Archive for the 'Contos' category

Servindo as Forças Armadas a pulso

alistamento_militar

No Brasil a lei obriga o cidadão a servir as Forças Armadas. No passado, há alguns anos, ir para o Exército implicaria sérios riscos. Se necessitasse ter que lutar em alguma guerra, naqueles tempos a iminência de conflitos era grande, a pessoa estaria frente a frente com uma morte prematura. Muitos indivíduos tinham pavor só em pensar sobre um possível alistamento.

Um filho da região do Vale do Paramirim, certo dia, recebeu um comunicado, um documento exigindo a sua apresentação na Capital baiana para se alistar. O homem perdeu o sono, perdeu a fome, teve vários pesadelos.

Neste tempo do recebimento da intimação ao dia aprazado para estar diante ao oficial, ele refletiu sobre uma maneira de se ver livre desse maldito incômodo.

Os dias passaram rapidamente, na data e no horário determinado, lá estava ele sentando, em uma cadeira dura, frente ao general. O relógio marcava dez horas.

- Qual é o seu nome? – indaga o general, encontrava-se de cabeça baixa.

O silêncio acolhia todo o recinto, quebrado apenas por um canto de um passarinho em uma gaiola na parede.

- Qual é seu nome? – volta a perguntar.

O rapaz permaneceu imóvel, olhar fixo para o general.

- O leão comeu sua língua foi? Como você se chama? Não me faça de idiota.

O rapaz apontou com o dedo para o peito, dava a entender que ele tentava se comunicar por códigos.

- O senhor é surdo-mudo?

O homem permaneceu imóvel e com o seu olhar sempre fixo. Por sua vez o general deixou o rapaz sentado e começou a trabalhar com as suas anotações. Volta e meia indagava algo, porém não recebia resposta. Já se passava do meio-dia, a fome tomava conta dos dois.

- Já é mais de meio-dia, estou com uma fome – murmurou o general.

 O surdo-mudo pôs seu plano abaixo, a fome o traiu:

- Eu também – afoitamente disse ele. – Ops! Me dei mal.

- Surdo-mudo! Querendo ludibriar a autoridade? Irá servir o Exército sim, seu cabra! Agora me responda: qual é o seu nome?

- Fulano de tal.

- Não entendi. Fale mais alto. Soletre!

- F-u-l-a-n-o d-e T-a-l.

- Teremos o maior prazer em lhe ensinar boas maneiras. Uma delas é a de não mentir para autoridade nenhuma. A primeira coisa que faremos é a raspagem do seu cabelo.

- Eu não posso ficar aqui. Tenho que cuidar dos meus filhos.

- O surdo-mudo recuperou suas habilidades. Sua esposa cuidará bem deles. Sebastião!

Um rapaz vestido uniforme do exército apareceu rapidamente.

- Leve o homem e dê a ele as primeiras instruções. Espere. Parece que ele está com fome, só sirva o almoço daqui duas horas. É para aprender a não mentir. Agora o leve. Já.

História baseada em fatos reais.

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Perguntas de criança

jan 04 2015 Published by under Contos

filosofo

- Papai, meu coleguinha me perguntou o que eu gostaria de ser quando crescer.

- O que você respondeu a ele, filho?

- Disse que não sabia.

- É normal nesta fase da vida a criança não saber o que será quando crescer.

- Papai, quando o senhor cresceu o que você é?

- Como?

- Eu sou criança? Depois de criança, eu serei o quê?

- Primeiro você se ingressará em uma escola para estudar.

- E depois?

- Depois você irá fazer faculdade, formar-se-á para alguma área do conhecimento universal.

- E depois?

- Depois irá ingressar no mercado de trabalho, trabalhará e ganhará dinheiro. Com o dinheiro comprará casa, carro, qualquer coisa que quiser.

- E depois?

- Depois se casará, terá filhos…

- E depois?

- Depois ficará velhinho. Mas isso aí estar longe, meu filho, não carece se preocupar agora.

- E depois que eu estiver velhinho, o que serei, papai? Fale, não me esconda nada.

- Papai do Céu lhe levará para morar ao lado dele no paraíso.

- E depois?

- Não tem mais depois, é só isso, é o que sei.

- Era isso aí que eu deveria ter respondido ao meu coleguinha?

- Acho que sim, não sei ao certo.

- Papai, eu não quero crescer. É muito chato ser adulto. Parecem robôs, sempre o mesmo caminho, as mesmas babaquices, os mesmos vícios.

- Alguns escolhem a música, outros as letras, mas no fim é tudo a mesma coisa.

- No final irei morar ao lado do Papai do Céu. Quem é esse Papai do Céu? Quem é, papai, quem é o Papai do Céu? Diga-me, quero saber.

- É Deus.

- Deus! Quem é Deus?

- Deus? Boa pergunta. Quem, ou o que é Deus? Filho, eu não sei. Quando eu era pequeno, igual a você, indaguei a meu pai, contudo ele também não soube me dá uma resposta satisfatória. Deus é o Papai do Céu, é isso.

- Todas as pessoas crescem, mas no fundo não aprendem nada. Será se quando eu tiver a sua idade eu ainda não saberei quem é Deus?

- Meu Deus do Céu, esse menino tem espírito de filósofo.

- O que é filósofo?

- Deixe isso quieto, pelo menos por enquanto.

- Por que o senhor está nervoso?

- Nada não, filho. Depois a gente conversa mais. Essas perguntas me deixam tonto.

- Depois o senhor irá me explicar direitinho quem é este tal de filósofo. Gostei muito deste nome, filósofo. Se for algo bom, quem sabe eu não me torne um quando crescer.

- Tudo, menos isso, filho.

- Já não precisa nem me dizer do que se trata, é caso resolvido, serei um filósofo quando crescer. Tchau, papai. Vou responder a pergunta ao meu coleguinha. Agora já sei o que serei quando crescer.

- O que eu fiz?

- Vou ser um filosofo! Um filósofo! Quem sabe até lá eu descubra o que é ser filósofo. Pelo menos o nome é bonito. Filósofo. Estar resolvido, quando eu crescer eu serei um filósofo. Pelo menos um caminho eu já tenho a seguir, buscar o conhecimento, saber do que se trata o filósofo.

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Sonho de Natal

dez 25 2014 Published by under Contos

A vida é um sonho doce regada a momentos amargos. A criança que há pouco veio ao mundo vive mensurada em uma substância entorpecente aos sentidos. Seu crescimento se dá repleto de imagens imaginarias de um mundo desejado, impossível, contudo, de existir nesta pequena parte do universo.

Uma criança perambula pelas ruas de uma cidade qualquer, anda sem rumo, vaga aérea aos perigos animalescos dos humanos. Cada objeto é uma nova descoberta. As páginas do grande mostruário se abrem uma a uma. Como esse pequeno ser apareceu? De onde surgiu? Indagações difíceis de respostas.

A pequena e frágil criança cresce ao sabor das vitaminas das migalhas recebidas. Seria um passarinho que não se importa em poupar? Vive cada dia como se o fosse a única alternativa a ser enfrentada. Um homem piedoso lhe oferece um pão, outro lhe dá um copo de suco, outro a presenteia com um lascado desaforo, outro sequer a nota. Como passarinho segue seu viver sem muito se importar com o que os demais seres pensam ou fazem, essa pequena ave só não consegue cantar tampouco voar.

- Olhe! Alguém está ali – a criança fala a si mesmo. – Vou me aproximar. Quem será?

Outra criança estava a brincar, feliz e sorridente, alegre com suas imaginações pueris. Uma pequena esfera o animava, corria de um lado ao outro.

Dois olhos pararam naquela singela cena, sequer piscavam, eram apenas contentamento. Por um instante ficou inerte, acabado esse ao receber um sorriso daquele que se divertia. Não ousou perguntar, esperava ansioso, queria participar da brincadeira. Tímido se postava na retaguarda, tinha medo, tinha receio de ser advertido.

- Quem é você? – o garoto com a bola na mão aproximou-se.

- Eu?

- Sim, quem é você? Quero dizer: qual é o seu nome?

- Não sei.

- Como assim não sabe? Toda criança tem um nome. Eu me chamo Moisés, meu pai se chama Fabiano, minha mãe é a Fátima. E você, como se chama?

- Não tenho nome.

garoto-jogando-bola- Quem são seus pais? Por que eles não lhe deram um nome?

- Eu não tenho pai, nem tampouco mãe.

- Todos nós temos pais e mães.

- Pois eu nunca tive.

- Onde você mora?

- Eu vivo pelas ruas.

- Pelas ruas? Nunca pensei que uma criança pudesse viver pelas ruas. Como faz para comer?

- Quando recebo comida de alguém. Sempre têm pessoas que me oferecem pão e suco. O que é isso aí em suas mãos.

- Uma bola. Foi o Papai Noel do ano passado que a me deu.

- Papai Noel! Quem é o Papai Noel?

- Quer dizer que você não conhece o Papai Noel? Quer dizer que você nunca ganhou um presente do Bom Velhinho?

- Nunca. Quem é o Bom Velhinho?

- O Bom Velhinho é o apelido do Papai Noel. Já fiz minha cartinha para o Papai Noel deste Natal. Nela coloquei que quero ser presenteado com uma bicicleta, um jogo de dados e um carrinho de controle remoto.

- Como faço para mandar uma cartinha ao Papai Noel?

- Não sei. A minha eu dei meu pai para que ele a entregasse ao Papai Noel. Como você não possui um pai, quem irá levar sua carta. Acho que você deverá ir pessoalmente até o Papai Noel.

- Mas eu não sei onde ele mora, não sei como ele é. O que eu faço?

- O Papai Noel possui barba branca, é velho, tem um gorro vermelho na cabeça, leva nas costas um saco cheio de presentes. Ele possui também um trenó, esse é puxado por seis renas. O Bom Velhinho vem do Polo Norte, entra em nossa casa pela chaminé, coloca ao pé das meias na janela os pedidos das cartas.

- Eu vou ter que encontrar este tal de Bom Velhinho. Preciso fazer um só pedido a ele. Como quero.

- Meu pai está me chamando. Tenho que ir. Tchau.

O garoto que andava sem rumo agora tinha algo a buscar. Um sonho crescia em sua mente. Tinha que encontrar o Papai Noel. Ele que vivia feito passarinho, perdera a paz, um desejo louco lhe tirava o sossego, cobra-lhe um quinhão do seu precioso tempo. Saiu a andar… Seus olhos atentos buscavam alguma pista.

Andou por várias ruas, de repente, ao longe vislumbrou um ponto vermelho. Só poderia ser ele. Adiantou os passos, dos lábios fugia um gostoso sorriso. Logo avistou a longa barba, o gorro, as botas, o saco de presentes, o trenó, as renas.

- Papai Noel! – gritou o garoto enquanto corria em direção ao seu prêmio. – Papai Noel!

Parou defronte a uma vidraça. Na vitrine estava sua busca, lá dentro descansava o Bom Velhinho ao lado das renas.

- Encontrei você! – gritou o garoto.

Algumas pessoas que passavam ao redor olharam curiosas, seguiram, porém, seus destinos.

O garoto estava fascinado com a figura do Papai Noel. Pelos bonitos olhos castanhos lágrimas brotaram e molharam o rosto.

- Papai Noel, eu estou aqui para lhe pedir um presente. Sei que o certo é lhe enviar uma cartinha com os pedidos, sei que o senhor entrega os presentes pela chaminé da casa, mas como não tenho casa e sequer sei escrever, faço da minha voz o meu único meio de comunicação. Sou pobre, vivo pelas ruas.

Chorava copiosamente o pobre garoto. Ajoelhado, com o rosto na direção do rosto do Papai Noel, de mãos juntas como se estivesse rezando, rogava em pranto:

- Papai Noel, eu não quero bicicleta, não quero bola, não quero brinquedo… Papai Noel, venho lhe pedir um pai, uma mãe. Quanto desejo ter uma família. Por favor, Papai Noel, dê-me uma família.

O Papai Noel continuava a sorrir para o garoto. O menino esperava uma resposta, mas ela não vinha, esperava, enquanto isso não parava de chorar, chorava copiosamente.

- Me dê um pai, Papai Noel! – gritava o garoto desesperadamente.

Uma mão tocou o ombro da criança, ela se assustou, por um segundo voltou a normalidade.

- Garoto, não chore.

A criança virou e viu um senhor barbudo de baixo para cima, por um momento pensou que estava diante do Bom Velhinho.

- Papai Noel, é você?

- Não, meu jovem, eu não sou o Papai Noel. Mas foi o Papai Noel quem me mandou até aqui para conversar com você.

- Ele vai me dá um pai?

- Ele ouviu suas súplicas. Ele me disse que você estava com fome, pediu para que eu lhe desse este lanche e este refrigerante. Mate a sua fome, você precisa se alimentar.

- Eu quero ganhar um pai – chorava o menino. – Não estou com fome.

- Não discuta com os pedidos do Papai Noel. Garoto, ele conhece cada um de nós. Ele me disse que sua busca está apenas no começo, seu pedido é muito complicado, carece de tempo. No momento coma. Depois siga sua viagem, procure por outros Papais Noel, um deles estará lhe esperando com o presente de que tanto deseja. Não deixe nunca seu sonho apagar.

- Obrigado, senhor.

- Não chore.

- Você quer ser meu pai, senhor?

- Até que gostaria muito, mas já sou velho, estou preste a partir deste mundo. Você precisa de um pai novo.

- Ninguém quer ser meu pai. Todas as crianças têm pais, somente eu que não tenho. Seja meu pai, senhor.

- Não posso. Siga seu destino. O Papai Noel lhe dará um pai no momento certo. Tenho que ir. Até mais.

O homem se perdeu na curva da esquina. O garoto sentou ao pé da vitrine, abriu o saco e começou a devorar o lance afoitamente, estava faminto, porém havia se esquecido da fome. Após comer tudo, recolheu o lixo e o colocou na lixeira, voltou, ficou frente a frente com o Papai Noel que não cansava de sorrir.

- Obrigado, Papai Noel. O lanche estava uma delícia. Vou procurar os seus irmãos.

Saiu a vagar pelas ruas da cidade. Andava feliz da vida, tinha lá no interior da alma a esperança que ao final as peças do quebra-cabeça se colocariam nos seus devidos lugares. Algo lhe aporrinhava: por onde começar a procurar. Olhava aos quatro cantos. Qual direção seguir? O sorriso sumiu dos lábios, o rosto voltou ao da preocupação. Aflito procurava pelo Papai Noel. Resolveu seguir o caminho que o nariz apontava. Há de me levar a algum lugar, pensava o garoto.

Ao longe avistou uma garota sentada num banco em um jardim de uma bela praça, ao lado de um pequeno lago artificial. Quem será? Voltou a se locomover, devagar, passo a passo. Ao chegar próximo à jovem, parou e ficou a contemplá-la. Ela estava entretida na sua leitura que sequer notara a aproximação dele. O garoto assoviou roubando-lhe a atenção.

- Quem é você? – indagou a jovem.

- Não tenho nome. Mas deixe isso para lá. Estou procurando pelo Papai Noel?

- Como assim procurando pelo Papai Noel?

- Preciso muito encontrá-lo. Tenho que fazer um pedido a ele?

- No ano passado o Papai Noel me deu uma coleção de livros, por sinal este que estou lendo faz parte dela. Sente-se. Deixe-me ler uma poesia para você.

crianca-lendo- O que é poesia?

- É quase uma música, porém recitada. Vou recitar a poesia do Cão Negão.

*

Meu querido cachorrinho

Quatro patas brancas

A cor se repete no focinho

O marrom toma toda a pança.

*

Animal bravo de dá medo

Corre atrás dos meninos

Late à noite ao ermo

Rasga a carne com seus caninos.

*

Dei-lhe um nome de cão

Nasceu na noite sem lua

Por isso o chamo de Negão

Hoje o rei das ruas.

*

Cão muito obediente

Faz tudo que mando

Como se fosse gente

Às vezes me deixa em planto.

*

- Você sabe onde eu posso encontrar o Papai Noel? Preciso fazê-lo um pedido.

- Qual é o pedido que você fará a ele?

- Vou pedir um pai e uma mãe.

- Quer dizer que você não tem nem pai e nem mãe? Como pode uma criança viver sem os pais? Meus pais fazem tudo que peço. Qualquer presente que desejo, eles têm que me dá. Se disser que não, eu choro muito, grito, esperneou, se for preciso os bofeteio até que cedam aos meus caprichos.

- Como eu quero ter um pai… Não o pediria nada, apenas queria ter um. Como pode você fazer essas barbaridades com seus pais?

- Você não viu nada. Eu mando lá em casa. Onde você mora?

- Moro na rua. Lembro-me que morava mais uma senhora em uma casa, mulher ruim, brava, cobria-me de pancadas diariamente. Certo tarde, ela me cortou no correão, sair louco pelas ruas, nunca mais voltei. É bem melhor viver nas ruas que na residência daquela bruxa.

- Se minha mãe pensar em triscar a mão em mim, nem sei do que sou capaz.

- A bruxa era forte, eu não tinha nenhuma chance com ela. Preciso ir, tenho que encontrar o Papai Noel, só ele para me ajudar.

- Nas lojas logo à frente têm vários Papais Noel, quem sabe não é um deles o que você procura. Só que até hoje nunca vi um Papai Noel de loja falar.

- O Papai Noel me dará um pai, eu sei que ele será gentil comigo.

- Vou recitar mais uma poesia para você, desta vez a da esperança.

*

Quem procura o que deseja

Sem desânimo e com ânsia

Um amor, um filho, um emprego

O que seja

Um dia alcança.

*

Quem procura incessantemente

E carrega no peito a esperança

Confiante na vitória

Trota, vacila, tropeça

Confiante

Sempre com visão futura anda.

*

Se ainda não encontrou

No Brasil, na China ou na França

Mantenha o foco no sonho

Seja guerreiro destemido

Persevere

Mantenha a confiança.

*

- Essa poesia parece que foi feita para você. Não desista do seu sonho, persista, mantenha o foco e a confiança.

- Obrigado pelas bonitas palavras. Vou à busca do Papai Noel, ele me dará um pai.

- Tenho que ir, meus pais me esperam. Tomara que voltemos a nos encontrar um dia. Gostei muito de você. Tchau.

- Tchau. Qual é seu nome?

- Samira.

O garoto voltou a vagar pelas ruas. A noite começava a ganhar a batalha contra o dia e no seu lento andar lançava sobre esta parte do globo seu enorme cobertor. Após andar bastante, cansado pela longa jornada, a criança apanhou alguns papelões, deitou no seu berço macio debaixo de um banco qualquer de uma praça. Adormeceu exausto acalentando o desejo de encontrar o Papai Noel que lhe presentearia com um lindo diamante, um pai.

Onde estou? Quem é você? Papai Noel! Onde está meu pai? Por que você não me diz nada? Fale comigo.

O Papai Noel balançava para frente e para trás como uma cadeira de balanço. O garoto encostou-se ao boneco, a mão o derrubou ribanceira abaixo, caiu de rosto na neve, sentia falta de ar, estava morrendo afogado na neve branca.

O garoto assustou suado e trêmulo.

- Onde estou?

Ao reparar no ambiente, refletiu que esteve sonhando. Ao seu lado um cão servia-lhe de travesseiro. O pobre animal o olhou piedoso e balançou o rabo várias vezes. O garoto levou à mão a cabeça do cachorro e o fez um dengo.

cachorro- Qual é o seu nome? Não tem nome? Deve ser igual a mim, também não possui um pai. Já sei como vou lhe chamar. De hoje em diante será Negão, o cão da poesia da garota Samira. Eu não tenho pai, você certamente também não, mas de hoje em diante terá um dono, um amigo.

Os dois pareciam já se conhecer de longas datas. O garoto acariciava o animal e recebia em troca latidos de alegria. Saíram pelas ruas a competir com os beija-flores o posto dos seres mais felizes naquela bonita manhã. Por certo período, esqueceu-se da perseguição que travava na busca de encontrar o Bom Velhinho.

Ao ver um senhor comendo pão e saboreando um café fumegante, lembrou-se, ou o estômago o obrigou a se lembrar de que o corpo necessitava de alimento. Sem notar se perdeu na imagem daquele pão que o senhor segurava. Ao perceber a fome da criança, o idoso o chamou para uma conversa.

- Olá, criança. Vejo que tem fome. Quer tomar café comigo?

- Quero. O senhor pode dá um pão para o meu amigo.

- Onde está seu amigo?

- Olhe ele aqui ao meu lado. Encontrei este cãozinho esta noite. O senhor sábia que o nome dele é Negão. Você tem pai?

- Já tive pai, mas ele já foi morar com Deus.

- Onde fica morar com Deus?

- No céu.

- Será se meu pai está nesse lugar.

- Você não tem pai?

- Estou procurando por ele, mas primeiro tenho que encontrar o Papai Noel.

- Por que o Papai Noel?

- Ele me dará um pai.

- Como e beba. Alimente também seu cão. Se amanhã você ainda não tiver encontrado o Papai Noel e se você com o seu cão estiverem com fome, volte a este estabelecimento, aqui eu estarei.

- O senhor é uma pessoa boa. Quer ser meu pai?

- Não posso, já tenho uma família. Mas se você não encontrar seu pai, eu juro que lhe darei uma família. Tenho que ir, o trabalho me espera. Sucesso na sua busca.

- Obrigado por me ajudar.

O garoto despreocupado com a fome voltou a vagar em busca do seu objetivo maior. Enquanto andava pelas ruas, brincava com seu cãozinho. A felicidade do mundo todo morava nos corações daquelas duas criaturinhas.

O garoto avistou um homem barbudo encostado em um poste. Aproximou-se para indagá-lo. O cão escolheu outro caminho.

- Senhor, preciso encontrar o Papai Noel.

- Todos nós precisamos. Sei onde ele está.

- Sabe?

- Você quer mesmo encontrar o Papai Noel? Vou lhe levar até ele.

homem O homem caminhava à frente e o garoto vinha logo atrás.

- É só a gente entrar naquele corredor e mais adiante encontraremos a casa do Papai Noel. Para que você quer mesmo encontrar o Papai Noel?

- Vou fazer um pedido a ele. Vou lhe pedi um pai.

- Um pai. Quer dizer que você não tem pai? O Papai Noel é uma pessoa boa, ele irá sim lhe dá um pai. Apressem os passos.

Ao adentrar no corredor, o homem rápido feito um falcão agarrou o garoto e o colocou debaixo do braço.

- Você não queria um pai? Eu serei seu pai. Você irá trabalhar para mim na fazenda. Já tenho uns cinco garotos, você será mais um.

- Não me leve senhor, eu preciso encontrar meu pai. Solte-me, por favor. Solte-me.

- Não adianta seus pedidos, seu destino está traçado.

- Socorro! Socorro!

- Não adianta gritar, ninguém virá lhe ajudar.

Somente a imagem do cão veio à mente da criança, então ele gritou forte, alto, com toda força que tinha no peito:

- Negão, socorro! Negão, socorro!

- Poupe a sua voz. Aiiiiiiiiii! – berrou o homem.

Uma boca feria a batata direita da perna do malfeitor.

- Saia de mim, desgraçado! – gritava o homem furioso. – Saia!

O cão o segurava, sangue começava a escorrer. Não tendo outra opção, o homem soltou o garoto. A criança na agilidade de um felino saiu a correr, deixou o corredor, enquanto partia, gritava.

- Vamos, Negão, corra! Corra, Negão! Corra!

Os dois se vendo livres das garras do importuno homem, ofegantes, cansados, ao sentir o conforto da grama do jardim da praça deixaram seus corpos caírem em um delicioso descanso.

- Foi por pouco, Negão. Quase aquele homem nos fariam prisioneiros. Vamos descansar alguns minutos. Só um pouco! Depois voltaremos a procurar o Papai Noel.

Tão logo levantaram, tão logo voltaram a andar. O garoto com sede foi até uma fonte e se empanturrou de água, o cão fez o mesmo, um ao lado do outro.

- Vamos, Negão, vamos encontrar o Bom Velhinho.

Perambularam pelas ruas até o entardecer, o desânimo apossava do coraçãozinho da criança, aos poucos a esperança desaparecia, o pavor crescia como erva daninha pelo corpo. Choramingava, soluçava, enquanto rompia, seus olhos fixos a observarem o chão.

- Negão, nunca irei encontrar o Papai Noel. Nunca terei um pai, Negão. Por que tem que ser assim? Eu só quero um pai. Todas as crianças têm pais. Eu quero um pai!

A noite já reinava absoluta, o frio obrigava as pessoas a se abrigarem em casa, o vento sacolejava as copas das árvores, papeis voavam de um lado a outro.  Na rua, somente os dois peregrinos, a criança e o cão.

- Qual direção seguir? Não tenho casa. Não tenho família. O que será de mim? Ainda bem que tenho você, Negão. Você me salvou das garras daquele homem.

papaiO garoto ia se entristecendo à medida que a quietude da noite se agigantava. O caos apertava o peito do jovem como se quisesse arrancar o coração de dentro. Ele chorava, ele gemia, ele molhava o rosto com as lágrimas do desânimo.

Sentou em um banco e ficou chorando em soluços. Uma voz lhe tirou daquele estado fantasmagórico de espírito.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

Passados dois minutos, novamente a voz vinha quebrar a calmaria local.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

- Você ouviu isso, Negão?

O cachorro acenou positivamente com a cabeça.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

O garoto correu sorridente em busca da pessoa que emitia aquele som. Parou atônito, um largo sorriso lhe estampou no rosto, os olhos brilharam como as estrelas no céu. A esperança afogava seu peito.

- Negão, Negão, encontramos o Papai Noel!

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

- Papai Noel, estou aqui para lhe pedi um presente. Papai Noel, por favor, dê-me um pai.

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente.

- Vamos sentar neste banco e esperar pelo presente. Negão, eu vou ganhar um pai.

Os dois ficaram sentados a esperar. A madrugada aumentou o frio, mas para o garoto o que importava era apenas o presente que iria ganhar. Mesmo com toda a demora, sempre a escutar o Papai Noel dizer a frase, ele se animava, no fundo carregava a chama da esperança no âmago da alma.

O garoto começava a cochilar, uma luz, um barulho. Levantou-se os olhos devagar, vislumbrou um carro parar defronte a ele. O vidro desceu, dentro um rosto ganhou forma, era um homem. Será se eu estou sonhando, pensara o garoto.

- Pedrinho, é você?

- Não sei. Não tenho nome.

- Até que fim eu o encontrei! Há quanto tempo lhe procuro, Pedrinho.

- Quem é você?

- Você era apenas um menininho, quando ela lhe tirou de mim. Sou seu pai.

- Meu pai!

- Vou o levar para minha casa. Vamos. Pedrinho, Pedrinho, você não sabe o quanto estou feliz.

- Posso levar meu cão?

- Pode levar tudo que você quiser.

- Negão, Papai Noel me deu um pai!

Abraçou o cão carinhosamente. Voltou para a vitrine onde o Bom Velhinho estava e disse:

- Obrigado, Papai Noel, o senhor me fez a criança mais feliz do mundo. Como estou feliz. Tenho um pai, tenho um pai!

- Por favor, criança, sente-se ali e espere pelo presente – o Papai Noel continuava a falar sua rotineira frase.

abraco O pai segurou a criança que estava segurando o cão e o levou em direção ao céu, a criança fez o mesmo com o animalzinho.

- Obrigado, Deus, por ter encontrado meu filho.

- Obrigado, Papai Noel, por ter me dado um pai de presente.

O cão olhando as estrelas rosnou em agradecimento por ter encontrado uma família.

Antes de partirem, sentaram os três no banco, a crianças questionava tudo.

- Como o senhor sabe que eu sou seu filho?

- Vou lhe contar toda a história.

- Sua mãe faleceu no seu parto. Quando você tinha um ano de vida, eu voltei a me casar, desta vez com a irmã da sua mãe. Ela era muito ciumenta, certo dia, eu não estava em casa, ela tomou você dos braços da babá e o entregou a alguém que não a conheço. Desse dia em diante, minha vida se transformou num inferno sem fim. Com a pressão para sabermos do seu paradeiro, a pobre mulher enlouqueceu, hoje se encontra em um hospício. Comecei a lhe procurar, já são quase três anos nessa luta. Hoje de manhã, ao passar por uma rua desta cidade, um homem acenou as mãos para mim várias vezes, parei o carro. Ele me perguntou se eu estava procurando por uma criança, disse que sim, ele me avisou que tinha conversado com uma criança que pedia desesperadamente ao Papai Noel por um presente e que o presente era um pai. Naquele momento fui tomado de uma luz interior, algo me dizia que o garoto era meu filho, mas antes de partir indaguei ao senhor o nome, ele me disse “Noel”.

- Como?

- Como o quê?

- Qual é mesmo o nome do senhor?

- Noel.

- Papai Noel! Eu sabia que ele me daria como presente meu pai. Foi o Bom Velhinho que nos uniu novamente.

- Eu não tinha pensando nisso. Noel! Só pode ser um milagre. Como ele ficou sabendo que eu procurava por meu filho?

- Obrigado, Papai Noel! – gritou o garoto fitando as estrelas.

O pai emocionado e em lágrimas também agradeceu da mesma forma:

- Obrigado, Papai Noel.

Ao terminarem, o cão ergueu o focinho para o alto e uivou em agradecimento.

- Até o cão agradece ao Papai Noel por ter encontrado uma família. Vamos filho, vamos para o nosso lar.

- Vamos, Negão, vamos para o nosso novo lar.

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Consulta médica

consulta

- Não estou me sentindo bem. Uma agonia dos diabos. Queima tudo por dentro.

- Por que você não procure um médico?

- Um médico? Sei não. Será se ele descobre o que eu estou sentindo?

- Claro, pois é um médico. Se ele não descobrir, passe então a procurar os serviços especiais de um bom curador.

- Fale-me um bom médico aí. Quieta com curador!

- Dr. Fulano de tal.

- Vou lá agora mesmo. Sei onde ele trabalha.

O rapaz saiu, deixou o amigo sozinho.

- A doença sua todo mundo já conhece: cachaça – murmurou, enquanto o amigo descia vacilante pela rua.

O homem adentrou pelo consultório médico, sequer bateu a porta.

- Doutor, estou aqui para fazer uma consulta com o senhor.

- Sente-se, por favor.

- Pois não, doutor.

- O que o senhor está se sentindo mesmo?

- Como? Eu venho até aqui para descobrir a causa do que me aflige e o senhor vem me perguntar o que eu estou sentindo. Quem é o médico aqui é o senhor, e não eu. O senhor é que tem que saber a causa da minha agonia. O senhor não sabe é de nada. Perdi meu tempo vindo até aqui. Vou embora. Fique com Deus. Médico de meia tigela.

Uma pequena história que aconteceu na região do Vale do Paramirim baseada em fatos reais. Preservamos os nomes dos atores do ocorrido.

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Pisca, pisca no espaço

nov 15 2014 Published by under Contos, Crônica

ceu_estrelado

Estava eu metido nas minhas confusões da mente em uma madrugada de um dia qualquer. Deitado eu me encontrava em minha cama macia e cheirosa a observar pela janela aberta o céu. Algumas estrelas acenavam para mim. Piscavam como se quisessem me namorar, namorávamos a distância, perdia-me nos seus brilhos, nos seus mistérios. Por alguns minutos fiquei distraído, absorto ao mundo, meus olhos eram de certa estrela, apenas dela. A paixão é linda, mas acorrenta; entorpece, todavia nos faz prisioneiro.

A estrela por um instante perdeu seu posto de rainha, meus olhos passaram a consumir uma nova imagem, menor na importância, contudo usurpou a paixão do outro ser. O amor às vezes nos prega peça, quando tudo parece eterno, balde de água gelada.

Uma luz a piscar constantemente correu pelo céu. De imediato notei que se tratava de um avião, ia longe, na altura do horizonte, quase a perder na imensidão da distância. Foram poucos minutos de contemplação, no entanto acendeu em meu peito o fogo do pensamento. Meu cérebro se comunicava com o meu coração, este amoroso e passional, aquele racional na sua fiel estrutura.

Se esta mesma cena fosse vista nos tempos pretéritos, quais consequências teriam? Na pré-história, o homem em formação apontaria para a luz que piscava no céu e correria para a caverna mais próxima tomado pelo pavor, passaria a cultuar aquele sinal. As civilizações da Grécia, do Egito e dos Astecas adotariam como Deus aquele objeto não identificado. Da Vinci olharia cientificamente e assinalaria os extraterrestres como autores de tal façanha.

Um simples episódio dos dias atuais seria verdadeira bomba atômica em períodos anteriores. O celular que estamos tão habituados, há cem anos o taxaria de loucura dos cientistas. Até onde a humanidade poderá ir? Quais as surpresas que nos aguardam nas linhas futuras do tempo?

Estou aqui deitado a matutar, por este mundo milhares se perdem nos seus interesses. O avião que passou carrega em seu interior pessoas, algumas dormem, outras se divertem, talvez alguma olhem para certo ponto e indaguem o porquê de tudo isto. Ela a voar sobre as cidades, no chão milhares de seres a buscar o sustento, a dançar, a estudar, a comer, a namorar, a nascer, a morrer… A linha da evolução gira constantemente sobre si mesma, cada badalar do ponteiro uma nova flor se abre, a engrenagem não pode nunca estacionar, por isso há mudanças constantes.

O aviãozinho passou quase despercebido, neste mundo não há anonimato, sempre tem um a observar. O brilho das suas luzes voavam aos quatro cantos, luzes foram criadas para serem vistas, quando aparecem não consigo ficar sem contemplá-las.

O avião seguiu seu caminho, sob os brilhos das estrelas fui lançado ao mundo dos sonhos, dormi sem perceber; as estrelas voltaram, estavam mais bonitas, brilhavam intensamente; sonhava em conhecer outros mundos viajando em um avião, ao acordar na realidade me dei conta que tudo se faz possível, que se algo existe hoje é porque alguém delirou no passado.

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O analfabeto

nov 13 2014 Published by under Contos, Crônica

analfabeto

A vida proporciona aos seres humanos milhares de oportunidades, muitos apenas podem seguir por certo corredor estreito, sequer a cabeça eles conseguem se movimentar, são escravos de uma única linha.

- Dr. Professor, quero falar com cê.

- Pois não. O que deseja mesmo de mim?

- Como?

- Pode falar.

- Dr. Professor, preciso escrever meu nome. Disse que eu preciso.

- Qual é o seu nome?

- João.

- Só João? E o sobrenome?

- Ser João já é difícil, tá bom assim.

Um garoto, que assistia a conversa ao lado, gritou:

- Eu sei escrever João. Já escrevo meu nome todo. Meu pai me disse que quem não sabe ler e nem escrever é um burro.

- Os homem fala que eu sou burro, mas eu não tenho as orelha grande e nem casco. Por que será?

- Você não é burro, apenas não teve a oportunidade para estudar – disse o professor.

- Olhe para mim – fala a criança. – Sou tão pequena e já sei mais que o senhor, um homem velho.

- Ocê já foi pra escola, eu só sei o que é machado, foice, enxada, isso sim sou bom. Nasci no mato, cresci correndo atrás de preá, depois meu pai deu um machado pra eu.

- O senhor sabe as continhas? – indaga a criança.

- Sei não. Na fazenda só sei contar um, dois e três boi, mais é um bocado, tantão, boiada. Aqui tem um, dois, três, lá tem um tantão, – apontou para a sala de aula repleta de alunos –, uma boiada.

- Você precisará se esforçar muito para aprender – disse o professor.

- Olhe minhas mão, tantão de calo, uma boiada. Quero saber os número. Fui na onde vende pão, levei uma moeda, cinco pão o homem colocou na capanga, sair, na porta ele gritou, deu a eu duas moeda, disse que era troco. Fiquei feliz, dei uma, ganhei cinco pão e duas moeda. No outro dia, pedi cinco pão, e dei uma moeda, o homem disse que não comprava um, dei a outra moeda, ele deu um pão e deu duas moeda pra eu. No outro dia ele disse que as moeda só comprava uma bala doce. É muito doido, não sei de nada, olho para as moeda é tudo igual, o homem diz que não é igual, chama eu de burro, de jumento, fala pra eu estudar. Pedi ele cinco pão porque vi outro home pedi, toda vez cinco pão, é bonito falar cinco, o cinco pão é um tantão, uma boiada, enche a barriga dos bacurau lá do rancho.

- Vou lhe ensinar as letras e os números – asseverou o professor.

- Dr. Professor, não quero ser burro, quero fazer o nome, quero saber depois do três, a vida de burro é ruim, sofre sem saber.

- Seu João, amanhã eu vou lhe ensinar as vogais.

- Eu já sei escrever as vogais: a, e, i, o, u – disse a criança cheia de si.

- Ocê ensina eu, menino?

- Mas eu não sou professor?

- Ocê sabe, ensina eu, não quero ser burro.

- Pode deixar comigo, seu João, eu mesmo irei lhe ensinar – disse o professor.

- Não tenho nada pra dá ocê, Dr. Professor. A roça foi ruim, perdeu o feijão, a vaca morreu de sede, só desgraça na vida.

- Não me dê nada. Farei por amizade.

- Quando as coisas eu saber, serei feliz. O homem falou quem sabe as coisas não passa fome. A fome dói demais, Dr. Professor, quero fome mais não.

- Quieta tio… – disse o garoto sorrindo – Meu pai me disse que papagaio velho não aprende a falar.

- Vá se sentar no seu lugar – ordenou o professor. – João, amanhã você volte para começarmos.

- Não sei.

- Por que não sabe?

- Ensina meus bacurau? Sou burro, sou papagaio velho, vivo com fome e com sede, aguento. Os bacurau precisa aprender, não quero que sofra igual eu.

- Venham todos. Onde come um, come dois, come cinco.

- Não sei como agradecer. Dr. Professor é gente boa, até comida vai dá nóis. Inté, Deus ajude ocê, Dr. Professor.

- Vá com Deus, João. Espero o senhor e os seus filhos amanhã.

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Lição para a vida

nov 10 2014 Published by under Contos, Crônica

Quando lhe encontrei, coisa estranha, linhas e mais linhas, letras aos milhares, uma porção de páginas. Quando lhe encontrei, não foi amor à primeira vista, obrigação a mim imposta. Quando lhe encontrei, como quis fazer uso do fogo, ou de um lago profundo. Quando lhe encontrei, uma tempestade, corda para amansar o instinto deste burro bravo.

Comecei a percorrer minha estrada, sem gosto, sem prazer, executava uma obrigação. De início, confesso-lhe que foi complicado, arranhava, pulava, não entendia, voltava, tentava seguir, a cabeça, literalmente, fervia. Como tinha uma tarefa a realizar, como gosto de cumprir com a palavra, prosseguia vacilante com minha pesada cruz incrustada na mente.

Da aspereza dos polos, aos poucos não é que brotou um sentimento nobre, a revolta se converteu em amizade, com o tempo se transformou no mais puro e singelo amor. Amava aquele objeto, queria tê-lo constantemente, apaixonado ia para cama e acordava ao lado dele, união das duas partes em um todo. O costume moldou-se um novo hábito.

Hoje perco tempo contemplando meu sucesso. O que seria de mim na sua falta? Como esse amor me fez mudar, não direi da água ao vinho, mas da lama a chuva. O frescor da água, a limpidez, o cheiro sem cheiro, a cor sem cor, algo inexplicável, algo incomparável. Cresci e agradeço ao meu Professor, vários Professores, cada um à sua maneira, com o seu jeito particular de nos ensinar, de nos propor soluções até então estranhas a nós.

Falo dos milhares de professores mudos que vagam pela Terra, muitos perdidos nas estantes, prateleiras, malas, bolsos, livrarias, bibliotecas… O que dizer do poder impactante do Livro. Que sabedoria. Mudo por natureza, pronto a ensinar quem seus códigos conseguem decodificar. As carreirinhas de palavras a formarem enunciados, a dizer o que não conhecemos e o que já nos foi dito de uma nova maneira.

O gosto pela leitura se inicia quase sempre por imposição ou necessidade, com o tempo o dever passa a familiaridade de um ente querido, com mais idade vira obsessão, um amor eterno.

Amar os Livros, para obter a sabedoria.

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Caçador maldito

set 11 2014 Published by under Contos

Como posso confiar no futuro, se ao meu redor apenas há tristeza e destruição? A vida tem suas maldades, seus fins em si mesmo, suas loucuras…

Dois caçadores pararam seu carro rente a um curral, debaixo de uma árvore, desceram e apanharam seu arsenal no porta-malas. De armas nas mãos, dirigiram-se para a tocaia. Sentaram cada um em uma das galhas de um velho umbuzeiro. Com toda paciência do mundo esperavam sem pressa as pombas juritis, eram pescadores de pássaros. Não importava o quanto gastavam para colher seus objetivos; dez contos da munição, dez do combustível, um dia inteiro perdido, outras coisas mais. Não seria melhor comprar um frango no comércio, coisa de dez contos, e fazer o almoço do dia? Mas o gosto pela morte, pelo apertar do gatilho, por ver tombar a presa morta, isso sempre a falar mais alto, faz os olhos faiscarem de contentamento, para eles não têm preço.

Após dez horas de muita espera, um casal de pombas assenta sobre as galhas da mesma árvore, sequer desconfiava dos lobos à espreita, mal sabia que o cheiro de morte impregnava o local, que o fim poderia está bem mais próximo do que a vida supunha lhe oferecer. Um dos caçadores piscou o olho direito para o companheiro, levantou a arma, escolheu a mais gorda, mirou, deferiu-se o tiro. Um pipoco, o projétil viajou rasgando o ar, acertando em cheio a cabeça do pássaro tamanha era a pontaria do atirador. A outra pomba debandou rapidamente sem rumo.

A pomba esburacou já morta no chão duro. O homem desceu da galha, apanhou seu alimento e o colocou na capanga. O habito dos dois caçadores continuou, eles voltaram a esperar outras pombas, o objetivo era um só, matar. Matavam por matar, por diversão, por achar que tudo isso são normalidades triviais da natureza.

A outra pomba voltou ao ninho, era o macho. Esperava impaciente pela chegada da parceira, não conseguia imaginar, pois pombas não são dotadas de tal atributo, que a morte abraçou a companheira. A pomba voava, circulava pelas redondezas, cantava, cantava, retornava ao ninho, repetiu esses movimentos uma poção de vezes.

Três ovos estavam quietos, dentro as sementes tentavam germinar. Cadê o calor? Sem a quentura do corpo da mãe os pobres seres seriam privados da luz ainda no início da vida. O macho não possuía o instinto materno, não era dele essa atribuição. Se soubesse raciocinar, certamente chocaria os ovos, mas vivia apenas sobre os efeitos impostos pela natureza. O destino dos ovos estava traçado assim que o tiro acertou a cabeça da pomba mãe; sem forças para vencer a casca, sem o calor necessário para se fortalecerem, murcharam sem antes cumprir com a trajetória natural.

A pomba solteira aos poucos se afastou do local, precisava-se alimentar, tomar água. Os ovos viraram comidas para outros pássaros. A pomba guiada pela luz da sua alma cumpria com a resolução, vivia e fazia o mundo girar conforme suas obrigações. Não sentia dor, não sentia saudade, não sentia ódio, sequer sabia que existia vida e morte; se não via mais a companheira, apenas um desconforto e uma mudança de hábitos, para o animal o que importava e lhe cumpria realizar era as atribuições perante o cosmo.

As pombas não são como os humanos.

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Devo e não pago, a amizade que se lasque

set 05 2014 Published by under Contos

- Compadre, há quanto tempo.

- Já faz um mês que não venho em sua residência, compadre.

- E aí, como andam as coisas?

- Compadre, para ser bem sincero, mais ou menos.

- O que foi que aconteceu, compadre?

- Foi por isso que estou aqui. Preciso de quinhentos reais emprestados, tenho uma divida a vencer hoje, se eu não pagar, pagarei um juro alto. O compadre tem para me emprestar?

- Tenho oitocentos reais guardados para quitar uma prestação no próximo dia vinte.

- No dia dez eu garanto que você estará com o seu dinheiro em mãos.

- Se for assim.

- Se não for pedir muito, passe-me os oitocentos.

- Mas o compadre não só carece de quinhentos?

- Tenho outros negócios pendentes na praça. Dia dez eu irei receber mil e duzentos reais.

- Amigo é para essas horas…

O dinheiro foi passado de uma mão a outra. O homem se despediu sorrindo, o outro ficou em casa meu ressabiado.

Os dias transcorreram, passou o dia dez, no décimo nono dia, o compadre que havia emprestado o dinheiro lembrou que o outro compadre ainda não tinha lhe devolvido os oitocentos reais. Ele então se dirigiu a residência do amigo.

Ao chegar defronte a casa, bateu palmas, chamou pelo compadre, após dez minutos de insistência, a esposa do camarada saiu à porta.

- Você está louco, compadre? Para que tanto barulho?

- Há dez minutos estou a chamar, pensei que não havia ninguém em casa.

- E mesmo assim continuou a gritar. Eu estava tomando banho.

- O compadre se encontra?

- Não. Ele saiu. Não, viajou. Só retorna amanhã à tarde.

- Precisava falar com ele ainda hoje.

- Só amanhã. Se for urgente terá que esperar. Um dia a menos, um dia a mais, tanto faz.

- Diga a ele que amanhã eu retornarei.

- Certo. Até mais, compadre.

- Até mais, comadre.

O compadre deixou o local de orelhas em pé. Já havia passado nove dias do combinado, a mulher tinha dito que estava no banho, porém estava suja feito uma porca. Nesse angu certamente tem caroço.

No outro dia, no final da tarde, o compadre voltou à residência do amigo. A comadre saiu e disse que o esposo não se encontrava. No outro dia cedo retornou, a comadre repetiu as mesmas desculpas. O compadre fez que foi embora, mas ficou a espreita. Não demorou em o devedor pôr a cara para fora, o danado estava lá dentro. Rapidamente retornou ao interior, pois escutara algum ruído.

- Compadre, compadre! – batia palmas. – Compadre!

A esposa do homem saiu igual uma fera a defender suas crias.

- Mas ainda há pouco eu não lhe disse que o meu esposo não se encontrava? Agora vem o senhor de novo azucrinar a vida dessa mulher trabalhadora.

- É que eu preciso falar muito com ele.

- Ele saiu e não tem hora para voltar.

- Vagabundo eu sabia que seu esposo gostava de ser, mas mentirosa eu ainda não sabia que a comadre era.

- O compadre está me chamando de mentirosa?

- Com todas as letras: mentirosa, mentirosa e mentirosa! O compadre está aí dentro, pois eu o vi sair agora mesmo.

- Esposo, você viu o que o desgraçado do seu amigo me disse: chamou-me de mentirosa.

O homem apareceu cuspindo fogo pelas ventas.

- Ficou doido, compadre? O que é mesmo que você quer defronte a minha residência? Quer perturbar a vida alheira?

- O compadre ficou de me pagar dia dez os oitocentos reais.

- Fiquei, mas agora é desaforo, não vou pagar mais. Como pode um amigo desconfiar do outro assim. Só porque veio me cobrar, agora é honra, não pagarei sequer um centavo.

- Mas você me tomou emprestado.

- O compadre prova? Assinei algum papel? Se não, não lhe devo nada.

- Se meus amigos são dessa forma, não quero nem saber como são meus inimigos.

- Depois dessa desfeita, não me considere mais seu amigo.

- Os oitocentos reais para mim, são oitocentos reais; minha amizade, amizade de longas datas, custa bem mais. Fique com os oitocentos reias. Tomara que não venha a precisar de mais dinheiro no futuro.

O compadre se foi, o compadre e a comadre ficaram, amizades despedaçadas, a vida segue entre tombos e glórias, o dinheiro sempre a dominar as relações.

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História de pescador

set 04 2014 Published by under Contos

piranha

- Rapaz, você viu aquelas piranhas nas margens do rio, todas assanhadas?

- Cada coisa linda…

- Só filé.

- Você pegou quantas?

- Eu? Apenas uma. Mas a que eu peguei era bela, bonita, grande, os olhos frescos como a água do mar.

- Conseguir pegar três.

- Rapaz! Três? Que homem de sorte. A que eu peguei estava uma delícia, gostosa. Que sabor! Sua carne era de uma suavidade.

- Olha aí a pescaria desse cabra safado! Disse-me que ia pescar, mas na verdade foi à procura das piranhas da rua de cima. Nunca pensei que o senhor tivesse coragem de fazer algo assim comigo. Perdeu o amor aos dentes, foi? Hoje lhe acerto o passo.

A esposa logo deitou a mão pesada na face do marido, o coitado rodopiou.

- Agora volte é vá comer a piranha novamente, seu safado. Ela não era gostosa, saborosa, com os olhos frescos como a água do mar?

- Você está louca, mulher? Eu me referia aos peixes que pesquei mais o amigo. Não sabia que piranha é uma espécie de peixe?

O amigo sorria fartamente ao presenciar a desgraça do outro.

- Não é nada disso que você imaginou. Nós estávamos pescando, referimo-nos as piranhas do rio e não as da cidade – explicava o amigo.

- Foi? – indaga a mulher triste e sem jeito.

- Eu é que sair no prejuízo, pois tomei um baita de um tabefe na cara. Mulher quando cisma com algo é pior do que onça acuada.

- É pior do que mordida de piranha, isso sim – zoa o amigo.

Tome muito cuidado com as palavras, pois as mesmas dizem bem mais do que o de costume.

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