade que dispomos hoje, no pretérito nem sempre foi possível. Comemos razoavelmente bem. Temos lazer. Curtimos domingos e feriados. Uns com condições melhores que outros, normal dentro do capitalismo. E ainda assim, perdemos nosso precioso tempo em nos queixarmos. Mesmo possuidores de requisitos que têm o poder de nos fazer feliz, mesmo com vasta soma de recursos financeiros, deixamos nos abater e perder o foco de uma vida regrada de paz. Outrora sonhávamos em ter o que temos hoje, padecíamos pelas agruras da terrível época; neste momento vivemos atordoados com os sonhos realizados, porém perdemos a capacidade de sonhar. Talvez a diferença de ser feliz ou infeliz esteja no simples fato de querer e poder sonhar, idealizar algo. A fantasia de um futuro diferente faz do presente mais doce e farto de possibilidades. A vida está melhor. Para os que têm tudo e acham que a vida está difícil, pare um instante, deixem a mente viajar, sonhem, isso lhes fará bem, muito bem.

Luiz Carlos Marques Cardoso.

05/02/2019

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Monólogo de um acusado de furto

dez 16 2016 Published by under Crônica

Por um momento, pensei que estava sonhando. Mas, agora, diante deste tribunal, vejo o quanto a realidade me apresenta como um funesto pesadelo. Estou neste lugar, acusado de cometer um furto. Para que tantos profissionais, apenas, para julgar um insignificante sujeito que por força da situação se viu obrigado a buli no que não lhe pertence. Do que me acusam, sei da minha culpabilidade, contudo não sou tudo isso que estão a dizer do meu ser. O promotor disse em suas palavras cruéis que um furto se caracteriza pelo ato simples de furtar, que a pena é a mesma para quem furta um milhão ou apenas um centavo. Pois quem furta uma quantia possui determinação e força para surrupiar a outra quantia maior? Aqui, ninguém pensa em usar uma medida a cada caso. São os senhores severos demais com este pobre cidadão. Aquele que levantou queixa contra mim, um senhor rico, de muitos dotes, poderoso e influente. Logo, vejo sentado em confortáveis poltronas senhores advogados contratados por ele, profissionais que estão a desenvolver seu santo ofício por um bom numerário em dinheiro. Quanto cada advogado desses ganha por dia? O que custa um frango, meus senhores? Um simples frango caipira? Se adentrei na fazenda dele e furtei um frango foi por uma boa causa. Naquele lugar havia milhares de frangos, só precisava de um, só levei um. Todavia fui filmado e neste momento me vejo preste a ser condenado a quatro anos de prisão, ou mais. Minha esposa e meu filho estavam famintos. Os senhores sabem a dor que é passar fome? Não, não, os senhores nem de longe conhecem ou viram a fome nos olhos. Eu a vi e a sentir na alma. É meus senhores, na alma. Pois ela após devorar as forças físicas, passa a consumir o espírito. Quanto a mim, morrer de fome seria até um alento. No entanto, padecer observando, de mãos atadas, minha família em lágrimas se derreter por falta de alimento, pesado demais para um bom pai e para um bom esposo. Furtei o frango e se for necessário novamente, novamente furtarei outro e outro e se possível todos os frangos que existem na face da Terra. Com o meu ato, o único crime que cometi, mas que não é crime nas esferas jurídicas da nossa Constituição, foi ter o desprazer de tirar a vida do frango. Quanto custa um frango, volto a indagar-lhes? Quanto custa um dia de trabalhos dos senhores? São muitos fogos para um zunido de uma mosca. Gostaria de trabalhar. Não sou preguiçoso, tenho ócio o dia todo, isso sei. Não porque desejo, e sim por não conseguir desta sociedade uma chance, uma corda para que eu possa segurar e transpor este rio caudaloso e frio. O Estado me ignora, as pessoas me ignoram, já a Justiça, com seus olhos de águia faminta, me persegue e me caça. Elevem seus olhos as esferas superiores, ou ao seu redor, ou até em vocês mesmos. Quantas autoridades que furtaram milhões sequer são chamadas a depor, vivem uma vida regadas a luxo e a mordomias, que insistem em pôr uma venda nos olhos da Justiça. Escolheram-me como bode expiatório. Alguém precisa pagar algo neste País. Por que não o ladrão de galinhas? Pura disparidade de um Estado falido de princípios e de moral. A ética do bolo é repartir as gostosas fatias entre os privilegiados do sistema. Para um degredado, para mim, melhor o conforto da prisão ao abandono e à indiferença da liberdade. Na cadeia, pelo menos tenho o que comer, ruim ou bom, em certos horários receberei minha ração; no mundo, não sou nada, não presto para nada, ninguém me enxerga. Meu medo é o meu receio. Condenando-me estarão condenando o meu filho e a minha esposa. Se sou ladrão para a justiça, o que será um filho de ladrão sem um pai no amanhã sem luz? A culpa da minha desgraça é a culpa dos senhores. Todos são culpados por meu crime. Se roubei foi pelo determinismo social que me arrastou feito a um rio bravo montanha abaixo. Meu pai não me criou para ser ladrão, fui criado para ser um cidadão de bem. A droga da divisão mal feita dos recursos da sociedade me obrigou ao resultado da ação. Enquanto os senhores têm muito e de sobra; nós outros não temos nada; pior, perdemos nossa honra para salvar o dia negro que nos devora em vida. Não estou a pedir esmolas, quero apenas que nos deem condição para que possamos ser pessoas íntegras. Como sei que em rio calmo não há revolução; ricos se acomodam nas suas banalidades de uma vida prazerosa; sei também que rio em início de jornada é bravo a ponto de abrir seu próprio caminho, rasgando montes, desbravando florestas; é da pobreza que germina a revolução dos tempos. O grito quem dá é o pobre. Rico murmura banalidades ao pé do ouvido. Se lancei mão de advogado, faço pelo simples fato de não carecer esconder meus erros por trás de leis. Quem necessita de advogado é a pessoa que errou e que deseja safar do barco furado. Furtei o frango, furtei, não nego. Os motivos já expressei. Quanto a minha pessoa e as pessoas do meu filho e da minha esposa estamos nas mãos dos senhores. Façam valer a lei e me promulgue já o veredito.

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Minhas dúvidas, suas dúvidas, nossas dúvidas

dez 16 2016 Published by under Crônica

Não quero escrever minhas certezas, marco o papel com minhas dúvidas. Aquilo que é certo é correto em si e não carece de reboco. O chato do correto é querer que tudo seja certo. A linha reta e constante é tédio puro a ferir os sentidos; correto não é, mas bagunce a linha com subidas, decidas, curvas e depressões e veja a beleza surgir. Com a dúvida tudo muda. Preciso aprender para entendê-la. Quanta atração nos rouba a atenção. Que charme de madame poderosa a encantar com seus magníficos dotes sensuais. A dúvida tem perfume, possui uma pele maleável, há sabores venerados e cores em aquarela sutil. Por isso com minhas dúvidas coloco abaixo todas as certezas ditas certas até então. Sou radicalmente radical quanto à forma e à beleza. Quanto mais torto aos olhos, mais mistério a ser apreciado. Uma certeza jamais suportará o peso cruel e demoníaca de uma dúvida. Se duvida do que digo, pronuncie uma certeza que fervilha lentamente no seu coração, por sinal, sentiu ou não sentiu uma duvidazinha na sua consciência ao tentar apontar tal certeza. Enquanto o homem existir, sua existência será a maior das dúvidas já inventada. Duvidar é preciso sempre para nos manter de pé e disposto a cobrir as dúvidas com papel fino e transparente de certezas. Quem se diz correto, duvida da própria palavra.

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Um pouquinho de Felicidade

dez 07 2016 Published by under Crônica

Felicidade, todo mundo busca, todo mundo almeja, todo mudo quer, mas ninguém sabe como, ninguém conhece o caminho, ninguém nunca a vivenciou. Felicidade é assim, se alguém souber onde ela está, se alguém conhecer o caminho, conte-nos. Pois feliz é todo aquele que sabe o que é infelicidade e a ignora por completo. Se sorrimos ou se choramos, não dá para saber se somos felizes ou infelizes, pois o choro pode ser de alegria, e o sorriso de dor. Como todos perseguem a felicidade com denodo, sempre e eternamente, sabe-se bem pouco dela, alguns lapsos sentimos, logo nos escapam e a busca recomeça. O interessante não é apossar da felicidade, ter ela em uma gaiola como passarinho a nos alegrar a qualquer momento, o interessante é o engajamento de cada um para conseguir as migalhas alucinantes desta doce e inebriante substância que afugenta o tédio vazio da existência ilógica, colocando-nos num patamar racional de interesse por um mundo invisível. Para os que se dizem felizes e vivem inundados numa vida de infelicidade, o sol não deveria lhe incomodar tampouco a noite, bastaria a tolice de suas palavras para perceber o quanto é triste. A fruta da felicidade ao ser comida perde-se o gosto, comendo-se cinco causa enjoou, mais é de uma tristeza a fazer regressar o que o estômago foi obrigado a abraçar. Não se preocupe em ser feliz, sabemos que a felicidade é incompatível com preocupação. Não se preocupe em ser rico. Não se preocupe em ser feio. Não se preocupe em ser pobre. Não se preocupe com nada nesta vida. Se você conseguir não se preocupar, de fato, tiramos nossos chapéus, você é feliz.

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