Archive for: maio, 2019

Inverno – Soneto

mai 27 2019 Published by under Poesia

soneto-inverno

Assista ao Vídeo:

Inverno

***

O dia hoje amanheceu tímido

Coberto por manto de nuvens

O vento, o frio, alegres aos pingos

Pingando aromas doces surgem.

***

Era sol, calor e quentura

Coração alado sem ventura

Basta o tempo se transformar

Para a ternura o amor voltar.

***

Com a temperatura nova

Um bom livro amigo se torna

A cama atrativo convite.

***

Banco da praça me namora

Deixo-me andar em meu cubículo

Pois me faltam amor e amigo.

***

Luiz Carlos Marques Cardoso.

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Você sabe com quem você está falando?

mai 20 2019 Published by under Crônica

Hoje eu acordei e de cara deparei-me com esta indigesta interrogação: “Você sabe com quem você está falando?”. Fiquei a olhar atentamente para aquele que me inquiriu. Olhei, olhei e olhei. Realmente, preciso pensar um pouco para formular uma resposta.

Eu estava defronte a um espelho. Nós dois nos encarávamos. Parecia a um duelo de filmes de faroeste americano. Quem irá atirar primeiro. Não, não, quem irá falar primeiro. Como ele não se mostrava confiante em abrir a conversa, decidir iniciar um bate papo.

- Quem é você?

No mesmo instante recebi a mesma indagação. Uma pergunta deveria seguir de uma resposta, mas seguiu da mesma interrogação.

- Meu nome é Paulo.

Ele tem o mesmo nome que eu. Estranho. Olhando bem o seu rosto, seus traços se assemelham com os meus.

- O seu nome é igual ao meu.

De novo falamos as mesmas palavras ao mesmo tempo. Parece telepatia. Que coisa estranha.

- Você mora onde?

Tudo que eu falo ele repete.

- Moro em São Paulo.

Ele também mora em São Paulo. Talvez ele more aqui perto. Poderemos ser bons amigos.

- Você mora aqui perto da rua x? Sim, moro. Poderemos ser bons amigos, então? Claro.

Que sintonia a nossa. Gostei dele. Parece muito comigo.

- Por que você sempre repete o que eu falo?

Não dá para ter uma conversa saudável com este rapaz. Ele está a debochar de mim. Como devo proceder diante dele? Agora, ele só me observa atentamente, parece meditar. Ele, com certeza, está armando alguma. Conheço este tipo de pessoa. Sujeitinho malandro.

- Pare de olhar para mim deste jeito!

Olhe a petulância dele, quer que eu pare de olhar para esta cara feia. Mas deixe comigo. Ele me paga. Sei lidar com gente assim.

- Mas você é arrogante! Sua mãe deve estar triste por ter um filho como você.

Eu estou perdendo o juízo com este rapaz.

- Você me respeite, seu cabra!

Acabou de me chamar de cabra.

- Deixe-me em paz. Vá procurar a sua turma.

Se eu pudesse, eu encheria a cara dele de porradas. Sujeitinho petulante.

- Vem cá, você tem namorada?

Ele deseja saber o nome de minha namorada. Será por quê?

- Cecília. Por quê?

O nome é igual ao nome da minha namorada.

- Cecília de quê?

Será se Cecília me traiu com este sujeitinho ordinário? Estou ficando preocupado.

- Cecília Aparecida Santos Silva.

Meu Deus, ela me trocou por este sujeito. Como ela pôde ser cruel assim comigo. Mas isso não irá ficar assim. Tenho que resolver esta situação agora. Nunca fui de violência, contudo não suporto mais tamanha tortura.

- Seu desgraçado! Toma!

Ele me feriu na mão. Como dói. Está sangrando.

Cadê você que sumiu? Apareça. Você sabe com quem você está falando? Volte para terminarmos o nosso duelo.

Uma porrada deferida contra o espelho fez desaparecer a sua própria imagem. Convivemos com nós mesmo o tempo todo, sequer nos conhecemos por completo. É uma tortura o diálogo de mim para comigo, pois as respostas recebidas das indagações feitas já foram processadas pelo mesmo canal. Não posso encontrar em mim o que não tenho no meu interior. Se não consigo diante do espelho determinar quem eu sou, como poderei exigir de outrem saber quem sou eu. Por isso uma inquirição assim só poderá ser feita perante o espelho, mesmo assim sem um resultado favorável, pois sequer nos conhecemos ao fundo. “Você sabe com quem você está falando?”. Com toda a certeza deste mundo: não, não sei.

Luiz Carlos Marques Cardoso 19/05/2019.

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Somos Garotos Propagandas Zero Oitocentos

mai 14 2019 Published by under Crônica

O que me leva a ser medíocre? A sociedade moderna está carregada de fatos em que raciocinados levariam certas pessoas a notar a sua estupenda basbaquice. A normalidade da massa encobre aberrações comportamentais. Se um grupo considerável de indivíduos segue certo modismo, nas muitas das vezes, tal ponto de vista se propaga como vírus. Quando estamos afogados neste lamaçal sequer nos damos conta da gravidade em que nos encontramos perante nós mesmo.

O que leva uma pessoa a adquirir uma camisa cara com a marca de uma empresa multibilionária de refrigerante? Usar tal camisa doada ou oferecida pelo patrocinador gratuitamente não seria tão grotesco, mas fazer propaganda pagando caro é algo que precisa ser estudado.

Vi uma foto de um jovem fotografado tendo ao fundo um painel com a marca de uma cerveja famosa no carnaval. Ele sorridente, feliz. Postou nas redes sociais achando aquilo o máximo do máximo. Meu Deus para aonde estamos indo? Que loucura. Além de pagar caro pela bebida, ainda assim se dá ao mico de fazer propaganda. Já não bastam termos de usar tênis estampando as marcas dos produtos.

Mas o ponto a ser abordado esteja justamente em mostrar aos olhos do mundo seu status como consumidor do capitalismo selvagem. Quanto mais caro for o produto, maior será o interesse em exibi-lo. Se o mundo atual o que manda é o dinheiro, mostrar, para quem tem recursos sobrando, vem a ser algo primordial na vida dos seres sociais. Viramos vitrines vinte e quatro horas. Neste tempo de redes sociais e fotos, então, parece ultrapassar as horas do dia.

Não percebemos a nossa idolatria impulsiva a certos fetiches. Muitos passarão a vida toda e nem os perceberão. Somos usados o tempo todo como estopim de enriquecimento de grandes corporações. O que fazer diante deste dilema peculiar? Cada dia que passa, é necessário, procurar-se policiar mais. Sabemos da pressão das mídias, sabemos da opressão dos grupos em que estamos inseridos, sabemos da força avassaladora das opiniões da massa. Precisamo-nos desviar de tais armadilhas. Quanto ao leitor, faça o que lhe aprouver. Se desejar vestir sua camisa do time do coração e sair gritando pelas ruas, saia, mas lembre-se de que teu ato particular estará servindo a certos interesses estranhos ao seu conhecimento. O manto sagrado para você é a fortuna do esperto que você nunca conhecerá.

Luiz Carlos Marques Cardoso – 13/05/2019.

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O que vem a ser melhor para nós

mai 07 2019 Published by under Crônica

“É melhor afastar-se do mundo pouco a pouco, em vez de tudo de uma vez” – Pio de Pietrelcina.

Lendo certo texto em um singular livro, deparei-me com a frase citada acima, dita por Pio de Pietrelcina. Busquei algo da biografia do autor, encontrei uma história bastante volumosa e cheia de mistérios. Ele tinha o poder de bilocação, poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, vários acontecimentos são mencionados, tornando-o especial. Ele foi um ser que passou pela Terra e deixou seu legado; se assim não fosse, não estaríamos falando de sua vida ainda agora.

Voltemos à sugestiva frase. O que ela quer nos dizer? Está clara para o leitor? O que vem a ser: “É melhor afastar-se do mundo pouco a pouco”. E o que insinua: “Em vez de tudo de uma vez”. Nos atuais dias, dias de um materialismo sedutor e catalisador da cultura universal, uma frase como esta vem na contramão de toda a ideologia aplicada na sociedade, na cultura reinante. Devemos, pouco a pouco, nos afastarmos da matéria que nos cobra fidelidade e amor incondicional, assim se deduz da frase. Os bens sedutores que nos roubam os sentidos nos deixando apaixonados sem noção e razão, eles devem ser repelidos pelo bom senso.

Ou fazemos, aos poucos, nosso desapego da matéria; ou faremos de uma só vez em um segundo de tempo em uma ocasião qualquer. A morte irá chegar, cedo ou tarde, com suas garras a nos arrastar sabe-se lá para onde. E toda nossa vida vivida em prol dos pertences que pensávamos serem nossos terminados da mesma forma que começou, como um enigma dos céus. Ao fechar os olhos para este mundo, o que de fato importou em nossa existência? O nosso suado patrimônio pula de mãos num estalar de dedos, o defunto até o corpo perde aos vermes e à terra. O que pensar da banalidade da nossa insignificante história.

Pio Pietrelcina foi formidável em estruturar tal frase, conhecedor da religião e do apego dos humanos pelo material, moldou algo que nos instiga a pensar no atual estado da nossa existência. Ele já transpor o lago da vida para eternidade, contudo o poder do seu verbo ainda vibra como notas agudas a mostrar aos que querem respostas o verdadeiro segredo do bom caminhar. Se não acumulei riquezas, se não erigir pirâmides, se não fui imperador, pelo menos sentir o cheiro das flores, pelo menos ouvi os cantos dos pássaros, pelo menos tive o prazer de viver, para mim só de estar vivo valeu todo o sacrifício da vida. Do mundo não se leva nada, apenas nos é outorgado a chance de saborearmos momentos felizes, momentos ruins, momentos diversos, momentos.

Luiz Carlos Marques Cardoso – 06/05/2019

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