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Padre foi obrigado a ir a cavalo – História de Sertanejo

dez 16 2016 Published by under Contos

As histórias vão surgindo dos acontecimentos rotineiros dos dias. Um momento pode-se transformar em um conto digno de ser narrado para que todos venham a conhecer. O que é a vida senão um amontoado de passado contado para alegrar e criar o presente. Nessa passada, tenho o prazer de deixar minha modesta contribuição.

- Chofer, quantas pessoas irão no automóvel até a sede? – indaga Mario.

O rapaz precisou ir à comunidade de Tabua para resolver algumas pendengas, tudo pronto, necessita retornar ao conforto da família e do lar.

- Somente eu e o vigário – respondeu o chofer pacientemente.

O motorista era amigo de infância de Mario, eram como dois bons irmãos.

- Se quiser ir conosco, faço questão de levá-lo – disse o chofer.

- Perguntei ao vigário se ele poderia me levar até a sede; ele me disse que não havia vaga, que o carro estava lotado. Agora o senhor me diz o contrário.

Tratava o chofer com muito respeito, por isso usava o tratamento senhor; naqueles tempos pregressos esta profissão imprimia certo glamour.

- Ele disse isso, foi? – indaga o chofer com certo ar na fala. – Pois é ele que não irá de automóvel. O danado terá que ir a cavalo. Deixe comigo. Ele me paga.

Não demorou muito, o vigário apareceu rodeado por várias pessoas da localidade. Despedia-se deles, enquanto adentrava no veículo.

- Dê partida, chofer – manda o vigário impaciente. – Vamos. Para que tanta demora! Preciso chegar cedo em casa. Tenho compromisso.

O chofer bateu a chave, o motor fez barulho, bateu novamente, o mesmo barulho. Saiu, abriu o capô, mexeu, retornou, bateu a chave, o mesmo ruído voltou a aparecer.

- Padre, o carro está com um pequeno probleminha – disse o chofer. – Vou consertá-lo. Mas vai demorar um pouco. Se o senhor tem pressa, melhor pegar um cavalo emprestado com alguém e ir à frente.

- Este carro foi dá problema justamente agora, logo agora que estava com tanta pressa – irritou-se o vigário.

- Máquina é assim mesmo: quando menos esperamos, ela nos deixa na mão.

Um senhor de imediato providenciou um animal para o padre. O chofer ficou encostado no carro, Mario do lado, a observar a partida do vigário. As pessoas acenavam dando um até logo. O dia já corria para o meio-dia, o calor do sol era avassalador. Pobre padre, iria padecer um bocado, sofreria pelo orgulho, pela avareza. Se tivesse ajudado o companheiro que precisava de carona, estaria viajando no conforto do progresso, mas usou do pecado e agora paga um pouco da divida com sofrimento.

- Viu, Mario, como se faz com pessoas ruins – falou o chofer. – Deixe o padre ir longe para descermos à sede.

- E ele não irá achar ruim e se irritar com o senhor, não? – indaga Mario curioso.

- Ele pensa que manda em mim, não sabendo ele que é ele que está sempre em minhas mãos.

O tempo correu rápido. Vinte minutos após, o chofer batia a chave e o automóvel ganhava vida.

- Vamos – falou o chofer. – Quero encontrar o padre ainda na entrada da sede. Quando ele colocar os olhos em você, cairá de costas. Vai ficar uma arara.

E o carro ganhou a estrada na maciez da modernidade. Sem força, no conforto de um banco acolchoado, ia os dois pela estrada de terra. Encontraram o vigário já na entrada da sede, parou o veículo ao lado do vigário montado no animal.

- Deu tudo certo, vigário – disse o chofer feliz. – O carro agora está pronto para viajar.

- Agora – reclamou o vigário. – Queime-me todo neste sol de rachar. Vou descer e ir com vocês.

- Não, vigário, não pode. E o cavalo? Vai deixar o animal do homem pelo meio da estrada. Está perto. Falta pouco mais de um quilômetro. Vou ficar aguardando o senhor na porta da sua residência.

- Eu vou no carro e o carona leva o animal – disse resoluto o vigário.

- Ele está com um furúnculo na coxa, não pode montar em cavalo tampouco andar a pé, ainda mais sob um sol deste. Continue a sua viagem. Está perto, poucos minutos você estará em casa.

Deu partida no carro e arrancou levantando poeira para irritar ainda mais o religioso. O padre nervoso, esquecendo-se do seu santo ofício, xingou Deus e o mundo.

Uma história baseada em fatos reias.

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Fazendo valer o voto – História de Sertanejo

out 15 2016 Published by under Contos, Vídeos

Assista ao Vídeo:

Fazendo Valer o Voto

Outro dia desses um rapaz veio, até a mim, procurar conversa. Sou da roça, do Sertão da Bahia, gente simples, contudo de grande sabedoria, esta conquistada na minha longa jornada pela vida. Ele logo me acusou que eu tinha vendido meu voto. Estranhei a acusação. Vendi meu voto? Que eu me lembre bem, nunca vendi voto algum. Sempre voto nos amigos, isso não escondo de ninguém. Pra que esconder? Se não for amigo meu, voto não tem em minha casa, não. Vou votar em estranho? Voto não. Sou louco! Só voto em amigo. Nesta eleição, o amigo meu, amigo do peito, amigo de todas as horas, já passou aqui em minha humilde residência para tomar um cafezinho e jogar um pouco de conversa fora. Recebi sua pessoa com muito respeito. Amigo que é amigo quando nos visita traz um presentinho. Ele me deu um fogão novinho, o meu estava velho, já tinha quatro anos de uso, presente dele no outro pleito. Minha mulher recebeu um bonito vestido. Minha filha, santa moça, irá se casar no próximo sábado, deu a ela a banda para a festa de casamento. Um amigo desse a gente tem que preservar. Cinco votos aqui em casa, todos dele. Quando o telhado aqui precisa de reparo, quem me ajuda? O amigo. Quando preciso ir ao médico, quem me serve? O amigo. Eu nunca na vida pensei em ter um amigo assim. Para falar a verdade, nem meu pai era assim comigo. Outro dia desses, o candidato da outra chapa veio à minha humilde residência. Recebo todos bem. Ele me pediu os votos. Disse que arranjaria um. O guloso achou pouco, queria tudo. Desconversei. Ele tomou café, comeu bolo e foi embora. Sequer deixou um quilo de sal como presente. Vou deixar meu velho amigo para me lascar encostando-se a mandacaru espinhento? Sou da roça mais não sou besta. O amigo voltou a jogar em minha cara que vender o voto é crime. Eu não tenho loja para vender nada. Vou repetir: só voto em amigo. Se for meu amigo, receberá meu voto, se não for, vá procurar outro para encher o saco. Disse também que eu tenho que votar com consciência. Não entendi muito bem o que ele quis dizer. Será que ele pensa que eu tiro o cérebro para votar? Acho que aquele cabra é contra meu amigo. Quer que o partido dele ganhe para ficar na carne seca com farinha. Oh bicho danado! Depois que passa a eleição, todos somem, desaparecem. Eu só tenho a recorrer aos amigos. Não adianta, juiz pode me pressionar, a polícia pode tentar me coagir, mas se não for meu amigo, prefiro votar em branco. Para finalizar esta conversa, preciso providenciar os preparativos para a festança do casamento da minha filha. O amigo foi o primeiro a ser convidado. Amigo bom a gente nunca se esquece.

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O jovem que não acreditava em Deus

jan 31 2016 Published by under Contos

O Universo é gigantesco, segundo os cientistas, ele continua a se expandir constantemente. Seus mistérios acalentam os sonhos de muitos indivíduos que param para contemplar tamanha possibilidade de sons, cores e formas. Se a vida estrelar se fizesse apenas no planeta Terra, por si só já seria estupenda a criação. Um simples passeio em um bosque, nele poderemos ver tantos fenômenos que fariam nossos neurônios ferver por não termos respostas satisfatórias para as primeiras inquirições.

Para que o pão chegue à nossa mesa, muita energia fora gasta em seu trajeto de criação. O bezerro nasceu fruto do acasalamento do touro com a vaca. Cada situação exige um autor, ou para cada efeito há uma causa. Não germina efeito sem causa tampouco causa sem efeito. Se algo existe, é sabido que também vive uma história de nascimento.

Em certa cidade, em dada família, vive um adolescente que se diz não acreditar em Deus. Para ele este negócio de um Ser soberano não cola. Os pais muito preocupados sempre buscaram meios para mudar o pensamento convicto do garoto. Convidaram padres, pastores, psicólogos e até um psiquiatra. Não teve jeito, a índole do menino era firme igual a concreto.  Irredutível, refuta acreditar nos pareceres que não se podem verificar racionalmente, é um verdadeiro cético.

Estava em um momento qualquer, um homem sentado em um banco, tinha seus cinquenta e poucos anos, bem afeiçoado, dava pinta de ser professor. O pai do jovem da nossa história passava pelo local. Eram velhos conhecidos. Parou para ter um dedo de prosa, como dizem por estas bandas do Sertão.

- Estevão, o senhor por aqui – disse o pai do jovem.

- Estou aqui pensando na vida. O senhor viu como Deus é generoso com a nossa terra. Que chuva boa foi esta da madrugada.

- Realmente. Uma chuva que revigora a esperança do sertanejo.

- Quando Deus quer, tudo é possível.

- Deus? – indagou ironicamente o jovem. – Você também com este negócio de Deus? Se Deus existisse, sequer seca teríamos que passar. Se Deus existisse, não haveria fome pelo mundo. Se Deus fosse o que todos falam que é, o mundo seria de paz e de amor. Deus é uma invenção do homem. Não acredito em Deus. Tudo que acontece há uma pessoa para afirmar que foi a vontade de Deus. Se alguém morre em um acidente, foi porque Deus quis. Se alguém passa no vestibular, foi Deus que obrou. Tudo na vida é de responsabilidade de Deus. A vontade das pessoas é anulada pela existência de Deus.

- O jovem tem pensamento. Encantei-me com a sua postura. Gostaria de se sentar para debatermos um pouco. Sempre podemos aprender um pouco mais, simplesmente, dialogando.

- Você fica mais o Professor enquanto eu vou ao supermercado fazer as comprar – disse o pai.

- Quando eu era da sua idade, ou um pouco mais velho. Você deve ter uns dezesseis? Dezessete. Eu tinha dezenove naquela época. Perdia tempo em imaginações que não me levava a lugar algum. Meu maior medo era morrer. Já parou para pensar na morte de si mesmo? Todos poderão morrer um dia, jamais a gente. O mundo sem mim, como seria? Eu sem as belezas do mundo? Quase enlouqueci. Minha cisma maior era com a morte; Deus não era um real empecilho para a minha vida. Se Deus existisse ou não, não faria a menor diferença. Mas a morte minha seria o fim de tudo. E isso, eu não o queria nunca.

- Se Deus existisse, a morte não existiria – afirmou o jovem.

- Deus é tão inteligente que até nisso Ele foi eficiente. Já pensou em um mundo perfeito? Qual seria a razão da existência da vida? Se eu soubesse todos os segredos do universo, qual seria meu novo desafio? A vida só tem sentido porque temos imperfeições a ser corrigidas. A culpa de existir a fome é mais nossa do que de Deus. Observe que nosso egoísmo criou os ricos e os pobres. A perfeição do mundo é justamente ser ele imperfeito. Se não pudéssemos impor transformações, não seriamos nada, no máximo uma rocha inerte e morta.

- As suas palavras não irão mudar minha convicção – disse seriamente o garoto.

- Façamos deste momento um simples bate papo. Creio eu que você também não conseguirá fazer com que eu abandone minhas convicções para abraçar as suas.

- As religiões criaram Deus como forma de se darem bem diante da sociedade. Elas querem o dinheiro dos fieis. Para isso falam em nome de Deus, como se elas próprios fossem o próprio Deus em carne e osso. Não posso aceitar. São todas hipócritas.

- De fato muitas pessoas ligadas às religiões aproveitam para tirarem vantagem da situação, mas se não existisse esta ideia de Deus na sociedade, tenha certeza, a vida social seria uma catástrofe. Deus é o freio do mundo. O ser humano tem medo da força de Deus e não reverência ao amor incomensurável do dono da criação.

- Digamos que Deus realmente exista. Responde-me apenas uma indagação. Se conseguir explicitar razoavelmente, mudarei de opinião. Se Deus é o todo poderoso, criador do Céu e da Terra, quem, ou o quê criou Deus. Como o senhor mesmo disse: cada causa tem um efeito.

- Como minha inteligência é limitadíssima; reconhecendo eu que sequer sei o básico de matemática; sendo minha pessoa nada diante ao espetáculo universal; como poderei eu saber uma resposta para tamanha indagação? As respostas estão soltas pelo cosmo, há tempo para cada colheita. Muito do que para nós atualmente é verídico, no passado sequer imaginavam ser possível um dia descortinar a descoberta. Estamos no caminho da evolução. Essa é a graça da vida, evoluir, aprender, conhecer, para quem sabe um dia termos um maior entendimento da magnitude de Deus.

- O senhor fala bonito, tem pinta de filósofo. Talvez seja plausível idealizar um Deus para reger esta multidão de bestas-feras, até conveniente para uma aparente paz, contudo acreditar nas leis e formas como nos são servidas, faz-nos meros fantoches abestalhados. Muitos não tiram a palavra Deus da boca um segundo só, não acredito que sejam eles santos; desejam passar obediência, na verdade vivem atolados em dúvidas. Hipócritas!

- Realmente. O ser humano se reverte por indumentária para tapar a feiura que o domina. O que vemos quase nunca reflete a realidade. A sociedade é um palco em que a população encena uma dramática e cômica peça teatral. Para sobressairmos usamos a palavra de Deus no reboco de nossa morada e no interior revestimos com as sutilezas de Lúcifer. A natureza social é uma piada.

- Todos querem parecer algo que não os são. Usam o nome de Deus para se engrandecer, para tirar proveito da conjuntura. Eles desejam Deus para seu bem próprio. Vivem de orações em busca de conforto material, de sucesso no relacionamento, de gozo em saúde. O que eles buscam em Deus são as benesses para suas fracassadas vidas. Enquanto poucos têm muito, muitos têm quase nada. Caso Deus existisse, não seria da vontade Dele um ato ignóbil com o que acabo de relatar. Há muita crueldade no mundo para que nele caiba um verdadeiro, bondoso e justo Deus. Desculpe-me, mas estou longe de acreditar neste Deus criado por vocês.

- Em meio há tantas perversidades humanas é sábio questionar, todavia devemos lembrar que o ser humano é um animal como todos os outros. Somos dotados de instintos, um deles nos governa com maior intensidade, o da conservação. Somos dominados pelo medo: pelo medo da perda, pelo medo da falta, pelo medo da visão da sociedade, pelo medo da morte…

- Não, não, não! Somos dominados pela dúvida. É difícil encontrar uma pessoa que relate piamente a verdade que o domina, elas carregam em si o pavor da reprovação do grupo em que se encontra. Por eu ter assumido minha posição de não acreditar em Deus, todos querem me crucificar, apenas por não está de acordo com os preceitos estabelecidos por outrem.

- Quando iniciamos nosso bate papo, pensei que a sua revolta estava na sua situação social. Por ser jovem, pensava eu que você desejasse possuir bens para saborear uma vida mais confortável e cheia de prazeres. Percebo que eu estava totalmente equivocado. Ter muito dinheiro, carro de luxo, tempo para ser gasto em festas e jogatinas, é o que a grande maioria deseja e sonha.

- Isso tudo faz brilhar meus olhos. Gostaria sim de ter essas coisas a meu dispor. Como não acredito em Deus, como não vejo muita esperança na vida, pelo menos pudesse eu desfrutar dos elementos bons que a existência humana, no momento, nos apresenta. Não é fácil para um jovem ver outros em melhor situação, gozando as delícias simplesmente por carregar no bolso o soldo da felicidade.

- Você está em que série? Já entrou para faculdade? Tudo indica que é muito competente no que faz e no que vier a fazer.

- A sala de aula é uma chatice só, um nojo. Não tenho empolgação, visto que não vejo perspectiva para meu futuro. Para que impor esforço, se no final seremos derrotado? Preciso de uma luz para que eu saia deste abismo em que me encontro. Talvez seria melhor ser como todos: viver iludido, fingir felicidade, sorrir sempre, cantar em pleno velório… Não sei ser falso comigo mesmo, ainda não aprendi a mentir para mim mesmo. Que adiantaria viver em um picadeiro cômico de um circo de quinta categoria? Neste mundo já há tantos palhaços que mais um menos um tanto faz, não faz diferença alguma.

- Busque o conhecimento, seu espírito carece respostas, então aprofunde-se nos livros. Não seja um inútil, não gaste seu precioso tempo com banalidades. Se Deus existe ou não, isso agora não podemos saber; quem sabe no futuro; mas tentar entender o mundo o qual estamos inserido é talvez a maior virtude e o maior duelo que um ser pensante tem como meta. Não seja ignorante ao ponto de ignorar o aprendizado, não digo esta fantasia de diplomas, sim, o verdadeiro saber. Quando se busca por respostas, quando fertiliza o cérebro, quando deixa de ser um cachorro, as linhas da vida começam a se ligar em uma teia infinita, um quebra-cabeça que será a energia para a nossa eternidade. O sentindo do homem pensante é pensar, é desvendar a cortina que tapa os sentidos, é adentrar na escuridão trevosa em busca de uma luz no fim do túnel. Você precisa se encontrar consigo mesmo. A vida lhe oferece vários caminhos, caberá a você escolher o melhor, ou se preferi, continuar a ser levado nas calmas ondas desta sua jangada sem sal e sem açúcar. É preciso acordar. Você não acredita em Deus, mas vou lhe dizer uma singela frase: “Foi Deus que me colocou em seu caminho”. Ele sabe do seu potencial, por isso Ele não deseja perder uma das suas boas ovelhas. No começo será difícil, contudo com o passar dos passos tudo irá se clarear paulatinamente. Seu pai vem chegando. Você precisa ir.

- E aí, como foi o bate papo? – indaga o pai do jovem sorridente, nas mãos levava algumas sacolas com as compras. – Por favor, filho, leve algumas. Já não sou mais um jovem.

- Claro, pai.

- Seu filho é um tesouro que em breve brilhará. Ele só precisa de um rumo, de algo que desabroche dentro da agonia que comprime o coração. Os caminhos estão soltos pelo ar, jovem. Busque o seu com afinco. O propósito maior da vida é a evolução do ser. Lembre-se sempre: o conhecimento, o conhecimento, o conhecimento. Até mais ver.

- Muito obrigado por ter sido franco comigo – disse o jovem. – Espero que voltemos a conversar novamente.

- Procure-me, pois adoro conversar. Como eu lhe disse antes: “Dialogando sempre aprendemos algo mais”. Vão com Deus.

- Obrigado, professor – disse o pai do jovem.

Com um vulcão dentro da alma, pela primeira vez na vida, o jovem não rebateu o nome Deus. A vida segue seus pareceres. As mudanças necessitam acontecer para que cresçamos. A Energia Vital possui seus mecanismos para reajustar a magnifica obra.

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Usando filha bonita para casar as feias

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O matuto do Sertão não é tão matuto assim. Sabe fazer contas, sabe criar casos, sabe escutar bem mais que os cabras da cidade, arquiteta como ninguém, na mente inquieta, maneiras para sobressair frente às peripécias locais. O sertanejo carrega em si o poder avassalador de uma rápida adaptação, é como um camaleão, só que munido de uma aguçada sabedoria. Às vezes, é taxado como doido, é taxado como besta, é taxado como anta; mesmo com o seu jeito despojado, consegue dá nó em vento. O homem do seco é tatu entocado, é suçuarana encurralada, é quem-quem avisado, é aroeira que não quebra tampouco enverga, é chão duro que só produz espinhos… Quando a pessoa chega com o fubá, ele de tempo já comeu o cuscuz. Não se brinca com pessoa possuidoras de tais qualidades, dessa cartola mágica pode sair uma miríade de truques e alternativas.

Aqui nas intermediações, fato que contaremos, ouvimo-lo da boca de gente honesta, há uma família de pessoas simples, modesta nos hábitos, recursos mensais contados. Apanhamos o caso por alto, voando em uma roda de conversa, para darmo-lo vida usaremos a imaginação e comporemos o enredo de uma possível história verídica.

A família de José, muito bem poderia ser a de João, Sebastião, Mário, Pedro, ou até mesmo de outro José qualquer, pois há tantos Josés por este universo que parece que o mundo foi feito deles para eles mesmos. Só não poderia ser a família de Washington, Henrique, Pablo, estes são nomes atuais, de gente de cidade, gente que se coloca acima dos demais, que se gaba do nome que tem. José e Maria, marido e mulher. Casal que nos remete ao passado bíblico, homenagens aos pais do grande mestre Jesus. Também temos muitas pessoas carregando o nome do grande Nazareno por aí, mas nesta família os filhos não puderam ser coroados com o título do Mestre, talvez por terem nascidos dez e no todo nenhum tenha saído varão.

Dez filhos, dez mulheres. José sempre sonhara com um menino, contudo a natureza só lhe entregou flores. Dez flores, flores que deveriam atrair beija-flores, das dez apenas duas eram vermelhas, cheirosas, cheia de néctar nos lábios, as outras oito eram flores que crescem em cacho, iguais, pequenas, esquecidas em meio à multidão que as cercas. As oito padeciam por germinarem em lua cheia. Dizem por aqui que quem nasce em dia de lua cheia tende a parecer com lobisomem; com traços toscos não chegava a tanto, mas espantava a curiosidade e a cobiça dos machos.

As duas flores vermelhas nasceram em lua minguante, longe dos efeitos tenebrosos da lua cheia, duas princesas. Das dez, elas foram as duas últimas a virem ao mundo. Começavam a desabrochar para a vida, estavam em plena adolescência. Maria teve dez filhos, um seguindo o outro, cada ano uma barrigada nova. Paria feito rato, acolhia sob suas asas uma ninhada de dez. As duas princesas atraiam os olhares dos “cabras”, dos matutos rapinas das intermediações e até de outros municípios. Aqueles meigos traços fisgavam os olhos de quem neles repousava por certo instante. As duas jovens adoravam a corte dos insetos que sempre passavam em frente à sua janela, contudo mantinha distância, temia a bravura do pai.

José andava preocupado com as filhas, a mais velha já estava com seus vinte e oito anos, ainda era uma donzela a sonhar com casamento. As outras nove também não tinham desencalhado. A norma das famílias da região sempre foi casar primeiro a mais velhas, sempre a mais velha até chegar à caçula. Com as mais novas, ele não se preocupava tanto, as mais velhas faziam a testa dele latejar. Vendo aquele movimento em sua porta, uma ideia tocou-lhe levemente em seus neurônios. Sorriu feliz. Iria resolver o problema que tanto o incomodava.

- Madalena, tenho uma missão para a senhora.

- Para mim, papai?

- Sim. Eu quero que você chame um desses rapazes que vira e mexe passa frente à porta em namoro.

- Mas eu não quero namorar nenhum deles.

- Você não irá namorar. Quando um deles se interessar por você, apenas converse com o matuto, diga-lhe que seu pai disse que com filha dele não há namoro, sim casamento.

- Eu estou nova para casar, papai.

- Faça o que eu lhe estou mandando, Madalena. Confie em seu pai.

Na mesma noite, um rapaz passou três vezes rente a moça que estava sentada em um banco sobre a calçada. Madalena o observava e sorria, tentava como uma flor atrair o afoito inseto. O matuto cheio de si criou coragem e puxou conversa. Ele sempre sonhara namorar a meiga Madalena.

- Meu pai disse que filha dele não namora, sim casa.

- Como assim? – falou o rapaz todo assustado.

- Se você quer algo comigo, deverá primeiro ir ao altar.

- Mas eu estou novo para casar?

- Sigo a risca as ideias de papai. Eu estou encantada com a sua pessoa, mas só poderemos ser felizes se casarmos primeiro.

- Sempre sonhei com você. Se for para casar, eu caso. Avise ao seu pai. Mande-o marcar a data.

- Para quando será o casamento?

- O mais rápido possível.

- Meu pai ficará feliz em casar a sua primeira filha.

- Mais feliz estarei eu após nosso matrimônio. Posso dar-lhe um beijo?

- Só depois das alianças. Regras de meu papai. Com o velho José não se brinca.

- Mas ele não está vendo.

- Você nunca ouviu falar que parede tem olhos e ouvidos? Só depois do casamento e pronto. Deixa de ser ansioso; um mês a mais, um mês a menos, passa rápido.

Corrido um mês, o rapaz estava no altar a espera da sua princesa. Sorridente, feliz da vida viu o pai da noiva adentrar ao templo guiando a filha. A noiva vinha com um lenço a tapar o rosto. José passou a filha ao noivo e ficou na retaguarda.

- Mas esta não é a Madalena! – protestou o rapaz ao ver os olhos da mulher.

- Esta é a minha primeira filha. Na minha casa, casa-se primeiro a mais velha, depois segue até a mais nova de todas. – O cano de um revolver ia rente à barriga do rapaz. – Ou casa, ou eu lhe matarei aqui mesmo, seu cabra. Será o primeiro homem a morrer em uma igreja vestido de noivo.

- Posso começar? – indagou o vigário.

- Quanto mais rápido melhor, santidade – balbuciou José.

A cerimônia transcorreu dentro da normalidade. A noiva estava radiante, iria se casar.

- Agora o noivo pode beijar a noiva – disse o padre.

- Beija-a agora! – José comprimiu o cano ao estômago do rapaz.

A primeira filha enfim desencalhou, restavam ainda nove. O velho José tinha a solução, a isca voltaria a ser armada; em breve um novo gaiato se perderia no olhar manhoso de sua linda e encantadora Madalena.

A oitava filha na linha hierárquica, diga-se de passagem, a mais feia de todas, foi ao altar graça a beleza da irmã mais nova e da esperteza do pai. O pobre do rapaz chegou a desmaiar no altar ao ver o rosto da noiva. Quis desistir, mas José o ameaçou, sacou a arma dentro da igreja e obrigou o padre a terminar a cerimônia. Após o casamento, o rapaz para enfrentar sua fera embriagava-se constantemente.

- Maria Bethânia, seu marido bebe demais. Você quer que eu faça com que ele entre nos eixos.

- De jeito algum, papai. Dentro de casa só somos felizes quando ele está embriagado.

- Por quê?

- Ele fala que quando está chumbado me ver com outros olhos. Ele disse que quando me viu pela primeira vez pensou está diante a Madalena, como naquela ocasião tinha bebido muito, acredita está na bebida a solução de seu problema. Quando ele está de fogo na bebida, ele coloca fogo no nosso relacionamento. Por isso sempre reservo um litro debaixo da cama. É só beber e o pau quebra. Quando está são fica amuado, triste, nervoso. Como sei a solução, mantenho-me paciente e prevenida.

- Você é quem sabe.

O rapaz sempre avisava nas rodas de boteco que bebia muito até chumbar porque não conseguia olhar para o rosto da esposa em sã consciência, quando ébrio tudo fluía a mil maravilhas.

- Para encarar o diabo só com muita cachaça na mente – afirmava o rapaz.

Das dez filhas, nove estavam casadas, apenas a filha que casou oito das irmãs ainda esperava por um príncipe.

- Madalena, chegou a sua hora de casar-se. Não me venha com homem feio e pobre, pois já tenho oito cabras sugando meu sangue, apenas um levou uma das suas irmãs para longe, justamente a que não precisou da sua ajuda. De dor de cabeça já ando cheio. E de prejuízo também. Deus me deu dez mulheres e nenhum homem.

- Eu só casarei por amor, papai.

- Olhe lá esse seu amor. Não me traga mais um matuto para comer da minha boia. De preferência esse amor tenha recursos, propriedades, posição social.

- Quero alguém com tudo isso e ainda por cima seja bonito. Depois de ter enrolado oito trouxas, conseguir um homem para mim não será muito difícil.

- Esta é a minha filha do coração.

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A felicidade é dona do meu ser

ago 20 2015 Published by under Contos, Crônica

Hoje eu acordei feliz da vida. Mal abrir-me os olhos e já soltei uma gostosa gargalhada. Não me pergunte por qual motivo, pois nem eu mesmo sei explicar. Um passarinho logo roubou minha atenção, corri à janela, o danadinho cantava em demasia, quanta ternura, quanto amor naquele singelo ato. Fiquei por alguns minutos ali perdido no meu delírio de contentamento. A avezinha se foi, eu deixei a janela e fui cuidar da vida. O sorriso me acompanhava por onde quer que eu fosse. As asperezas do mundo não achavam encosto em mim, estava brindado contra a perversidade humana. De tempo em tempo, soltava uma gostosa gargalhada, muitos me olhavam espantados. Estaria eu doido? Talvez seja fruto da felicidade deixar seus atores meio bobos. Certo momento, deparei-me com um indivíduo que, insatisfeito com meu estado de luz, resolveu lançar um obstáculo ao meu brilhante caminho. Pisou em meu pé com força, desejava um revide, queria acabar com minha felicidade nos bofetões. Olhei-o nos olhos, doía, como doía aquela atitude do camarada que nunca tinha visto na vida. A dor era tanta que para não chorar eu gargalhava. Um minuto cruel que demorou bastante para passar. Ele tirou o pé sobre o meu, e ainda por cima me empurrou, estava zangado e em fúria. Por onde minha felicidade passava incomodava a legião de depravados que pululavam ao meu redor. A luz do meu sol incomodava os asteroides apagados e duros de sentimento que vagavam pela vida feitos fantasmas prontos a colidirem com outros corpos. Estando a multidão atolada na lama, com a corda ao pescoço, queria me arrastar para a sujeira em que se via metida. Aqueles seres ruminavam as fezes que comeram no desenrolar da existência. O mundo humano insensato e perverso trabalhando para o mal-estar social. Sorrindo deixei o ar podre da cidade, das aglomerações, da imundície dos irmãos; sorrindo procurei o passarinho, pela primeira vez no dia meu sorriso alegrou outro ser, ser este que ao notar minha felicidade cantava cada vez mais para não cessar aquele instante mágico. Nossa amizade a partir daquele dia criou raízes profundas, passamos a nos ver todos os dias. Se meu sorriso não faz bem aos irmãos humanos, guardo-o para oferecer ao amigo passarinho. Não adianta compartilhar a luz com os que adoram a escuridão.

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Estou levando cadáveres no bagageiro do meu carro

ago 13 2015 Published by under Contos, Crônica

Amigo, estou transportando três cadáveres no porta mala do meu carro. Foi minha esposa que teve a maldita missão de degola-los vivos. Depois de mortos foram todos esquartejadas, lavados, temperados e assados. Aqui dentro do automóvel está um cheiro forte. Agora acabamos de passar defronte a um posto policial. O aroma era para chamar a atenção. Continuo a dirigir. Minha esposa está sorridente ao meu lado, feliz da vida, só pensa na praia onde estamos indo passear. Cheira bem esses cadáveres. Quando na areia da praia, vamos comer pedaço por pedaço; os ossos daremos ao nosso cão que não para de salivar na gaiola no banco de trás, parece estar com muita fome. Aqueles três frangos caipira que ontem estavam vivos, daqui a pouco cantarão nos nossos estômagos. O povo sempre a pensar besteira. Que eu saiba, matar frangos não é crime. Come-los também não. Deixe-me seguir viagem, hoje é feriado, é dia de praia, dia que se come frango com farofa e se bebe muita cerveja gelada. Observação: Na volta, a minha esposa conduzirá o veículo.

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Todos nós temos problemas

ago 10 2015 Published by under Contos

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Quem neste mundão de Deus não possui algum tipo de problema? As dificuldades fazem parte da vida diária de qualquer ser vivo; lutar pela vida, buscar o alimento, procriar e cuidar da prole são algumas asperezas do andarilho que segue o curso natural.

Vivemos em um mundo onde muitos tentam encontrar soluções para problemas complicados e difíceis de serem compreendidos. Procurar pelo auxílio de pessoas com dons sobrenaturais é algo corriqueiro na vida de algumas pessoas. Benzer, passar o ramo, fazer um despacho, jogar os búzios, ler as mãos, tirar o baralho…

Certo dia, uma amiga convenceu um amigo a ir à residência de um “benzedor”. De tanto insistir, de tanto implorar, o rapaz enfim fez o gosto da moça. Ao adentrar na moradia humilde, paredes sem reboco, uma mesa, quatro cadeiras, raios de sol a entrar por buracos no telhado, um gato dormindo no canto da sala. Três salvas de palmas, o senhor chegava de vagar apoiado por um pau que lhe servia de bengala.

- Boa tarde – disse o ancião.

- Como vai o senhor? – indaga a moça.

- Vou bem, minha filha, vou bem.

- Estamos aqui para receber a sua bênção – disse a moça.

O rapaz, quieto, estava com o rosto contraído, colocava-se na defensiva.

- O visitante não está muito a vontade. Sente-se. A casa é de pobre, mas de boa gente.

- Estou passando por uns dias pesados, sinto-me carregada – a moca explicou.

- Qual é o problema do rapaz mesmo?

- Não tenho nenhum problema – disse secamente o rapaz.

- Todos nós temos problemas – falou mansamente o idoso.

- Pois eu não tenho – redarguiu o rapaz com rispidez.

- Não ter problema nesta vida já é um problema, problema dos grandes. Seu problema é descobrir qual o seu verdadeiro problema. Seu problema, pelo jeito, é de difícil solução.

- Ele não acredita no seu poder de cura – explicou a moça.

- Eu não curo ninguém, minha filha. Quem tem o poder de realizar é o todo poderoso e bom Deus. Sou apenas um velho que dentro das possibilidades tento ajudar as pessoas que me procuram. O rapaz não precisa ficar de cara amarrada, não pretendo lhe convencer a nada. Acreditar ou não, tanto faz, pois a vida passa, passa rápida demais. O senhor diz não possuir problemas, mas sei que seus problemas a você pertencem. Tenho cá os meus, acredito que maiores que os do senhor. Nem por isso fico emburrado. Sua postura não resolve. Ser velho já é um lascado problema, conviver sempre com o medo da hora da morte é cruel. É natural ter medo do desconhecido. É natural. Vou colher alguns ramos para lhe benzer, minha filha.

O idoso foi ao terreiro ao lado, pegou alguns ramos de são-joão, retornou lentamente. O rapaz sempre o olhava de soslaio. A moça se colocou ereta. O benzedor foi passando o ramo pelo corpo dela, ao mesmo tempo balbuciava algumas rezas.

- Sinto-me aliviada – murmurou a moça. – Parece que tirei uma tonelada dos ombros.

- O rapaz deseja que…

- Não, muito obrigado.

- Sendo assim. Tudo bem.

- Nós temos que ir agora – falou a moça. – Outro dia retornarei.

- Fique mais, vamos conversar. Sei que não tenho estudo para uma conversa a altura, mas por ser velho tenho muita experiência de vida.

- Prometo que voltarei para uma conversa mais demorada.

- Não demore muito, pois sou um velho, e velho sempre tem que está preparado para uma abrupta partida.

- O senhor ainda viverá muitos anos.

- Sou um fruto maduro preste a se soltar do galho.

O rapaz se adiantou, venceu a porta; a moça o seguiu em passos lentos; o benzedor ficou a janela a observar a partida dos dois. Aquele pequeno encontro se desfez, os caminhos cruzados se desfizeram, cada um dos personagens procurou seu rumo.

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Um mais um?

jun 18 2015 Published by under Contos

Dois jovens dialogavam sobre tolices do dia a dia. Eles estavam metidos em assuntos furteis, literalmente “jogavam conversa fora”. A prosa seguia seu rumo costumeiro, algo vazio, sem importância, um tanto sem nexo. Nesta pequena roda de conversa, algo apareceu para tirar o sossego, um assunto nebuloso, forte o bastante para fazer-lhes perder os cabelos.

- Um mais um? – indagou Moreno.

- A prosa nossa está mesmo ruim – resmunga Galego. – A que ponto chegamos?

- Responda-me a pergunta que lhe fiz. Um mais um?

- Um mais um é dois.

- Um mais um é dois?

- Com certeza.

- Será?

- Claro. Todos sabemos que um mais um é dois. Foi desta maneira que aprendemos na escola.

- E dois mais dois?

- É fácil demais. Dois mais dois é quatro.

- Dois mais dois é quatro? Há algo estranho.

- Errado? Você está me chamando de burro?

- Cinco mais cinco?

- Cinco mais cinco é dez?

- Algo não bate. Parece que você não sabe fazer conta de adição.

A professora de nome Branca passava pelo corredor naquele instante.

- Professora! Professora! – grita Galego. – A senhora poderia nos responder uma pergunta?

- Claro. Qual pergunta?

- Meu amigo me indagou sobre uma questão de matemática. Eu o respondi corretamente, mas ele está falando que respondi errado.

- Sou professora de português. Talvez eu possa ajudar. Qual foi mesmo a pergunta que ele lhe fez?

- Professora, eu perguntei a ele quanto é um mais um – explicou Moreno.

- Eu respondi a ele que um mais um é dois, que dois mais dois é quatro, que cinco mais cinco é dez.

- Tem algo estranho na resposta dele, professora – fala Moreno. – Um mais um é dois, dois mais dois é quatro… Algo não soa bem.

- Não sou professora de matemática, todavia já sei qual é o erro. O erro se encontra na concordância do verbo “Ser”. Um mais um são dois, dois mais dois são quatro, cinco mais cinco são dez.

- Não lhe falei que tinha algo errado.

- Verdade. Um mais um são dois, dez mais dez são vinte…

- Tem mais alguma pergunta? – indaga a professora.

- Não – disse Moreno. – Muito obrigado por nos ter ajudado. Aprendemos muito nesta nossa conversa. Depois falam que jogamos conversa fora, às vezes aprendemos um pouco também.

- A vida ensina a todo momento – disse a professora enquanto começava a andar.

- A professora tanto é inteligente como bonita. Nunca mais me esquecerei que um mais um são dois… – reflete Galego. – Que professora! Com uma professora dessa eu seria o rapaz mais inteligente do mundo…

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Jumento Poeta

mai 01 2015 Published by under Contos, Crônica

jumento

Aquele que sabe algo, sabe tudo o que se sabe. O conhecimento abre portas tirando o ser da gaiola da ignorância. Quanto mais se ingere colheradas de aprendizado, maior é a fome. Na infinidade das coisas apenas o saber é capaz de transformar a inquietação do fim em algo plausível.

Certo dia, um Jumento, infeliz com a sua situação de burro, resolveu sair em busca de conhecimento. Algo dentro dele fervia, um calor tomou-lhe o corpo, empolgado correu em disparada atrás do seu novo sonho. Para muito, um objetivo complexo de ser alcançado, ainda mais se falando de um asno.

Passados alguns dias, o Jumento aprendera a vogal “A”. Ele saia pelos campos a soletrar a letra: um “AAAAAAAAAAAAAAA” um “AAAAAAAAA”. Qual foi o tamanho da felicidade que lhe apossava do peito. Os outros o olhavam de soslaio: “Endoidou de vez o pobre”.

Continuou na labuta do aprender, galgava a montanha passo a passo, as bruacas da mente vazias ganhavam suas primeiras sinapses. Um “AAAAAAAAA”, um “EEEEEEEEEEE”, um “IIIIIIIIIII”, um “OOOOOOOOOOOOO”, um “UUUUUUUUUUU”. Sentia-se um verdadeiro poeta, todos os outros jumentos o admiravam pela forma bonita que rinchava. Mesmo assim consideravam-no louco. Aprendera tão logo as consonantes, já sabia formar palavras. O jerico deixava a condição de burro.

De tanto tentar, de tanto buscar, conseguiu juntar os primeiros versos: “Eu fui jumento, não sabia as vogais, apenas rinchava, hoje ainda jumento, sou rico em conhecimento, um AAAAAAAA, um EEEEEEE, um IIIIIIIII, um OOOOOOOO, um UUUUUUUU”. Saiu a pronunciar sua poesia aos quatro cantos. Como pode um jumento se tornar poeta? Os amigos sem entender nada afastaram-se dele. Estava literalmente louco.

O Jumento ao adquirir um pouco de conhecimento viu crescer dentro de si a estrela do orgulho. Achava-se o maioral. Feliz com o que sabia, saiu a gozar de sua nova reputação. Considerava-se um gênio.  Nas suas andanças encontrou um idoso, um ser pálido, quieto, manso. O Jumento cheio de si, na sua petulância, quis zombar do senhor.

- Jumento, achas que sabes muito? Já paraste para observar o mundo? Quantas coisas há. Leias este livro que te empresto. Depois voltes que estarei aqui a te esperar.

O Jumento leu o livro uma vez, leu duas, leu três, demorou para entender o conteúdo. “Quem escreveu algo assim?”. Voltou a procurar o idoso.

- Que livro rico de informação – disse o Jumento.

- Escrevi este livro quando tinha quinze anos.

- Quinze anos?!

- Desejas que te empresto outros?

- Gostaria muito.

O Jumento passou a devorar um livro atrás do outro com farto apetite, quanto mais lia, mais inquieto ficava. Cada linha, cada parágrafo, traziam-lhe novas descobertas. O interesse só aumentava.

Em uma dada tarde, o idoso chamou a atenção do Jumento:

- Precisas deixar os livros por um tempo, precisas ir, sair e conhecer, aprender com as situações da vida. O mundo prático ensina muito. Basta de livros por um período.

O Jumento que escrevia livros, que fazia músicas, que recitava suas próprias poesias, saiu a perambular pelas cidades. Ao deparar com os humanos, na sua grande maioria ignorantes, analfabetos, viu que naquele espaço ele era um verdadeiro sábio. Em pouco tempo, conquistou o poder. Passou a carregar na cabeça uma coroa de alta majestade. Sabia como ninguém formular leis. A sua pátria prosperava, construiu escolas, universidades… A ignorância aos poucos deixava aquela terra. Sem motivação resolveu deixar tudo e ir a procura de novos sonhos. Já com a idade elevada, voltou a procurar o idoso. Ao chegar, apenas encontrou, sobre uma velha mesa de madeira, uma carta, nela uma frase estava escrita:

“Eu conseguir transformar um jumento em um sábio, agora é a sua vez de continuar com esta proposta que vem desde o começo do mundo”.

A carta foi escrita em uma língua antiga, somente seres de alto grau de sabedoria para entender tal frase.

O Jumento apoderou-se da casa, escrevia e estudava o tempo todo, esperava por um novo jumento, a proposta não poderia findar.

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Pagando propina

fev 19 2015 Published by under Contos

dinheiro_propina

Quem nunca ouviu falar no “Jeitinho Brasileiro”. Um legítimo filho da Nação, obra prima das mentes deste povo criativo. Anda por todos os locais, adora repartição pública, entra nos templos religiosos, dá olé nos gramados, palpita sem ser chamado à questão. O sucesso do indivíduo por aqui depende exclusivamente desse padrinho nacional. É cafetão, é bajulador, é bom de papo, é tudo o que você possa imaginar. Encontrando-se em uma enrascada, grite por ele, com certeza sairá do apuro na hora.

Estava um rapaz a dirigir seu automóvel pelas ruas pacatas da cidade pequena onde residia. Quanto menor o município, maior parece o poder do jeitinho brasileiro. Ao lado encontrava-se seu pai. Do nada ele foi surpreendido. Um guarda o mandava encostar. O que o homem da lei desejava? O coração do motorista batia forte, chegava a ouvir as pancadas no ouvido, suava frio. Algo esse guarda quer. Coisa boa não pode ser.

- Por favor, habilitação e documento do veículo.

Os documentos foram entregues à autoridade. Continuava a tremer.

- Tudo certo.

Que alívio escutar “tudo certo”, pensou o rapaz.

- Mas…

Meu Deus do céu, que diabo de “mas” é esse. O coração queria sair pela boca novamente.

- Por que os dois não estão usando cinto de segurança?

- É mesmo. É fruto do hábito.

- Sou obrigado a lhe multar.

- É seu dever cumprir com a sua obrigação de autoridade.

- Claro. Autoridade deve cumprir com o que manda a lei.

- Seu guarda, o senhor me cobra algo, contudo quem me defenderá das atrocidades do Estado?

- A Justiça.

- O mesmo governo que ora me aplica a multa, que me pune por uma falta, de nada sofre. Adiante, olhe os buracos na via. Quem multará o governo?

- Faz parte do sistema.

- Se eu não usar sinto de segurança, o grande prejudicado será eu mesmo.

- Não. Se você for hospitalizado após um acidente, o Estado gastará no tratamento do acidentado.

- Como? Os hospitais estão à beira da morte. Alguém lá não deveria levar uma multa?

- Não faz parte da minha jurisdição multar hospitais.

- Não tem jeito mesmo?

- Sempre tem um jeitinho.

- Tem?

- A natureza é tão linda. Dois peixes resolverão seu problema.

- Dois peixes? Tenho na carteira um peixe e uma onça.

- Desta vez eu farei um desconto pra você, mas só desta vez.

Os dois colocaram os cintos e seguiram. O jeitinho brasileiro reina soberano. A vida prossegue, a vida continua.

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